Sobre «Origem e Epílogo da Filosofia»

Nos dias atuais, freqüentemente, ouvimos discursos que tratam das vantagens e das desvantagens sobre o ensino da História da Filosofia para jovens estudantes. Os discursos são apresentados numa tentativa de demonstrar a importância em despejar nas cabeças dos estudantes todo o legado do passado filosófico, reduzindo o ofício do amor ao saber, numa simples retilínea com sucessão de idéias mortas. Sabemos que é importante integrar o passado filosófico ao exercício de vencer os desafios contemporâneos. Nessa tentativa de vencer os desafios contemporâneos consiste o Filosofar. Para articular a História da Filosofia com o Filosofar, pensamos com o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) que trabalha esta questão em seu livro Origem e Epílogo da Filosofia, cuja organização se realizou com ensaios introdutórios para o livro História da Filosofia de seu amigo Julían Marías.

Para Ortega y Gasset, o passado filosófico constitui um emaranhado de idéias que se organizam numa série dialética. A série dialética é a apresentação das idéias que se opõem, mas que são dependentes entre si, e impulsiona uma dinâmica que move a história. O ponto de partida para o exercício do pensar é analisar o objeto que chega aos sentidos, mas não se esgota nos sentidos. Para o filósofo, ao analisar um objeto estamos empregando uma reflexão a fim de conceber um aspecto da realidade. Esta forma analítica de pensar é a primeira instância do pensamento.

Ao pensar em algo somos forçados a pensar nas coisas que estão à sua volta. O “pensar em torno” é o que acrescenta o pensamento analítico inicial e, por isso o complica porque força-nos a pensar nas circunstâncias de algo. Ao pensar no “em torno” estamos pensando nas circunstâncias. A dialética é a força que nos impulsiona e nos mantém pensando, considerando sempre o objeto e as coisas à sua volta. A obrigação que temos em assumir a tarefa de pensar é dada pela realidade vital, porque esta realidade não pode ser negada, pois é experimentada e vivida.

O primeiro aspecto que a análise de algo nos oferece é a apresentação de uma multidão de opiniões que o cerca. Mas sobre estas opiniões empregamos a elegância em saber escolher o que melhor se adapta para o nosso juízo. Para Ortega y Gasset, a palavra “elegância” conota o sentido latino “eligentia”, que ao adicionar ao prefixo “int” obtemos “inteligentia”, que significa o hábito de escolher. O termo “elegância” é um dos principais elementos da ética orteguiana. Por elegante entende-se o homem que nem faz, nem diz qualquer coisa, mas faz o que é preciso fazer e diz o que é preciso dizer.

Para Ortega y Gasset, a fisionomia do passado é constituída por ruínas. Estas ruínas são os erros que nos foram legados pelas diferentes gerações que viveram os problemas de sua época. Assim, cada filosofia leva em conta os erros de outras teorias filosóficas esperando não repeti-las, pois como diz o filósofo:

Cada Filosofia aproveita as falhas das anteriores e nasce, certa de que, pelo menos nestes erros não cairá (Origem e Epílogo da Filosofia. p.160).

A verdade é difícil a ser alcançada, porém o erro é facilmente encontrado. Ortega y Gasset, entende que o erro nos aparece naturalmente. No entanto, não existe um erro absoluto, porque mesmo do erro pode-se extrair algo positivo. O termo “cético”, por exemplo, surgiu no auge da cultura grega e não pode ser aplicado a aqueles que “não acreditam em nada” como pensam algumas pessoas. Os céticos eram “homens terríveis” porque não deixavam as pessoas viverem sem questões. Para Ortega y Gasset, os céticos “extirpavam a crença nas coisas que pareciam mais certas” (Idem. p. 163). O sentido original do termo cético é a ocupação em exaurir as verdades do vulgo, a fim de colocá-las em apreço para análise e reflexão, e enfim coloca-las em dúvida. Ao questionar, os céticos se empenha em refutar, isso funciona como um choque, porque demonstra que a verdade ordinariamente assumida é insuficiente para explicar o que se propõe.

Para explicar os problemas atuais, deve-se percorrer todo o passado filosófico, com uma visão arqueológica. Ortega y Gasset explica que a Filosofia atual tem como referência a Filosofia anterior. É como percorrer um itinerário mental que todo aquele que se propõe a pensar a realidade terá que seguir. O ato de percorrer simplesmente o passado filosófico sem identificá-lo com os problemas atuais das sociedades, consiste numa tarefa da mente adestrada. Esta mente adestrada, percorrerá a série dialética do pensamento numa educação filosófica sem o esforço de refletir, mas como uma ginástica de cultivar a memória. Para refletir o passado filosófico buscando fundamentos para explicar a sociedade contemporânea não basta abandonar os erros precedentes, mas integrá-los a fim de edificar um conceito novo.

Para o filósofo espanhol, o passado filosófico nos deixou idéias que não são as mesmas que temos atualmente. Isso significa que um segundo olhar sobre algo revela-nos detalhes que primeiramente não percebemos. A cada olhar o objeto deixa-nos escapar alguma revelação:

Proponhamos ver uma laranja. Primeiro, nós vemos dela apenas uma face, um hemisfério e depois temos que mover-nos e ir vendo hemisférios sucessivos. A cada passo, o aspecto da laranja é outro que se articula com o anterior quando este já desapareceu, de modo que nunca vemos junta a laranja e temos que contentar-nos com vistas sucessivas (Idem. p. 182).

Ortega y Gasset explica que mesmo Platão (427-347 a.C.) quando se refere à idéia como algo totalizante, na verdade busca exprimir a noção de um aspecto da realidade. Isso significa que, não existe nada que possa ser apreendido em sua totalidade. O modo de o homem ver as coisas é sempre um modo de apreender um determinado aspecto. A verdade é sempre perseguida e nunca alcançada. A verdade é o resultado da adição dos vários aspectos que conseguimos apreender da realidade. Por isso, há a necessidade de estabelecer sempre um processo dialético como integração para fundamentar um conceito novo.

Ortega y Gasset não dá ao termo “dialética” o sentido adotado pelos românticos alemães, que em seus sistemas declarava uma grande caça a verdade em nome do Absoluto. O pensador entende o termo “dialética” como um conjunto de fatos mentais que resultam ao se pensar a realidade. A realidade mostra a soma integral de seus aspectos e numa operação dialética podemos: parar, prosseguir, conservar e integrar, nunca deixando de refletir o presente.

O passado filosófico nos chega pelos títulos dos livros e o nome dos seus autores. Os títulos e os nomes dos autores são apenas uma referência aos problemas que eles tenta explicar em suas épocas. Para tentar explicar os problemas que afligem sua geração, os autores precisam aplicar a “alethéia”, que é o nome primogênito da Filosofia.

Por “alethéia” entende-se descobrimento ou revelação. A Filosofia, para Ortega y Gasset, é “uma faina de descobrimento e decifração de enigmas que nos põe em contato com a própria e nua realidade” (Idem. p. 210). A “alethéia” é a própria verdade revelada.

O que fazia o homem com sua mente antes de pensar o mundo? Para Ortega y Gasset, todo pensar possui um subsolo, um solo e um adversário. Antes de o homem iniciar seu pensamento sobre o mundo existiu algum subsolo que o suportou e o impulsionou a pensar. No passado grego, esse suporte e impulso foram à falta de credibilidade nas explicações divinas.

Ao filosofar o homem exercita sua liberdade. Para Ortega y Gasset, a liberdade não brota da ética e nem da política porque estas instâncias não são a raiz da vida. A liberdade é a escolha entre as carências de necessidades vitais. O filósofo explica que o círculo das possibilidades é bem maior que o das necessidades. E a vida é pobreza, portanto necessidades. A vida é sempre insegura. A dúvida é o meio pelo qual o homem sai de suas necessidades. O filósofo René Descartes (1596-1650) ensina que o método é a reação a uma dúvida, e foi nesta perspectiva que Ortega y Gasset explica que para suprir as necessidades deve-se recorrer à dúvida porque ela é postulação de um método.

A mais antiga divisão do pensamento humano acontece entre o sagrado e o profano. O deus que aparece nos tempos remotos da Grécia não é um deus religioso, mas um deus conceitual. Este deus conceitual é produto da racionalidade, que consiste na livre escolha para buscar um novo fundamento. A essa livre escolha dá-se o nome de Filosofia. A tonalidade própria do pensador é o insulto ao vulgo, pois é sua a missão de possuir idéias opostas à opinião pública. A preocupação dos filósofos gregos era discutir sobre eles mesmos e sobre a vida na polis. A palavra “Filosofia” devia circular neste ambiente para significar a ocupação com todas as novas disciplinas – desde a Filosofia Natural até a Retórica. A Filosofia é uma tentativa de explicar o mundo, interagindo o passado com o presente e ampliando os seus horizontes nas mais diversas disciplinas. Toda descoberta científica, toda verdade nos põe numa visão repentina e imediata de um mundo que até então desconhecíamos e com o qual não contávamos. O diálogo filosófico nos impulsiona para novas descobertas.

BIBLIOGRAFIA

ORTEGA Y GASSET, José. Origem e Epílogo da Filosofia. Ibero-Americano: Rio de Janeiro, 1963.

Danilo Santos Dornas
Graduado em Filosofia
Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea – Ética
Universidade Federal de São João del-Rei




Os fundamentos de uma pedagogia raciovitalista

Neste trabalho, examinamos quais são os fundamentos de uma pedagogia raciovitalista segundo o pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Adicionalmente, procuramos compreender qual a postura do educador e do educando nesse modelo teórico.

Palavras-chave: Filosofia, Educação, Raciovitalismo.

Considerações iniciais

A pedagogia é a ciência que investiga os pressupostos teóricos da educação. Para pensa-las valemos-nos das indicações do pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Ele analisa os problemas sociais que afligem sua geração. Desse modo, se depara com as idéias educacionais que necessitam de uma investigação singular. Para Ortega y Gasset a ciência pedagógica não pode apenas abordar um tema, mas precisa instaurar uma postura crítica diante da situação sociopolítica e cultural alterando-a para melhor.

Nosso trabalho tem por objetivo examinar os fundamentos da pedagogia raciovitalista. Além disso, buscaremos compreender como os estudantes devem proceder dentro desse modelo educacional que lhes permitirá crescer como seres únicos, equilibrados e criativos. Por outro lado, o educador, seguindo as indicações da pedagogia raciovitalista, deve aprofundar os fundamentos das teorias pedagógicas do século XX, porque um educador tem que ser mais que um regulador ou transmissor daquilo que é preciso aprender numa certa circunstância. O educador deve ser capaz de atualizar as potencialidades do educando.

Nos últimos dois anos, nós nos dedicamos ao estudo de alguns aspectos da Filosofia de Ortega y Gasset. Este trabalho, faz parte de um projeto maior sobre a Filosofia da Educação que estamos desenvolvendo com o apoio do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico, nos Programas de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), sob a orientação do Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

As referências principais para a realização deste trabalho foram as Obras Completas, de José Ortega y Gasset, editadas em Madri, pela Alianza. Além disso, valemo-nos dos artigos da Revista de Estudios Orteguianos e das obras de Margarida I. A. Amoedo intitulada José Ortega y Gasset: a aventura filosófica da educação, editada em Lisboa, pela Estudos Gerais e de José Mauricio de Carvalho intitulado Introdução à Filosofia da Razão Vital, editada em Londrina, pela CEFIL.

I Como se pensava a educação nos tempos de Ortega y Gasset?

José Ortega y Gasset apresenta suas idéias pedagógicas contrapondo-as às idéias educacionais então vigentes. Naquele momento as teorias da educação consagram o saber prático. Assim, verificamos que o principal problema educacional de sua geração é a conversão dos conceitos educacionais nos termos das ciências técnicas.

O problema da educação, nesse caso, é sempre um problema de eliminação. Eliminação significa a capacidade de o homem selecionar o que é essencial para sua vida, eliminando o que não é. As funções essenciais que o homem deve perseguir são de ordem psíquica e é essa ordem que o distingue de uma máquina.

As máquinas são construídas a partir da dificuldade do corpo humano em realizar determinadas tarefas. Para Ortega y Gasset, as máquinas trabalham em limitadas condições e reduzem a atividade humana ao mínimo, impedindo distinção entre o vital e o operacional. O filósofo, é necessário distinguir a função vital e o substituto dela quando se emprega uma máquina. Eis o que diz nos Ensayos Filosóficos:

O uso da bicicleta é mero mecanismo e, portanto, menos vital que o uso do pé, tampouco este representa a vitalidade essencial, também é um mecanismo em comparação com outras funções biológicas primárias (O. C. II; p. 276).

A ciência do século XX preocupa-se sobretudo com os estudos orgânicos. Ortega y Gasset entende que ensinar o homem pelos modelos funcionais, como as teorias mecânicas então predominantes, não permite entender as realidades vitais do homem. Então, o filósofo indaga: quais são as realidades vitais do homem? Para ele, são três: 1) a realidade mecânica ou técnica, que em seu conjunto chamamos de civilização e correspondem a montar uma bicicleta; 2) as realidades culturais do pensar científico, que se inserem numa vitalidade psíquica dentro de causas normativas, e é com esta que a pedagogia da razão vital deve se preocupar para que haja a capacidade do homem em eliminar o que é desinteressante de sua vida; e 3) os ímpetos originais do psiqué, como as emoções. Essas três realidades distinguem os homens, mas são raízes da existência pessoal. O erro das concepções pedagógicas de sua época foi supor que ensinar técnicas ao indivíduo iria dotá-lo de visão científica e de uma inteligência inquestionável.

II A vida espontânea como processo de adaptação

Ortega y Gasset, no ensaio intitulado Biologia y Pedagogia, explica que a missão da escola é preparar o homem para a vida. Para isso, ele completa, as escolas poderiam ensinar a educação cultural e a civilização para constituírem um instituto que permaneça idêntico desde os tempos mais remotos do passado e estimular a criatividade para o educando enfrentar os problemas do futuro. Para o filósofo, é mais urgente e necessário educar o homem para uma vida criadora do que para repetir técnicas.

O ensino das técnicas é adequado para quem precisa se especializar numa função que não seja essencial para sua vida. Ortega y Gasset explica que o ensino técnico era considerado a principal forma de educar o homem porque sua geração passara por uma circunstância muito singular. A geração que antecedeu à sua preocupou-se com a exploração de minerais e, assim, com a configuração de uma realidade limitada, o que impedia um olhar mais aguçado para o futuro. Também ficou sem função a possibilidade de admirar ou contemplar o mundo que está na raiz de todo conhecimento humano.

O estudo da realidade principia com um impulso inicial que é a admiração. Ortega y Gasset nos lembra que a admiração fez mover a Filosofia nas suas origens gregas. O filósofo conclui que a admiração no povo grego nasce não só da sua cultura, mas também devido a um perfil psicológico caracterizado pelo desejo de riqueza, glória e sabedoria. Uma pedagogia, para ter sucesso, tem que sistematizar a vitalidade espontânea dos educandos. Para realizar essa tarefa, os filósofos da educação devem analisar, equilibrar e corrigir as deformações que surgiram na história.

Ortega y Gasset entende que o homem não tem natureza, mas história. Por isso, contrapõe suas teses educacionais com as de Jean Jacques Rousseau (1712-1778), para quem a vida espontânea deve ser negada e a vida primitiva, valorizada. Entendemos que tratar o homem primitivo como selvagem, como fez Rousseau, significa centrar a distinção entre homem selvagem e homem civilizado nos recursos técnicos que cada um dispõe para a sobrevivência. E isso consiste em admitir teoria “progressista” como processo único de construção do saber humano. Porém, essa teoria “progressista” não entende que a origem da civilização aconteceu ainda entre os homens primitivos quando estes sentiram a necessidade de organizar-se em comunidade.

Ao contrário do que pensa Rousseau, Ortega y Gasset diz que a educação nunca será uma ficção da natureza. O filósofo espanhol entende que entre os anos de 1850 e 1900, os pensadores definiram que a vida essencial era a adaptação do homem ao meio em que se encontra. Essa característica atende somente à sua vida orgânica. Na passagem seguinte, Ortega y Gasset sintetiza as conseqüências de semelhante modo de pensar:

A mão, sobretudo no homem, é o órgão exemplar da adaptação criadora, que consiste em transformar proveitosamente o meio (O. C. II; p. 284).

A biologia refere-se à vitalidade como um processo de adaptação. Esse mesmo propósito orienta a psicologia, cuja vitalidade psíquica é inspirada na biologia orgânica do século XIX. As teorias biológicas e psíquicas daquele século entendem que a percepção do mundo circundante inicia-se num processo de adaptação do sujeito ao meio em que está situado. Esse processo relaciona a vida com o meio e é regido por ele. Porém, explica Ortega y Gasset, ao penetrarmos fundo na alma, percebemos extratos profundos que dificultam a adaptação ao meio.

Para Margarida Amoedo, o conceito de “paisagem” que o filósofo propõe, visa combater a categoria biológica de “meio”. Em nosso entendimento, o conceito de “paisagem” significa que cada espécie animal tem o seu lugar e que o homem vive em toda parte. O termo “paisagem”, além de diferir do “meio”, significa o conjunto das circunstâncias que o homem encontra em sua vida. Desse modo, “circunstâncias” e “paisagens” são ao mesmo tempo uma limitação para o homem e um conjunto de possibilidades.
Com o conceito de “paisagem”, podemos auferir as seguintes implicações pedagógicas: 1) o êxito da aprendizagem depende do uso de mecanismos adequados; 2) a compreensão da paisagem do indivíduo permite investigar seu potencial criador; e 3) educar deverá ser sempre o causador de paisagens novas.

III A forma psíquica inadaptada e a pulsação vital como sentimento de vitalidade

No item anterior, procuramos explicar em que consiste a adaptação e como o conceito foi introduzido nas teorias pedagógicas. Consideramos também que essas práticas educacionais suscitam dificuldades porque não incentivam a criação humana. Agora, em contraposição ao que proclama essas teorias, vejamos como Ortega y Gasset aborda a forma psíquica como a mais rica, enérgica e abundante.

Para fazer essa elucidação, recorremos, com o filósofo, às palavras: “querer” e “desejar”. O “querer” significa apropriar-se da realidade de algo e dos meios que se utiliza para fazer algo; o “desejar” implica em dar conta de que o desejado é relativo ou absolutamente impossível. Na criança, essa distinção não existe. Quando sua experiência lhe mostra o que é ou não possível, sua vontade vai se modificando entre o realizável e o irrealizável. A sua existência torna-se uma constante luta de fronteiras entre o “querer” e o “desejar”. Assim, o “desejo” é um “querer” fracassado. Porém, Ortega y Gasset nos explica que é o “querer” que nutre o “desejo”, movendo-o e ampliando-o. Assim, o desejo é o motor dentro do universo psíquico porque significa o homem sentir suas necessidades e empenhar-se em buscá-las.

A esfera política, Ortega y Gasset explica que a “barbárie” resulta do triunfo do homem que tem poucas necessidades. No caso, as suas necessidades são reconhecíveis pelo homem de forma íntima, abrindo as possibilidades para que ele saia de suas circunstâncias pelo “desejo” de ampliar os seus horizontes.

Uma pedagogia voltada para a adaptação do indivíduo ao meio exclui os “desejos” e a possibilidade do indivíduo realizar grandes feitos porque exalta as tarefas que os mestres julgam praticáveis. Assim, os mestres cegam o indivíduo de suas possibilidades e de suas potencialidades criadoras. Uma pedagogia raciovitalista considera que o pensamento é a ação sobre a outra pessoa porque influi na relação com o outro. Desse modo, a censura muitas vezes empregada pela pedagogia de adaptação pode nascer tanto do amor quanto do rancor que temos ao outro.

Para o filósofo, as emoções que sentimos na relação com o outro revelam nossas instâncias psíquicas e são elas que nos dirigem, nos alimentam, nos deprimem, mas que também nos são íntimas e podem nos nutrir. Essas emoções são influenciadas por uma dinâmica psíquica que varia entre os homens. Isso significa que o sentimento de vitalidade existente em cada homem parte de um pulso psíquico íntimo que o faz viver os desafios de sua época.

Não há que se esperar valores éticos nos pulsos vitais, mas cabe ao homem assegurar sua saúde vital. Nesse contexto, o filósofo explica que a pedagogia deve preocupar-se em submeter a atividade educacional aos ditames do imperativo de vitalidade. O ensino fundamental, explica o filósofo, deve ter o objetivo de produzir o homem vitalmente perfeito. Isso quer dizer que o homem deve sentir sua pulsação vital já no período inicial da formação. Ortega y Gasset ainda explica que as demais ciências, a moral, a técnica e o ideal de cidadania não devem ser a preocupação inicial da pedagogia raciovitalista, eles serão preocupações posteriores do educando.

IV A importância dos mitos na educação fundamental

Até aqui, identificamos o perfil da pedagogia raciovitalista; entretanto sentimos a necessidade de abordar a questão dos mitos porque ela interfere na educação fundamental. Na educação fundamental, o indivíduo necessita estar envolvido numa atmosfera de sentimento audacioso, ambicioso e entusiasmado. Por isso, a importância dos mitos.

Uma pedagogia prática, certamente, desprezará o ensino dos mitos por considerá-los um emaranhado de imagens fantásticas e, em contraposição, procurará colocar no indivíduo a idéia exata sobre as coisas. Essa pedagogia rejeita a noção que o mito possui uma função interna sem a qual a vida psíquica ficaria paralisada. Ortega y Gasset nos explica que o mito nutre o pulso vital e, por isso, o filósofo o denomina de “hormônio psíquico”. O filósofo ainda acrescenta que, até o século XIX, o “meio” é o mundo físico-químico onde estão os indivíduos, e eles teriam que se adaptar a ele do melhor modo possível. Assim, a biologia transforma os fenômenos vitais em fenômenos mecânicos. As coisas, no entanto, não se relacionam por atividades mecânicas.

A incompreensão do ensino fundamental vigente é a suposição de que os educadores dispõem que, na vida educacional, os educandos possuem o mesmo mundo que o dos educadores porque sempre partem do próprio mundo como algo definitivo, pronto e acabado e porque acreditam na pedagogia prática. Entretanto, o mestre com a formação prática esquece que a maturidade e a cultura são criações da criança e do selvagem. Para Ortega y Gasset, a maturidade não é a superação da imaturidade, e sim uma interrogação da realidade que se apresenta ao indivíduo. Para o filósofo, a pedagogia de Rousseau se assemelha ao uso de um método cruel porque intenta suplantar a paisagem natural da criança com os elementos que rodeiam as pessoas maiores. O filósofo ainda explica que o homem é um conjunto de órgãos seletos que interferem na realidade circundante; porém, o “meio” depende não só de sua estrutura corporal, mas também de sua estrutura psicológica. É essa a importância de ensinar os mitos ao jovem, para que ele possa exercitar sua pulsação vital.

O jovem imagina uma realidade ilusória e, por isso, sua educação vai se consolidando na medida em que as interrogações vão perdendo as ilusões. Esse processo de desilusão inicia-se quando a razão começa a operar em torno do novo objeto. Todo empenho da razão será guiado pela vontade de saber e obter uma noção exata do objeto de elaborar uma cópia intelectual que o transcreva como ele aparece. Para Ortega y Gasset, não há nada que chegue até nós num primeiro instante que não nos cause uma dupla reação: história e lenda. A lenda ocupa tanto nossa paisagem que até mesmo a ciência pode ser incorporada nela, completa o filósofo. Trata-se de uma crítica ao positivismo, que é exemplo de uma grande exaltação acrítica à ciência, fazendo fundar-se até uma religião constituída por mitos.

V O ato de estudar na pedagogia raciovitalista

Até aqui, discutimos os principais conceitos presentes na pedagogia raciovitalista. Passamos agora a considerar o perfil do estudante e o ato de estudar. Para o filósofo, o ato de estudar consiste na constante busca da verdade. Sendo assim, a verdade é o fator que acalma a inquietude de nossa inteligência. Nessa perspectiva, Ortega y Gasset explica que o saber deixa de ser científico. Isso, completa o filósofo, ocorre também com a Metafísica. Para quem não vê uma necessidade da Metafísica, os seus assuntos consistem num falatório sem sentido.

Para compreender o sentido dos discursos metafísicos, não precisamos de nenhum talento ou sabedoria inata, mas de uma condição fundamental: investigar para que serve a Metafísica. Ortega y Gasset entende que para aceitar sua necessidade deve-se reconhecê-la como um sentimento próprio e, da mesma forma, possuir uma necessidade das coisas que nos chegam da realidade. Assim, percebemos que a necessidade em conhecer é o motor que precisamos para buscar a descrição das coisas que nos chegam.

Nesse processo, ainda cabe esclarecer a questão: o que é o estudante? O estudante é um ser humano a quem a vida não impõe a necessidade das ciências. O estudante encontra a teoria e é estimulado a aprendê-la. Em contrapartida, está aquele que cria a ciência, pois sente uma necessidade vital e tem satisfação em edifica-la. Desse modo, não é o desejo que resulta no saber, mas a necessidade em saber. Podemos ainda completar que o desejo não existe sem que exista uma coisa desejada; ao contrário, a necessidade é percebida quando uma carência brota na alma e precisa ser preenchida.

O estudante tenderá a não questionar o conteúdo da ciência que lhe foi comunicada. Ao contrário, quando está diante de um conceito determinado se sente acomodado e amparado pela teoria e passa a crer que ela é definitiva, pronta e acabada. Existe uma outra questão que deve ser analisada. Ortega y Gasset indaga se, caso a ciência não estivesse aí, o estudante sentiria a necessidade dela. Para responder, o filósofo explica que a situação de estudante é artificial, ele apenas finge a necessidade. Portanto, o ideal é que o estudante tivesse um sentimento urgente que brotasse na alma com o intuito de desbravar os diversos saberes. Mas estudar tem sido em nossa cultura a obrigação de se interessar pelo que não interessa.

O perfil do criador, para Ortega y Gasset, se baseia na curiosidade. Em Martin Heidegger (1889-1976), a palavra “curiosidade” sugere um sentido que parece adequado ao que Ortega y Gasset quer exprimir. Para Heidegger, “curiosidade” se origina na palavra “cura”, que significa “cuidado” ou “preocupação”. Assim, um homem cuidadoso faz tudo com atenção e extremo rigor e se preocupa com sua ocupação. Ortega y Gasset entende que o vício do homem é fingir o cuidado, ou seja, ser incapaz de autêntica preocupação.

Através da curiosidade, chegamos à ciência e aí o homem revela sua sincera preocupação, que é uma necessidade imediata e autônoma. O estudante que não sente essa curiosidade consiste numa fraude de sua própria existência.

Considerações Finais

Neste trabalho, examinamos a importância das contribuições da filosofia raciovitalista para a educação. As teses educacionais se fundam nos problemas encontrados pelo filósofo Ortega y Gasset ao contrapor as práticas educacionais puramente técnicas que estavam vigentes em sua época inspiradas nos pensadores do séc. XIX. Essas práticas compreendiam o homem como um ser que se adapta ao meio e, assim, tratam a vida humana como algo que se restringe ao orgânico.

A pedagogia raciovitalista compreende o homem como um ser que está além de suas limitações orgânicas. Ele é um ser que possui aspectos psicológicos que nutrem seus desejos de conhecer a realidade vital. Os aspectos psicológicos tratados pelo filósofo sofrem influxo da pulsação vital que impulsiona o homem para além de suas circunstâncias e precisam, ser considerados pelas teorias educativas.

Para que haja o desenvolvimento dessa pulsação vital, o educador deve aprender a usar os mitos, porque são eles os principais recursos para ensinar as virtudes necessárias para a sobrevivência de uma comunidade. Os mitos não são simples lendas, e sim “hormônios vitais” que ajudam o homem a exercer suas atividades criadoras, demonstrando audácia, coragem e ambição necessárias para a vida. Os mitos devem ser ensinados ao jovem para que ele cresça sem se fixar em verdades prontas e desenvolva o gosto pela pesquisa e busca da verdade.

O estudante, formado neste processo de constante indagação, se transforma num pesquisador. Assim, segue construindo ser com a eterna busca do saber. A educação, assim vista, significa a ação de extrair uma coisa de outra, de converter uma coisa menos boa em outra melhor.

Bibliografia

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________. José Ortega y Gasset: a aventura filosófica da educação. Lisboa: Estudos Gerais, 2002.

CARVALHO, José Mauricio de. Introdução à Filosofia da Razão Vital. Londrina: CEFIL, 2002.

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HEIDEGGER, Martin. Conferências e outros ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

HUSSERL, Edmund. Meditações Cartesianas: Introdução à Fenomenologia. Tradução Frank Oliveira. São Paulo: Madras, 2001.

JASPERS, Karl. Introdução ao Pensamento Filosófico. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 1999.

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________. Ensayos filosóficos: biologia y pedagogia. Obras Completas. 2. ed. tomo II, Madrid: Alianza Editorial, 1993.

________. La Rebelión de las masas. Obras Completas. 2. Ed. tomo IV, Madrid: Alianza Editorial, 1993.

________. Sobre el estudiar y el estudiante. Obras Completas. 2. ed. tomo IV, Madrid: Alianza Editorial, 1993.

ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Nova Cultural, 1999

 

Trabalho realizado como parte das atividades do PIBIC/CNPq, anos 2002/2003, sob a orientação do Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

** Acadêmico de Filosofia da Universidade Federal de São João del Rei (PIBIC/CNPq)




Nuestras creencias: la Realidad

De niños nuestra realidad cabe en una casa, la casa de nuestros padres y utilizamos nuestro intelecto para imaginar; creamos mundos de fantasía que tomamos, muy fácilmente, como realidad. Estos mundos brotan de una caja, de un rincón de la casa en donde tenemos nuestros juguetes y disfraces, pero son capaces de volar más allá del universo mismo. De niños, nuestro mundo real es muy pequeño, nuestras fantasías enormes y así tenemos muchos espacios donde movernos.

Conforme vamos creciendo nuestro “mundo real” se amplía: la escuela, las casas de los amigos, el barrio, la ciudad, el país; hasta que llegamos a abarcar la realidad del mundo. En este punto ya somos personas adultas. En nuestro ejercicio cotidiano de vivir, constituimos el mundo y nos plantamos sobre una realidad (la propia) de forma tan firme que la fantasía queda relegada para algunas ocasiones (con suerte) o guardada totalmente en el cofre de recuerdos que suele llenarse de polvo.

De adultos, nuestro intelecto es utilizado para generar ideas “serias”. Especulamos acerca de la realidad que llegamos a construir, discutimos, razonamos, formulamos, criticamos… ideas serias, que no son más que eso, ideas que se erigen sobre la enorme realidad que nos sustenta, en la que estamos y en la que vivimos. Se trata de las creencias. La vida humana está constituida por creencias básicas y éstas son nuestra realidad.

El hombre se enfrenta a un mundo y a si mismo, tiene una percepción de ello y realiza una interpretación. Esto no forma parte de su pensamiento, no surge en un momento determinado, sino que está ahí, cuenta con esa forma de interpretar y mediante ella es que genera su realidad.

Las creencias no se formulan, no se discuten porque no son producto de nuestro pensamiento. Cuando pensamos generamos ideas, contenidos de nuestro intelecto que no son nuestra realidad dado que para que podamos ejercer la acción de pensar nuestro intelecto debe estar sustentado por una realidad desde donde comenzar.

Nuestras creencias, operando como fondo, conforman nuestra realidad. Por lo tanto contamos con ellas siempre, sin pausa y no necesitamos hacernos cuestión porque están allí. Ortega y Gasset explica muy bien esta diferencia de la siguiente manera: … “las creencias constituyen el continente de nuestra vida y, por ello, no tienen el carácter de contenidos particulares dentro de ésta. Cabe decir que no son ideas que tenemos, sino ideas que somos.”1

Cuando pensamos, cuando adherimos a ciertas ideas, teorías o razonamientos de otros que nos parecen correctos, que son por lo tanto verdades para nosotros, lo hacemos en un momento dado y somos conscientes de ello. Por ejemplo, si queremos escribir una carta a un ser querido, nuestro intelecto piensa en lo que vamos a decir y si razonamos esta acción pensamos que tomamos un papel y una lapicera y utilizando estos instrumentos nos servimos de las palabras para expresarnos. Nuestras ideas pueden crear una carta más o menos poética, con mejor o peor retórica, con una sintaxis más o menos correcta, pero nunca nos ponemos a pensar si todo este conjunto de letras en verdad quieren decir lo que pretendemos. Lo damos por hecho porque contamos con esto y el lenguaje es parte de nuestra realidad.

¿Cómo se forman nuestras creencias?

Algunas las heredamos, de nuestro entorno y también de la época a la que pertenecemos; otras las vamos constituyendo de acuerdo a nuestra experiencia, a las situaciones que vivimos, a las dificultades con las que nos enfrentamos y como respuesta de lo que percibimos. Así se van gestando nuestras creencias, formando un colchón sobre el que nos es sustentable la vida.

Creemos en aquellas cosas de las cuales no tenemos la menor idea pero que defendemos en los actos y no en las palabras. Creemos sin más. No somos conscientes de nuestras creencias como tales, solo vivimos conforme a ellas porque para nosotros son la realidad. Esa asociación es la forma más fuerte de “defenderlas”, de serles fiel. Y es porque tenemos verdadera fe en ellas que ni siquiera necesitamos traerlas al nivel del intelecto para especular, sino que para nosotros no tienen lugar a dudas…

La duda

Cuando por alguna razón se genera una grieta y se produce un corte en nuestras creencias, comenzamos a dudar. Aquello que se explica como crisis en la evolución científica equivale a nuestra duda. No a la duda metódica o intelectual, la verdadera duda que se yergue ante nosotros como la muerte y como tal es la vida misma, es la otra cara de la misma moneda. O sea, la duda surge de la creencia y es lo mismo que la creencia, como la muerte surge de la vida. Si no hay vida no hay muerte, sin creencia no hay duda. La duda es, pues, desacomodamiento, conflicto de creencias antagónicas, la duda es ambigüedad. Sentimos que la vida es ambigua, que la realidad no se nos aparece tan clara como solía y no sabemos qué pensar… Justamente en estos momentos donde la fortaleza de nuestras creencias se desvanece y genera un hueco, allí surge la duda. El virus de la duda que acude a su médico más querido, el intelecto y a su medicina más eficaz, las ideas.

Salimos de la duda, pensando, buscando alternativas, nuevas formas. A través de este mecanismo tratamos de acomodarnos en el mundo, nuestro mundo que habiendo perdido la estabilidad se nos presenta incómodo, nos hace tambalear, naufragar. Entonces, nuestro intelecto busca estabilidad donde la duda había sembrado arenas movedizas. Ante esta situación sentimos dolor, sufrimos. Nos sentimos perdidos y buscamos la tranquilidad que solíamos tener. ¿Quién se siente bien cuando el suelo, bajo sus pies, no lo deja correr?

Lo verdadero y aún lo científicamente verdadero, no es sino un caso particular de lo fantásticoHaz click para twittear

En el mundo de hoy, en nuestros días, esta sensación de inestabilidad habita, generalizada, en jóvenes y adultos. El problema es que no tomamos conciencia de que la solución está en cada uno de nosotros y depende exclusivamente de nosotros.

Realidad y fantasía: la misma cosa.

Si entendemos que somos los productores de nuestra realidad, si hacemos conscientes nuestras creencias y comprendemos que ellas son creadas por nosotros y son las que nos hacen ver el mundo desde una perspectiva, podemos entender también que el mundo, nuestra perspectiva del mundo, vive en nosotros, no existe como realidad aislada. Y nosotros vivimos en ella tal y como la concebimos, hasta que por algún motivo se produce un quiebre, un desplazamiento de nuestras creencias y nos vemos en la necesidad de reconstruirla. La realidad nos necesita para existir de algún modo y por lo tanto cuando esa realidad no nos satisface, nos hace sufrir y nos vemos forzados a cambiarla para sentirnos mejor, para “estar mejor” en ella, tenemos la oportunidad de moldear el mundo como mejor nos parezca. Lo importante es que muchas veces sentimos que no somos capaces de cambiar esa realidad, solo porque no entendemos que nuestro mundo, nuestras creencias son nuestra obra; de la misma manera que lo son la ciencia, la literatura, las artes y todas las cosas. El mundo tal y como existe para nosotros hoy, es una forma del mundo que desarrollamos. Pero no tiene existencia propia, sino que depende de nuestra fe en él. De modo que en cuanto dudemos de la realidad de este mundo podremos conformar otro diferente…

Pero entonces, la solución está al alcance de nuestra mano, está en nosotros, en nuestra percepción de la realidad. Simplemente está guardada en el cofre de los recuerdos. Recordemos cómo hacíamos cuando éramos niños para crear mundos diferentes… Utilizando nuestra fantasía, nuestra imaginación, imaginemos mundos posibles, no es difícil. Seamos niños, dejemos de pensar en “ideas serias” y usemos nuestra fantasía, nuestra capacidad creadora de realidades. Porque: “lo verdadero y aún lo científicamente verdadero, no es sino un caso particular de lo fantástico.”1

1. Ortega y Gasset, José. Ideas y Creencias




Palabras y Formas

Al preguntarnos el origen las palabras, encontramos un desarrollo y una elaboración de pensamientos que se formularon dentro del transcurso de la vida humana.

El hombre ha mantenido una postura de supervivencia en la cual la comunicación floreció como una herramienta de lucha. No me refiero a una lucha por hacer batalla contra un enemigo, sino a una lucha por adquirir una presencia duradera y no dejarse morir. Este deseo de tener una presencia más allá de la vida del animal, fue quizás, fomentada por la posesión de una conciencia y la habilidad de expresar significados, sentidos e intenciones. La organización del pensamiento y su expresividad, le permitió obtener una representación simbólica de la vida. El vivir podía verse desde esos símbolos y esos símbolos eran eternos. El hombre dio a los símbolos una organización, una forma por la cual él se descubrió a si mismo en una entidad simbólica. Motivado por su deseo de vivir y asistido por la expresividad simbólica de su vida, él buscó en los símbolos otra forma de vivir para así poder seguir viviendo.

La organización de las palabras podría decirse que no tiene una forma libre. Su estructura o sintax es más o menos un esfuerzo que nos permite representar un pensamiento. Esta estructura surgió de un convenio humano que le dio un orden. Sin esta estructura, los pensamientos serían expresiones espontáneas que se perderían debido a su incapacidad de soportarse por sí mismas y se olvidarían al no provocar significado. Esta estructura artificial o convención humana nos permite salir de un mundo animal a un mundo simbólico donde los sueños y la realidad se entrecruzan en un modelo ficticio.

Cuando usamos palabras intentamos ver una relación. La relación es una operación por la cual creamos un puente semántico que junta eso que antes estaba separado. Así formamos una red de significados por los cuales encontramos otras relaciones que nos permiten ver de una forma simbólica. Esto nos permite representar lo que deseamos y también representarnos a nosotros mismos. Por ejemplo, en la poesía y la ficción encontramos expresiones que surgieron como representaciones de deseos. Y también en la vida cotidiana encontramos deseos y sus correspondientes representaciones. Las palabras nos ayudan a ver relaciones en la vida. La vida nos da deseos y por medio de las palabras, podemos encontrar significados por los cuales relacionar nuestra vida con nuestros deseos. Pero también los significados, en su forma semántica, necesitan de una forma válida que les da un soporte y que los distingue de entre lo que el hombre ve. Al igual que las palabras necesitan de un orden que las da forma y las junta en unidad valida, los significados necesitan de una forma semántica que les da sustancia y que el hombre retiene como concepto. La forma semántica es una relación que hace el hombre al vivir. Como en el puzzle juntamos piezas con diferentes formas, en nuestra vida intentamos juntar piezas semánticas de distintas formas. Pero, a diferencia de las palabras, las formas semánticas (conceptos), en su origen, no fueron creados por convenio sino por espontaneidad circunstancial. El hombre descubrió el mundo y su circunstancia por medio las formas semánticas. La forma semántica de la vida es una expresión que se cristaliza dentro de una circunstancia y esa circunstancia se le presenta con un final. El hombre al vivir, no se rinde y usa la intelectualidad como arma contra la finalidad. Afrontado por el conocimiento de una vida con un final, busca en los símbolos una solución y al no encontrar ninguna, se transforma en esa forma simbólica que entiende como eterna. El hombre quiere transformarse en una forma simbólica y así cristalizarse en estatua. El quiere petrificar su forma en las palabras para intentar seguir viviendo por medio los símbolos.

Ortega nos explicaba que la realidad no tiene soporte. En su metáfora nos decía que cuando el hombre se cae al mar, sólo puede mantenerse a flote nadando en la misma agua que amenaza su vida. La representación que hace el hombre de la vida es una manera de nadar en esa agua que nos amenaza. En términos un poco mas amplios, el hombre se representó en su historia y obtuvo una identidad. El hombre usó la palabra como arcilla y bote. La condición de la vida humana es en esencia una absorción y realización de deseos. Para darse una identidad, él esculpió su forma por medio de las palabras. Para combatir la finalidad, él uso la palabra como arma e intento de cristalización.




O homen massa e os desafios da política no pensamiento de Ortega y Gasset

Neste trabalho indicaremos quais eram, na avaliação de José Ortega y Gasset (1883-1955), os principais problemas sociais e políticos da Europa de seu tempo: o homem massa e o individualismo exacerbado. Para ele, a solução para esses problemas está na educação e no estabelecimento de novas bases para uma moral social. Adicionalmente, procuraremos atualizar essa discussão com interpretações atuais de Ortega y Gasset sobre o tema.

Palavras-Chave: Filosofia Política, Filosofia Social, Educação.

Considerações iniciais

José Ortega y Gasset nasceu em Madri em maio de 1883. Filho de José Ortega y Munilla, foi célebre escritor e colunista de uma revista espanhola. O filósofo estudou Filosofia e Letras e se especializou em filosofia estética alemã no fim do século XIX. Foi professor de Metafísica na Universidade Central de Madri. Viveu algumas temporadas na Alemanha e na França e realizou várias viagens à América, sobretudo Argentina (1916 e 1928), país em que teve singular êxito como palestrante.

Ortega y Gasset foi um filósofo inserido nos problemas de seu tempo e preocupou com o destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado, dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos que o impediam de acompanhar o desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar esses problemas, o filósofo pensou as questões políticas à luz de uma teoria da realidade, que ele denominou raciovitalismo. Essa teoria centrou a discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset particulariza os problemas de cada homem. Com a continuação desta mesma frase: se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset indica que o homem pode mudar a sua vida e da sociedade que vive.

Neste trabalho, indicaremos como, segundo o filósofo, podemos tratar os problemas sociais e políticos para entender que o homem consegue salvar suas circunstâncias se valendo da educação e da cultura, que são instâncias que igualam os homens. Nesse empreendimento, nos valemos dos textos: Los problemas nacionales y la juventud; La ciencia y la religión como problemas políticos; La pedagogia social como programa político; Vieja y nueva política; A Rebelião das Massas; El hombre y la gente; e España Invertebrada.

Esses escritos foram publicados nas Obras Completas editadas pela Alianza Editorial de Madri. Procuramos nos valer, na meditação que se segue, da interpretação de diversos estudiosos de Ortega y Gasset, notadamente dos artigos editados na Revista de Estudios Orteguianos.

1 Os problemas políticos

A geração de Ortega y Gasset encontra uma Espanha mergulhada em problemas sociais. Tais problemas surgiram do mal uso da razão no exame da vida social e política. Para o filósofo, os homens de sua época deveriam utilizar a razão e a sensibilidade para examinar os problemas sociais que impedem a Espanha de se firmar como nação. Estes problemas sociais são originados pelo mal exercício da participação política. Maus governantes completam a dificuldade.

Primeiro, é preciso entender o que o filósofo designa por nação. Ortega y Gasset explica que nação não é uma simples delimitação de terras, e sim o objeto de uma virtude que acompanha cada homem. Esta virtude é o patriotismo. A nação passa a existir se os homens exercitam seu patriotismo no país onde vivem.

Faz parte do patriotismo identificar os vícios que aparecem em uma determinada nação. Os vícios nascem da distração dos membros dessa sociedade, distração que permite que pessoas pouco virtuosas cheguem ao comando da nação. Essa era a situação política da Espanha; regida por governantes não preparados, a nação não atendia o bem-estar do povo. Ortega y Gasset conclui que o povo espanhol, ao perder a capacidade de refletir sobre si mesmo, tornou-se motivo de desprezo por outras nações da Europa.

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset entende por homem desprezível aquele que não se esforça para superar as dificuldades que se lhe apresentam nem sequer reflete sobre suas ações. Entretanto, o homem desprezível não é o que simplesmente cai, mas o que não consegue reerguer-se após uma queda.

O filósofo entende que sua geração estava mal preparada política e moralmente. Por isso, ele supõe que era necessário discutir os males da Espanha, assim como fazem outras nações da Europa. Os males políticos que atravessavam a Espanha se fundamentavam na má formulação do conteúdo moral das gerações precedentes. O filósofo diz que uma geração que não se prepara moralmente para as dificuldades que se avizinham traz conseqüências trágicas para as que se seguem. Então, cada geração é mestra da que se segue, o que nos sugere uma valorização dos pressupostos históricos para a edificação de uma sociedade contemporânea, resgatando a moralidade que se encontra desvirtuada dos assuntos políticos. Eis o que nos diz:

É certo que a geração anterior não nos deixou de herança nenhuma virtude moderna. Cada geração chega ao mundo com uma missão específica, com o dever adscrito nominalmente a sua vida (Los problemas nacionales y la juventud. p. 15).

Não custa recordar que, para o filósofo, a moral não é constituída de fórmulas abstratas. Isso porque a moralidade deve aparecer como um desafio vital ou uma tarefa a ser cumprida pelos homens. A resposta ao desafio faz com que os indivíduos mereçam o título de entes sociais. E, para agir moralmente, o homem deve se pautar em normas que foram desenvolvidas pelas gerações anteriores. A realidade histórica de cada geração consiste em ser o ponto de interseção da geração que lhe antecedeu e da outra que a seguirá. Essa dupla função é importante porque o filósofo coloca a educação como medula da história e regente da moral do homem:

Cada qual faz o que é capaz de fazer, mas sua capacidade depende completamente de sua preparação: isto nos obriga a manter desperta a consciência de nossa solidariedade com as forças e até com os vícios do passado (idem. p. 16).

Desse modo, Ortega y Gasset entende que, antes de mudar o sistema político, se deve entender que falta ao povo espanhol entusiasmo, energia, pureza, sensibilidade para as instâncias morais. Essas instâncias morais devem ser alteradas. No entanto, a geração em que Ortega y Gasset viveu não herdou virtudes nem ideais, herdou unicamente falta de entusiasmo para enfrentar os problemas. Os homens estão destinados a viverem numa nação com características particulares e regionais, isso é o que tipifica e diferencia as nações. Essa característica particular e regional de uma nação significa um modo que antecede a desintegração por não considerar as qualidades do mundo ao redor.

Os líderes políticos de cada povo devem ser sensíveis à vontade de seus cidadãos para que essa regionalização se extinga impedindo a formulação dos flancos, grupos particulares, para que a necessidade de todos sejam perseguidas por meio de uma discussão entre os homens. Um político que cria leis sem um debate entre os cidadãos não educa o povo, prejudica a nação e dificulta que ela se forme integralmente.
Ortega y Gasset entende que resgatar a moral é tarefa da metafísica e não da sociologia, mas que tem implicação na política. Isso porque deve salvar uma virtude comum aos cidadãos da Espanha. O filósofo grego Platão (427-347 a. C.), em sua República, pretendia que um rei-filósofo administrasse com sucesso a polis. Ortega y Gasset não pede tanto ao se referir à administração do Estado. Para ele, o governante precisa ser um homem preparado para enfrentar as dificuldades da administração pública. Governantes cultos são importantes porque eles identificam a alma de seu Estado e assim governam com mais eficácia. Ortega y Gasset diz que na Espanha, por exemplo, a alma identificada é a valentia e por isso há tantas guerras na história de seu povo:

Na Espanha só temos a tradição de valentia: por um gesto de valentia vendemos a alma nacional ao diabo (idem. p. 21).

Os problemas políticos são solucionados com o exercício da liberdade de cada ser humano. Para os atenienses, explica o filósofo, liberdade significava viver como quisessem, atendendo à busca de felicidade na polis. A liberdade, para Ortega y Gasset, não pode ser mais entendida como entre os gregos; ele a vê como respeito ao indivíduo e ao Estado. Ortega y Gasset completa que a liberdade de consciência só pode ser desenvolvida numa organização política forte que eduque o povo espanhol. E consciência significa sensibilidade, conhecimento dos deveres morais.

Como educar o povo? Ortega y Gasset afirma que é promovendo a paz entre todos os homens. E a paz só é conseguida por um povo que possua uma alma culta:

Paz e cultura tem um valor recíproco em meu vocabulário: paz é a postura da alma culta, e cultura é cultivo (idem. p. 23).

Nesse sentido, o pensador espanhol se mostra contrário às revoluções como estratégia para introduzir mudanças políticas, entendendo que elas são constituídas por uma sucessão de crimes. Assim, impedem o exercício da paz entre os homens e não podem conduzir uma nação à liberdade por não respeitarem a individualidade de cada um. As revoluções mostram que quanto mais injustiças existirem mais os homens serão culpados em não refletir sobre o próprio compromisso moral que serve de guia para a vida social. Portanto, Ortega y Gasset entende que é exigência moral evitar as ações dos revolucionários, mas deve-se entender seu sentido porque elas só surgem como tentativas de solucionar os problemas encontrados em uma sociedade.

2 O homem massa e os problemas gerados pela política

As teses sociais e políticas de Ortega y Gasset são uma resposta aos inúmeros problemas sociais provocados pelo individualismo exagerado. O autor explica em seus textos que os problemas sociais e políticos gerados na Europa são causados pela superlotação dos lugares públicos, que é o que ele chama de massa social. O individualismo exagerado culmina na sociedade de massa.

O que o preocupa é o homem não se comprometer com sua vocação ou missão. O homem massa, como ele o trata, é o indivíduo que não atribui a si um valor e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos demais indivíduos. Essa análise do filósofo destaca a preocupação em melhorar a qualidade de vida de cada homem para melhor identificar no corpo da nação uma coluna vertebral que une os homens.

Dessa forma, o problema social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os rumos políticos que devem seguir sua nação, e desorganizados na sociedade, distribuídos em blocos individuais. Esse distanciamento dos homens nos assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela ignorância. Esse acontecimento é o que ele chama de hiperdemocracia das massas cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de leis, sem se preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as dificuldades da sociedade contemporânea em se firmar como sociedade.

Um dos sintomas mais evidentes da hiperdemocracia se instaura quando a massa resolve fazer justiça. Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que garantam a paz. Ortega y Gasset verifica que quando as massas triunfam, reina também a violência como doutrina e única razão. Para controlar a violência das massas, nasce o Estado.

O homem massa não se preocupa com sua civilização, sua cultura, e sua educação, que são os caminhos que ele tem para sair dessa condição de vulgaridade. O resultado dessa situação é fatal para a vida de cada ser humano porque os homens passam a viver em função do Estado, tornando-se máquinas estatais. Após certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam. Essa é a razão dos governos totalitários que se espalharam ao longo do século XX.

Os governos totalitários, comunistas e socialistas, e também a sociedade de consumo são potenciais fabricantes de homens massa porque impedem o homem de se valer de sua vida singular para agir. Por isso, é perigoso se render a esses projetos políticos. Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem particularidade que o distinga dos demais homens. Está agarrado em suas circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair.

Ortega y Gasset postula uma rebelião individual contra os desejos do homem massa em suas obras sobre política. Ou seja, defende a revolta pessoal contra a consciência coletiva para manter o homem numa posição seleta pela sua própria capacidade de trabalhar, construir e se esforçar cada vez mais para melhorar sua vida.

Ortega y Gasset apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência individual identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio de cada ser humano, enquanto, o homem massa é o inimigo consciente de sua singularidade.

3 A preocupação com o social 

A primeira coisa a se fazer para melhorar a vida na Espanha, na compreensão de Ortega y Gasset, é socializar os homens fazendo com que saiam da condição de homens massa. Preocupar-se com a política é ocupar-se com a vida social, o que só pode ser conseguido pelo humanismo e pela cultura. Assim, preocupar-se com o social é cultura, construção que, por sua vez, promove a paz social pelo princípio de amizade. Logo, o socialismo é construtor da paz, afirma o filósofo.

Ortega y Gasset diz que os socialistas não devem ser inimigos de seus inimigos, mas amigos de seus amigos. Assim, eles devem se agrupar, comungar, comunicar e socializar todos os homens: antes de mais nada, o socialismo é um princípio de amizade aos homens, uma forma de humanismo, que o filósofo julga necessário existir nas relações sociais. Como naquele momento socialismo estava identificado com marxismo, o filósofo procura explicar o que entende por socialismo, uma vez que não partilhava das teses marxistas.

Ortega y Gasset explica que o marxismo consiste em solucionar toda variação histórica como uma variação de relações econômicas: cada época se caracteriza por um tipo de produção, por uma maneira especial de obter o produto, de decidir a coisa econômica como meio para a vida.

O que interessava a Karl Marx era determinar que tudo de mal que compõe a história social humana, religião, política, moral são sempre formas de realidade econômica, que não tem sentido sem referir ao econômico (La ciencia y la religión como problemas políticos. p. 32).

A economia é entendida, segundo Karl Marx (1818-1883), como matéria para a vida. Ortega y Gasset não concorda com esse entendimento porque não admite reduzir a vida humana às relações econômicas. Para o filósofo espanhol, sempre haverá o capitalismo porque sempre existirão instrumentos de produção. E, ainda completa, o socialismo nasceu com Platão quando afirmou que os cidadãos não devem se empenhar em uma perpétua luta entre ricos e pobres na polis. Erradicar a luta de classes como meio para socializar a produção é proposta do marxismo, mas essa forma não promove a paz e a liberdade entre os homens. Os acontecimentos históricos dos últimos anos confirmam a avaliação do filósofo.

O socialismo tal como ele o propõe eleva o nível cultural das sociedades. E cultura, para Ortega y Gasset, não é uma palavra vaga, sem sentido. Cultura é o cultivo científico do entendimento de cada homem, de sua moralidade e de seu sentimento. Por isso, a cultura é o verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos devem trabalhar para o benefício de todos, porque só assim existirá uma comunidade firme.

4 A pedagogia social como solução para os problemas sociais e políticos

Nossa consciência necessita de um motor para se colocar em movimento. Ortega y Gasset diz que este motor é a educação. Por educação, o filósofo entende a transformação de um homem imperfeito em indivíduo com irradiações virtuosas. A pedagogia, enquanto ciência, trata de modificar o caráter, tem por objetivo integrar os indivíduos em uma comunidade. Desse modo, a pedagogia deve começar por um ideal moral.

O homem, segundo Ortega y Gasset, não é apenas um indivíduo biológico. O homem se difere de um cavalo por saber determinar o que é bom para si e para sua comunidade. Então, a pedagogia não significa um adestramento de homens, e sim de uma atividade educadora que insere o homem singular, consciente de sua situação, em um grupo social. É o que afirma o filósofo:

O cavalo é uma coisa física, é todo uma exterioridade, vive só uma vida espacial. Agora bem, o problema da pedagogia não é educar o homem exterior, o anthropos, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e quer (La pedagogia social como programa político. p. 51).

As características da ciência, da moral e da arte são que seus conteúdos pertencem ao patrimônio comum, apesar dos amores, ódios e caprichos serem subjetivos. Portanto, existe um eu individual, que sente tais emoções e um eu comunitário, que pensa algo que é comum a todos. Para que exista uma comunidade entre os homens é necessário que exista uma linguagem comum. Ortega y Gasset completa que sem linguagem não há pensamento.

“O pensar é um monólogo e o monólogo não é originário, e sim a imitação de um diálogo, um diálogo de uma só dimensão” (idem p. 52).

Ortega y Gasset explica que sem o uso da linguagem o espírito não chega a possuir conteúdo para a interação. Um indivíduo que extingue sua comunicabilidade com os outros se mantém solitário e se transforma em um átomo social.

Todo individualismo é mitológico e anticientífico. Assim, Ortega y Gasset considera a pedagogia individual um erro e projeto inútil. Platão, na sua República, que é preciso primeiramente educar a polis e depois o indivíduo. Então, a pedagogia platônica privilegia a dimensão social. Ortega y Gasset explica que a escola só é um espaço momentâneo e que a verdadeira educação se adquire em casa, nas praças e estabelecimentos públicos; enfim, onde as relações humanas sejam mais intensas. A pedagogia é entendida pelo filósofo como a ciência que transforma as sociedades, pela moralidade, em um reunião de pessoas com ideais.

Antes, essa transformação do indivíduo era entendida como produto da política, explica o pensador. Mas não se pode fazer política sem antes passar por uma pedagogia social. O social é a combinação dos esforços individuais para realizar uma obra comum. Um grupo de homens, ao trabalharem em uma obra comum, recebem em seus corações, por reflexão, a unidade dessa obra e, assim, nasce o elo da unanimidade. Ortega y Gasset conclui que pela cooperação se forma uma sociedade unida.

Socializar o homem é fazer do trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde a cultura abarca tudo, desde cavar a terra até compor versos (idem. p. 58).

Não pode participar bem da sociedade quem não trabalha. Ortega y Gasset entende que pela consciência do trabalho não pode haver lutas entre ricos e pobres na nação. Erradicar a luta de classes como meio de socializar a produção é proposta do marxismo e não promove a paz e a liberdade entre os homens. Ao contrário, é onde a luta de classes encontra meios políticos de expressão que a sociedade consegue os melhores benefícios.

O verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos e reconstruir a moralidade do homem. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos com seu trabalho contribuem para o destino da comunidade, só assim o futuro poderá ser mirado com esperança.

Considerações finais

Neste trabalho examinamos as teses políticas e sociais de Ortega y Gasset. Vimos os problemas causados pela influência de uma sociedade de massa no destino dos gruos humanos. Tal influência deve ser alterada para não se transformar a nação numa hiperdemocracia. A hiperdemocracia é o exercício das massas e imposição de seus costumes ao restante da sociedade com todas as implicações negativas daí decorrentes. Entretanto, não concordamos com interpretações que indicam que esta crítica do filósofo ao excesso da democracia represente uma posição antidemocrática. Pensamos que ele espera superar o democratismo de inspiração rousseniana (Cf. Carvalho, 2001. p. 411-415), ou melhor, conforme diz Maria Teresa Lopez de la Vieja, a crítica à hiperdemocracia é uma tentativa de verificar os abusos da imposição e os inconvenientes do domínio do homem massa ao longo do século XX.

Um dos modos de evitar a hiperdemocracia é permitir que a educação seja o exemplar fio condutor para os homens e assim privilegiar as decisões políticas de forma exemplar, valorizando o conhecimento e a competência. Neste ponto, Ortega y Gasset dialoga com Aristóteles (367-322 a. C.), que defende em sua obra Ética a Nicômaco que devemos deliberar retamente as decisões com a devida prudência. Aquele que se guiar nestes moldes será sempre um modelo a ser seguido. Ao considerarmos o papel da educação na vida social, não encontramos em outro intérprete de Ortega y Gasset uma abordagem mais apurada. Aqui, nos conduzimos para a solução que o autor sugeriu em alguns de seus ensaios.

Há leitores de Ortega y Gasset identificam a preocupação com os homens puros como uma forma de aristocracia. Tais intérpretes não observam, contudo, que o filósofo valoriza a vida de todos de modo igual. E, para que haja uma vida política sem deteriorar os valores de cada pessoa, teria a educação que ter uma forma de unificar, socializar os homens num princípio de amizade; essa é a real intenção do filósofo que nada revela de elitista. A posição elitista de Ortega y Gasset se restringe em aspectos psicológicos e antropológicos que, conforme nos indicou Maria Teresa Lopez de la Vieja, significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária. Trata-se de um convite ético a ser bom, mas não de um governo para poucos.

Não identificamos um interesse do filósofo de discutir questões como eleições, partidos e formas de governo, e sim, estabelecer bases de uma “pedagogia política”. Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesses e os valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública através do meio cultural não são tarefas de uma elite política, e sim de uma elite cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço suficiente para transcender a vida comum. O instrumento com que conta cada homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão, uma razão voltada para a vida.

 

Bibliografia

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______. Contribuição Contemporânea à História a Filosofia Brasileira. Londrina: EDUEL, 2001.

LAVEDÁN, Maria Isabel Ferreiro. La docilidad de las masas en la teoria social de Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.2 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2001.

ORTEGA Y GASSET, José. Los problemas nacionales y la juventud. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

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______. Vieja y nueva política. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

______. A Rebelião das Massas. Tradução Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

______. La rebelión de las masas. Obras Completas. 2. ed. Tomo IV. Madrid: Alianza Editorial, 1993.

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______. España Invertebrada. Madrid: Revista de Occidente en Alianza Editorial, 2000.

VIEJA, Maria Teresa López de la. Democracia y masas en Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.1 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2000.




Un paso hacia la Democracia real

Gravemente se ha ido arruinando el edificio de la democracia al resquebrajarse sus bases principales: la independencia entre poderes, la representatividad y el respeto a las minorías.

Son evidentes la degradación y pérdida de dignidad de los políticos y como consecuencia la disminución de confianza hacia ellos de los ciudadanos. Las razones son de todos conocidas.

La Ley de Responsabilidad Política se inspira en la idea de hacer una política de dimensión humana avanzando sobre la actual democracia formal cuyo rito electoral resulta cada vez más insuficiente.

En el Documento Humanista (Silo, 1993, cap. II, La Democracia Formal y la Democracia Real ) se establecen los principios políticos de una Democracia Real que, sintetizados, son:

  • Independencia real de los poderes legislativo, ejecutivo y judicial.
  • Verdadera práctica de la Representatividad en forma de consulta popular, plebiscito y elección directa de candidatos. Implementación de la Democracia directa.
  • Igualdad de oportunidades para todos los partidos.
  • Mecanismos de remoción de los candidatos que no cumplan su programa político. Ley de Responsabilidad Política.
  • Garantía de representatividad para las minorías.
  • Impulso de una organización federativa en la que el poder político real vuelva a manos de las entidades histórico culturales oprimidas, en la actualidad, por la compulsión del estado centralista en manos del gran capital.

En el mismo documento se establecen los principios de carácter social sobre los que se debe fijar el cambio político, tales como, la garantía de los derechos fundamentales para todas las personas, la libertad de expresión y de culto, la reconciliación en la relación trabajo/capital, etc.

El objetivo de la Ley de Responsabilidad Política es cambiar las reglas del juego democrático creando mecanismos de control a los políticos, por parte de la ciudadanía, para evitar que mientan y sirvan a intereses ajenos al mandato recibido. Se trata de impulsar una ética de lo social que establezca el bien común por encima del interés personalista o partidista. Los responsables de organizar el todo social no deben ser profesionales políticos sino provenir del tejido asociativo, cultural, y el mundo del voluntariado.

La Ley debe garantizar al menos:

La igualdad de oportunidades de los partidos:
Los candidatos presentan sus programas políticos a la ciudadanía a través de los medios de difusión que se encargan de hacerlos llegar a la población en igualdad de condiciones.

El cumplimiento del programa electoral:
El cargo electo debe ceñirse a sus promesas pudiendo ser removido si las incumple. La ley regula el procedimiento dejando un margen de rectificación.

La consulta directa:
Todas aquellas decisiones de carácter relevante no contempladas en el programa deben ser consultadas a la ciudadanía para su decisión al respecto. Por ejemplo: rescate bancario, endeudamiento, recortes sociales…

La aplicación en todos los ámbitos de decisión política:
La responsabilidad política se implementa desde la misma base social donde la ley otorga carácter vinculante a los foros, concejos o asambleas vecinales y la capacidad para destituir al concejal de barrio en caso de incumplimiento de funciones o mal desempeño de su actividad.

Ha llegado el momento de que los ciudadanos canalicemos el hastío que sentimos hacia la clase política exigiendo una ley que los obligue a ejercer bien su función y si no cumplen… ¡Qué se vayan!




Revolución o Estado

A lo largo de la historia de la humanidad han existido numerosas formas de organización social. Desde las primitivas formas tribales hasta los grandes imperios y civilizaciones. Tenemos ciudades-estado, condados, feudos, nomadismo, estados-nación, para-estados, democracias, dictaduras, monarquías, etc.

Ya, en los primeros homínidos, hace varios millones de años, encontramos distintos tipos de relaciones de intercambio entre los individuos. La organización social no es una exclusividad del hombre. Se puede observar en otras especies.

Pero el ser humano, además de ser social, es un ser histórico. Tener historia significa que, cuando uno nace, se encuentra con un mundo constituido por instituciones, objetos, valores, costumbres, transmitidos a lo largo de generaciones. Ese “paisaje humano”, que forma parte de uno al nacer, no es algo terminado sino que, por el contrario, está en constante evolución merced a la propia intencionalidad humana.

Historia es cambio. ¿Pero que es lo que motiva el cambio? No diremos que el motor de la historia es Dios, la Voluntad, el Espíritu o el Modo de Producción. Afirmaremos, con mayor humildad, que lo que moviliza la intención humana es alejarse de lo que le produce dolor o contrariedad y aproximarse a lo que le produce placer o reconforta.

Pero la historia también es proyección. La previsión de mi posible contrariedad futura condiciona mi acción presente y la lectura que hago de mi pasado. Respecto a los conjuntos humanos no es sólo por el hecho de tener una misma historia que se configuran los pueblos sino, sobre todo, por el futuro común al cual se aspira, por el proyecto conjunto que se comparte.

En palabras del pensador argentino Silo1lo que define a una nación es el reconocimiento mutuo que establecen entre sí las personas que se identifican con similares valores y que aspiran a un futuro común y ello no tiene que ver ni con la raza, ni con la lengua, ni con la historia (…) Una nación puede formarse hoy, puede crecer hacia el futuro o fracasar mañana y puede también incorporar a otros conjuntos a su proyecto.2

El Estado-nacional fue una forma de organización social creada hace apenas 300 años que sirvió para trasladar el poder absolutista de las monarquías feudales a un nuevo monopolio administrativo acorde al sistema económico consolidado tras la Revolución industrial. El Estado intervenía en nombre de los ciudadanos sometiéndolos en aras de los intereses de la incipiente clase burguesa liberal. En algunos casos se fueron estableciendo regímenes de democracia formal donde los ciudadanos pudieron lograr algunas mejoras en sus condiciones de vida. En la mayoría de Estados se instruyeron regímenes dictatoriales y colonialismos larvados sumamente represivos con la población. Pero en todos subyacía el mismo trasfondo economicista que ponía al Dinero como valor y fundamento de la existencia.

Con el tiempo, se le atribuyó al Estado la extraña capacidad de formar nacionalidades y de ser él mismo la nación. De este modo se asoció Estado con Nación. Y este error de apreciación generó no pocos problemas al pensarse, ingenuamente, que una Nación sin Estado no podía subsistir o que, para ser soberana, una Nación debía constituirse un Estado propio.

Las naciones o pueblos existen desde milenios y están en constante evolución, son dinámicas. Los Estados son estáticos y, no necesariamente coinciden territorialmente con las naciones. Es el caso del Estado español donde conviven múltiples naciones. La mayoría de naciones no tienen estado propio.

El Estado nacional, como instrumento concentrador de la violencia, tiene los días contados. Por arriba, por la presión ejercida por el Paraestado al servicio del capital financiero internacional y, por abajo, por la proliferación de localismos que reclaman su propia independencia cada vez a menor escala.

Pero también desde la base social crece la conciencia de la falsedad de las democracias formales y se reclama la desarticulación del Estado mientras aumenta el hastío de la violencia y se aboga por una metodología no violenta activa.

Para los humanistas el debate en torno al tema del Estado como forma de organización política capaz de satisfacer las necesidades del ser humano está agotado. Por el contrario entrevemos el nacimiento de una nueva sensibilidad, de una nueva escala de valores que se manifiesta en el mundo como proyecto humanizador y que puede dar lugar a una nueva forma de organización social a la altura del ser humano de hoy.

El futuro modelo organizativo se regirá por un sistema de Democracia Real. En el Documento Humanista (publicado en 1993) se establecen algunos de sus principios políticos3, entre los cuales, destacamos: la independencia real de los poderes legislativo, ejecutivo y judicial; la verdadera práctica de la Representatividad en forma de consulta popular, plebiscito y elección directa de candidatos; la implementación de la Democracia directa; la garantía de representatividad para las minorías; y el impulso de una organización federativa en la que el poder político real vuelva a manos de las entidades histórico culturales oprimidas, en la actualidad, por la compulsión del estado centralista en manos del gran capital.

Aquello que autogeste y supervise solidariamente el pueblo, sin el paternalismo de una facción, será la única garantía de que el grotesco Estado actual no sea reemplazado por el poder sin freno de los mismos intereses que le dieron origen y que luchan hoy por imponer su prescindencia.

Y un pueblo que esté en situación de aumentar su poder real (no intermediado por el Estado o por el poder de minorías) estará en la mejor condición para proyectarse hacia el futuro como vanguardia de la nación humana universal.4

Sobre la base de lo expuesto anteriormente expresamos:

Que el nuevo modelo organizativo se asentará sobre el principio fundamental que pone al ser humano como valor y preocupación central.

Que los nuevos modos de proceder se sustentarán sobre una ética de lo social y una inteligencia colectiva que buscará el bienestar de todos por encima del provecho individualista y competitivo.

Que la unidad mínima de participación ciudadana será el vecindario, municipio o conjunto de personas que compartan intereses comunes respecto a temas de salud, educación y calidad de vida dentro de la comunidad que habitan.

Que estas comunidades se agruparán en torno a las distintas entidades histórico culturales que tendrán carácter cohesor y representativo pero no potestad decisoria sobre el conjunto de los ciudadanos.

Normalmente se observan los procesos humanos desde la perspectiva de la propia vida y entonces se impone una visión fatalista de la realidad. Los sistemas sociales evolucionan a un ritmo más lento. Requieren varias generaciones para su establecimiento y desarrollo. Un mirada más amplia (que la de la propia vida) nos invita al optimismo respecto al futuro modelo social pues nos permite rastrear una nueva sensibilidad que comenzó a expresarse hace ya varias décadas y que, hoy, va ganando terreno en la medida que el sistema actual cae estrepitosamente. Una vez más se cumplirá esa Ley Universal de Superación de lo Viejo por lo Nuevo: La Revolución Total.

 

Notas
1 Mario Luis Rodríguez Cobos (1938-2010) mundialmente conocido como Silo, fue un filósofo, pensador y escritor argentino fundador de la corriente de pensamiento conocida como Humanismo Universalista.
2 Silo, Humanizar la Tierra, Cap. XI. El Estado, El Paisaje Humano, Ed. Leviatán, 2011
Documento Humanista, Cap. II La Democracia Formal y la Democracia Real



El lado intangible de la revolución

Decía Ortega y Gasset que la Revolución es contra los usos y no contra los abusos. La Revolución es una modificación del estado del espíritu del ser humano, de su mecanismo psíquico, en definitiva, de su sistema de creencias 1. Afortunadamente, en los últimos tiempos, se empieza a profundizar en el significado de la revolución más allá de la protesta organizada frente a la injusticia de un sistema opresor al que no se cuestiona en su raíz última.

Por fin se empieza a reivindicar un cambio de sistema, una “Revolución integral” que apela a un cambio profundo en la estructura socioeconómica del mundo; con una economía al servicio del hombre, con una organización de tipo autogestionario, una ética del bien común y una metodología no violenta.

Este artículo pretende hacer una breve aproximación al tema de la Revolución en sus diferentes aspectos y un esfuerzo de imaginación en la dirección revolucionaria que parece observarse en el momento actual.

La Revolución en el sistema de valores.

El gran mito del dinero como tema central alrededor del cual gira todo será sustituido por el ser humano como valor más importante. Nada tiene más valor que la vida, en general, y la vida humana en particular.

La Revolución en la economía.

La economía será planificada para satisfacer las necesidades de la gente en lo que hace a vivienda, nutrición, educación, sanidad, desplazamiento, etc.

La Revolución en el trabajo.

Desaparecerá el trabajo remunerado obligatorio. Cada uno cumplirá una función social de acuerdo a su formación y a las necesidades organizativas que serán repartidas equitativamente.

La Revolución en el aspecto existencial.

Experimentaremos que existimos porque estamos vivos y que los demás también existen porque su vida se juega con la nuestra.

La idea de Revolución empieza a anidar en los corazones. Poco a poco terminará por esclarecerse en nuestras cabezasHaz click para twittear

La Revolución en las relaciones humanas.

Se practicará la denominada “Regla de oro”: Tratar a los demás como uno quiere ser tratado.

La Revolución en la relación con uno mismo.

Se aspirará a la coherencia entre lo que se piensa, se siente y se hace.

La Revolución en la organización social.

Se pondrá en práctica un modelo de democracia real donde el poder de decisión estará en la base social.

La Revolución en lo espiritual.

Reconocimiento de la experiencia de lo “sagrado” en el interior del ser humano y desarrollo de toda su potencialidad.

La Revolución en filosofía.

La filosofía recuperará su carácter fundamentante de la Realidad y del resto de ciencias.

La Revolución en la conceptualización del ser humano.

Se considerará al ser humano como ser histórico cuyo modo de acción transforma a su propia naturaleza.

La Revolución en psicología.

Se partirá del carácter intencional de la conciencia para explicar el mecanismo psíquico en una dirección evolutiva y libertaria.

La Revolución en educación.

Se habilitará a los niños en un pensamiento crítico, coherente y transformador de la realidad. Se potenciará un desarrollo armónico de todas sus aptitudes mentales, emocionales y motrices.

La Revolución tecnológica.

La ciencia y la tecnología servirán para hacer la vida más fácil y, en lo posible, proporcionar más tiempo libre para dedicar a lo que realmente queremos hacer.

Todos estos ejemplos, un poco delirantes quizás, y otros muchos más, se refieren siempre a una misma cosa. Su carácter revolucionario estriba en que cualquiera de ellos implica a todos los demás. La idea de Revolución empieza a anidar en nuestros corazones. Poco a poco terminará por esclarecerse en nuestras cabezas.

Comenzamos con Ortega y terminaremos con una cita de Silo sobre el tema de la dirección revolucionaria: El problema que se está planteando ahora es, precisamente, el del futuro del sistema ya que éste tiende a revolucionarse mecánicamente sin mediar orientación progresiva alguna. La orientación en cuestión depende de la intención humana y escapa a la determinación de las condiciones que origina el sistema 2.

________________
1.- Ortega y Gasset, Jose El ocaso de las revoluciones
2.- Silo, Cartas a mis amigos. Sobre la crisis social y personal en el momento actual




Expresión de una nueva sensibilidad en el campo político

El surgimiento de ideas innovadoras que acaban convirtiéndose en creencias aceptadas por la mayoría, en la explicación de “cómo son las cosas”, es un proceso largo y complejo. Muchos planteamientos, que en su inicio fueron reprochados y perseguidos, finalmente fueron considerados verdades absolutas hasta que dejaron de ser vigentes y nuevamente cuestionados y sustituidos. Hay miles de ejemplos.

A modo de esbozo, sin extendernos demasiado, vamos a hacer una breve secuencia. Wilhem Dilthey (1833-1911) tuvo una genial inspiración. Intuyó que el trasfondo de la acción humana, del mecanismo de la historia, viene dado por la Vida. Hasta ese momento, al menos en el mundo occidental, existía una concepción materialista de la existencia humana. Es decir, se observaba al ser humano, a la historia, desde el lado de las cosas, como si fuese un objeto. Se trataba de definir una supuesta “naturaleza humana” que daba razón de todo. Esta concepción, cosificadora de lo humano, sigue operando con mucha fuerza hoy en día.

La visión vitalista de Dilthey pone en cuestión, nada menos, que a esa “naturaleza humana” con la que se justifica el funcionamiento del mundo, de la economía,  de la legislación, de las relaciones humanas… Bien. Dilthey fue un gran desconocido en su época y acabó sus días dando clases en su propia casa a unos cuantos discípulos.

Siguiendo la secuencia, aunque por otro lado, tenemos a otro alemán, Edmund Husserl (1859-1938), que también se hace cuestión de esa “naturaleza humana” viniendo a decir que hay que partir de la realidad tal cual se nos presenta, de los fenómenos de conciencia, y no de ideas preconcebidas acerca del mundo. La intencionalidad de la conciencia depende de muchos factores pero es esencia de libertad, de posibilidades abiertas. Este nuevo enfoque fenomenológico de la psicología tardará algún tiempo en desarrollarse y el propio Husserl se quejará de no ser comprendido ni por sus propios discípulos.

El siguiente personaje, también silenciado y tergiversado, tiene el agravante de ser español. Se trata de José Ortega y Gasset (1883-1955) cuyo raciovitalismo explica que la razón, el intelecto, es una facultad más del ser humano, como la emoción o la voluntad, que debe ser utilizada en función de la vida. La vida no se puede plantear en términos generales sino que siempre es la concreta de cada uno y consiste en el repertorio de facilidades y dificultades que irremediablemente se encuentra en su quehacer diario.

Estamos tratando de explicar el desarrollo de una idea, de una concepción del mundo que choca con lo establecido y por eso no es comprendida ni escuchada seriamente. Y es que puede ser tomada incluso como una obviedad. Que no somos objetos, que no somos cosas determinadas por nada ni por nadie. Por el contrario, somos seres vivientes con la peculiaridad de poder ser como queramos.

Silo1  (1938-2010) lo sintetiza maravillosamente: “El hombre es el ser histórico, cuyo modo de acción social transforma a su propia naturaleza”. Esta nueva concepción del ser humano es una idea que, poco a poco, va expresándose en el mundo inspirando propuestas, acciones y sensibilidades en la dirección del nuevo mundo por venir.

El siloismo surgió a mediados de los años 60 como una propuesta revolucionaria de todos los campos de actividad humana: lo espiritual, psicológico, social, cultural, político, etc. Sus primeros seguidores fueron perseguidos, encarcelados y asesinados por los regímenes dictatoriales y silenciados y difamados por las democracias formales.

El hombre es el ser histórico, cuyo modo de acción social transforma a su propia naturalezaHaz click para twittear

El siloismo impulsó una corriente de pensamiento llamada humanismo universalista o nuevo humanismo que, aún reconociendo sus antecedentes en el humanismo histórico, se vislumbraba como una nueva propuesta antidiscriminatoria y no violenta tendente a la transformación de la estructura social actual.

La expresión política de este movimiento humanista inspirado en Silo fue el Partido Humanista fundado en 1984. Este partido tuvo una notable actividad en la década de los ochenta y fue languideciendo durante los noventa hasta su práctica desaparición en la actualidad.

Recapitulemos. Estamos tratando de situarnos en una nueva concepción del ser humano que comienza en el vitalismo de Dilthey y que no es otra cosa que una nueva sensibilidad, una nueva forma de percibir el mundo donde se toma constancia de la propia existencia, de la propia vida y, por consiguiente, de la de los demás. Esta concepción todavía es una idea, es decir, no está instalada en el todo social como creencia, pero estamos observando su desarrollo. El sistema de creencias vigente, eso en lo que estamos todos, es todo lo contrario. No es que no sepamos que estamos vivos y que no somos objetos. Pero no somos concientes, no lo sentimos, no lo “creemos” todavía. Por eso, juzgamos, o discriminamos, o sentimos celos, o degradamos, o practicamos la violencia. Por eso no creemos que el cambio es posible. El sistema actual es la pura cosificación, la pura negación de la vida.

Dentro de este nuevo sistema de creencias, donde la vida es algo sagrado y el ser humano es esencialmente libre para desarrollarse sin límite, podemos rescatar otras expresiones a lo largo de la historia. Por ejemplo, en el movimiento libertario, tenemos a un personaje también muy peculiar, Piotr Kropotkin (1842-1921) príncipe ruso exiliado. Y también manifestaciones espontáneas muy recientes como por ejemplo, las que acontecieron en 2011 en torno al movimiento 15M donde la metodología no violenta, muy característica de este planteamiento, tuvo un protagonismo notorio.

Ahora podemos volver al siloismo porque la intención de este artículo es poner en claro las propuestas políticas que se sintetizan desde esta nueva sensibilidad que transformará al mundo y éstas se encuentran, no podía ser de otro modo, en nuestro pobre y desafortunado partido humanista2.

En su Declaración de Principios3 se describe metódicamente el punto de partida, el fundamento de la acción que incorpora todo lo dicho hasta ahora. He aquí unas breves notas:

• El mundo en que se nace es un mundo social, constituido por intenciones humanas. (…)
• La existencia humana es libertad en cuanto afirmación o negación del mundo. (…)
• El ser humano es historia personal y social y no “naturaleza” humana. (…)
• Nadie puede existir sin confrontarse a las condiciones sociales en que vive, y nadie puede dejar de elegir entre ellas. (…)
• La contradicción tiene su correlato personal en el registro de sufrimiento. Por ello, frente a condiciones sociales de contradicción, el ser humano individual identifica su sufrimiento con el de los conjuntos sometidos a las mismas condiciones. (…)
• La contradicción social es producto de la violencia. (…)
• Las distintas formas de violencia son expresión de la negación de lo humano en el otro. (…)
• La apropiación del todo social por una parte del mismo es violencia y esa violencia está en la base de la contradicción y el sufrimiento. (…)
• El sufrimiento personal y social pueden ser superados únicamente por la modificación de los factores de violencia que han instalado la contradicción.

Algunos posicionamientos que se derivan necesariamente de estos principios los encontramos en las Bases de Acción Política4:

• El sostenimiento del régimen democrático como forma de transición de la democracia formal a la democracia real. (…)
• El rechazo expreso a la violación de los derechos humanos, el empleo de la violencia como método de solución de conflictos y la concentración personal del poder.
• Considerar al sufrimiento del pueblo como un hecho producido por la violencia económica. (…) El Partido señala a los monopolios económicos y financieros como factores de dependencia y de desinteligencia entre las fuerzas productivas de cada país. (…)
• El Humanismo social propicia reformas impositivas y nuevos modelos de autogestión y cogestión que modifiquen la situación de la propiedad e incentiven una distribución progresiva de la riqueza.

Podemos finalizar apuntando una elaboración desde varios documentos5 donde ampliamos un poco más la expresión política del siloismo, de esta nueva idea que estamos describiendo, del siguiente modo:

Se trabaja por la transformación social no violenta. Su planteo parte de la necesidad de libertad que experimenta todo ser humano y sus propuestas apuntan a la superación de la violencia que, en sus distintas formas, genera sufrimiento y contradicción en los individuos y los pueblos. Se explica que el cambio social es simultáneo a la transformación personal.

El ser humano es historia personal y social y no 'naturaleza' humana.Haz click para twittear

Como transición hacia la democracia real se propone una Ley de Responsabilidad Política que obligue a los candidatos a cumplir sus promesas y que otorgue igualdad de oportunidades para difundir sus programas. La responsabilidad política es un mecanismo de control por parte de los electores hacia los elegidos que no está regulada en ningún país del mundo.

La contradicción social es producto de la violenciaHaz click para twittear

Respecto a la organización económica se plantea una nueva relación entre el trabajo y el capital en términos de cogestión. Un sistema impositivo redistributivo de la riqueza… Y una Banca Pública Sin Intereses. En definitiva, la economía debe ser planificada para asegurar el bienestar de las todas personas y no en función del beneficio de los más ricos. La creencia imperante, de corte neoliberal, explica que el progreso depende del crédito bancario. Esto es absolutamente falso pero nos permite entender por qué no se concibe un sistema financiero, si es el caso, que no obtenga beneficio alguno sino que cumpla con una determinada función social.

Las distintas formas de violencia son expresión de la negación de lo humano en el otroHaz click para twittear

No hace falta extenderse mucho en lo que hace a participación ciudadana, referéndum vinculante, democracia directa… donde en algunos lugares como El Figaró o Marinaleda ya se están poniendo en práctica. Tampoco en la consideración de que la Salud y la Educación son los ejes principales del nuevo modelo social y a ellos hay que abocar todos los recursos y el cuidado que merecen para garantizar el futuro y la calidad de vida de todos los habitantes de un lugar dado. Ni en la necesaria igualdad de derechos y oportunidades para todos.

Un tema interesante que merece ser examinado es el del modelo de organización social. Los humanistas proponen el impulso de una organización federativa en la que el poder político real vuelva a manos de las entidades histórico culturales oprimidas, en la actualidad, por la compulsión del estado centralista en manos del gran capital.6

Aquello que autogeste y supervise solidariamente el pueblo, sin el paternalismo de una facción, será la única garantía de que el grotesco Estado actual no sea reemplazado por el poder sin freno de los mismos intereses que le dieron origen y que luchan hoy por imponer su prescindencia.

Y un pueblo que esté en situación de aumentar su poder real (no intermediado por el Estado o por el poder de minorías) estará en la mejor condición para proyectarse hacia el futuro como vanguardia de la nación humana universal.7

En materia internacional se proclama el desarme nuclear total, el retiro inmediato de las tropas invasoras de los territorios ocupados, la reducción progresiva y proporcional del armamento convencional, la firma de tratados de no agresión entre países y la renuncia de los gobiernos a utilizar las guerras como medio para resolver conflictos.8

En definitiva, hemos rastreado una nueva sensibilidad que tiene sus inicios a mediados del s. XIX, que se sintetiza, concreta y acelera en los años 60  y que ahora está plasmándose en el mundo impulsada, sobre todo, por las nuevas generaciones que están sintonizando en esa frecuencia.9

Nos hemos referido a algunos aspectos en el ámbito político con el objeto de contribuir a aclarar cómo se expresa esta nueva sensibilidad en la acción político-social. Por supuesto, que se podría hacer lo mismo respecto a un nuevo tipo de espiritualidad, una nueva concepción del arte, la cultura, la ciencia, las relaciones humanas, y todos aquéllos aspectos que configuran la arquitectura de la vida humana.

___________________

1 Pseudónimo literario del pensador argentino Mario Luis Rodríguez Cobos
2 Sinceramente no pensamos que este partido tenga mucho que aportar a todo este proceso. Su estrepitoso fracaso político seguramente se debió a la inoperancia de sus militantes que, en la actualidad, creemos que no están en condiciones de hacer nada interesante. En todo caso, a nuestros efectos, podemos aprovechar algunos de sus documentos fundacionales.
3 Redactada en 1984 y aprobada en el Primer Congreso de la Internacional Humanista en Florencia en 1989.
4 Idem
5 Documento Humanista, Silo, 1993
Documento Fundacional del PHI
Cartas a mis amigos, Silo, 1993
Humanizar la Tierra, Silo, 1988
Silo, Documento Humanista, cap. II La Democracia Formal y la Democracia Real
Silo, Humanizar la Tierra, El Paisaje Humano, cap. XI El Estado
8 Bolivia promulgó en 2009 una nueva Constitución en la cual se declara país pacifista que rechaza expresamente el uso de la guerra como forma de resolver conflictos (art. 10 C. de Bolivia). Evo Morales junto a otros presidentes del sur de América adhirieron a la Primera Marcha Mundial Por la Paz y la No Violencia que durante 3 meses movilizó a cientos de miles de personas en todo el mundo.
9 Es destacable cómo multitud de ciudadanos están convergiendo en agrupaciones y plataformas que empiezan a hacerse cargo de la situación desde la misma base social. Cada vez es más claro que el cambio comienza en uno y continua en el medio en el que se tiene alguna influencia. Esto está aconteciendo en todo el mundo y muchas de estas plataformas están irrumpiendo en el campo político. Un ejemplo emblemático es Barcelona en Comú.



Ideario del Poder Joven

El Poder Joven es un espacio de libertad para organizarse y transformar el mundo. Hoy, las nuevas generaciones deben ocupar los ámbitos de poder negados por los viejos dirigentes de este sistema inhumano y caduco.

Ni dios, ni amo, ni estado soberano.

El objetivo del poder joven es crear una nueva organización social en la que no haya nada por encima del ser humano ni ningún ser humano por debajo de otro.

Estrategia, táctica y organización

Se niega validez a toda estrategia, a todo partido y a todo líder. Únicamente la acción de los pueblos es creadora de sus propios objetivos y es ella quien debe esclarecer sus aspiraciones.

Las tácticas de lucha son inmediatas y se resuelven en lo inmediato sin moldes previos. No obstante, toda táctica tiene en cuenta las experiencias anteriores y tiende a aclarar el modo de obtener el control sobre los medios de poder real mediante la metodología de la no violencia activa.

El Poder Joven se organiza de forma horizontal, libre y abierta mediante la promoción de asambleas, acuerdos sobre puntos mínimos y acuerdos sobre acciones concretas a desarrollar entre todos aquéllos que queremos construir un mundo alegre, solidario y no violento.

Así como en la vida individual se transita por la infancia, la juventud, la madurez y el envejecimiento, en el proceso histórico existe un ciclo en el que las distintas generaciones se van sucediendo. En todo momento coexisten, por lo menos, cuatro generaciones: la que nace y está en período de capacitación; la que lucha por el poder; la que está en el poder y la que ha sido desplazada de él.

Cuando la generación instalada en el poder impide el acceso a la siguiente detiene el proceso histórico. Podemos imaginarnos el fluir de la historia como una espiral abierta en la que cada giro corresponde a una nueva generación que hace su aporte sobre la base de su propia sensibilidad y deja el lugar a la siguiente. Y así sucesivamente.

El estado actual de la dialéctica generacional es que la gran mayoría mundial es joven y la proporción sigue creciendo. En la medida en que el mundo se ha acelerado y lo viejo sigue impidiendo el progreso se hace más imperiosa la superación de lo viejo por lo nuevo mediante el acceso al poder de la gente joven.

La dialéctica generacional será históricamente superada únicamente cuando la organización social suplante a la organización estatal. Entre tanto, la supera individualmente todo aquel que se orienta en la lucha a favor de las nuevas generaciones y aún contra su propia generación, cuando ésta se instale en el poder. Por lo tanto, los adultos reivindican su juventud luchando al lado de los jóvenes por el logro de la revolución total.

Los diez puntos sintetizan la revolución total en lo social, cultural y psíquico. No constituyen un programa de acción cerrado sino más bien son ideas-fuerza, movilizadoras de la acción revolucionaria:

  1. Propiedad colectiva

Aspiramos a la desaparición de la propiedad privada, de lo-mío y del para-mí. En la nueva organización social no existirá el trabajo remunerado sino que cada cual cumplirá una función social, de acuerdo a su vocación, gusto o capacidad, para que el sistema social satisfaga las necesidades vitales de todos.

  1. Poder directo en manos del pueblo

La unidad mínima de participación ciudadana será el vecindario, municipio o conjunto de personas que compartan intereses comunes respecto a temas de salud, educación y calidad de vida dentro de la comunidad que habitan.

Se impulsará una organización federativa en la que el poder político real vuelva a manos de las entidades histórico culturales oprimidas, en la actualidad, por la compulsión del estado centralista en manos del gran capital.

  1. Eliminación de la violencia física, económica, racial y religiosa

La verdadera Historia humana comenzará cuando se erradique toda forma de violencia en el mundo. Entendemos por violencia cualquier acción que niegue parte o toda subjetividad (intención, libertad) en el otro o en uno mismo.

  1. Enseñanza colectiva para los niños

Los niños de hoy son los adultos de mañana y es responsabilidad de todos habilitarlos en un pensamiento crítico, coherente y transformador de la realidad. El sistema educativo potenciará un desarrollo armónico de todas sus aptitudes mentales, emocionales y motrices.

Se cuidará especialmente el entorno sociocultural y medioambiental en el que los niños de forman.

  1. Medios de difusión destinados a la elevación de la cultura y de la técnica

La ciencia y la tecnología servirán para hacer la vida más fácil y, en lo posible, proporcionar más tiempo libre para dedicar a lo que realmente queremos hacer. Particularmente, los medios de comunicación estarán al servicio de la difusión de los avances científicos y culturales del momento.

  1. Orientación libre de la juventud hacia todos los ámbitos del trabajo y del saber

Cuando hablamos de llevar a las nuevas generaciones a los ámbitos de poder no nos referimos sólo al poder político sino a todos los espacios del quehacer humano. Entiéndase, a la cultura, la investigación, la expresión artística, etc. La revolución es total porque se produce simultáneamente en lo social, lo cultural y lo psíquico.

  1. Gobierno colectivo de la educación

Derecho a la autodeterminación educativa. Estudiantes, docentes, operarios y, en su caso, padres, deben participar en la gestión y dirección de los centros educativos en nivel de paridad.

  1. Liberación mental

La transformación social viene de la mano del cambio personal en el entendido que el sistema es, básicamente, un sistema mental. La mejor herramienta contra la hipnosis del sistema es la atención. Sería un gran avance fomentar la autocrítica y la meditación. Para eso habría que mantener cotidianamente la conciencia del propio “yo”, evitando toda divagación. Tal postura mental permite y refuerza la acción mientras dirige las intenciones hacia los objetivos propuestos, sin “dejarse llevar”, sin dejarse utilizar, sin dejarse condicionar por las superestructuras del sistema.

  1. Destrucción de las falsas expectativas de la sociedad de consumo

A una generación le pidieron sacrificio para que sus hijos tuvieran lo que ellos no alcanzaron. A la siguiente le prometieron la “realización” en el mercado laboral y el consumismo. Y a la actual se le niega todo futuro estigmatizándola como vaga y desinteresada. Sufrimos el fracaso del futuro postergado por las falsas expectativas del sistema.

El gran mito del dinero como tema central alrededor del cual todo gira será sustituido por el ser humano como valor más importante. Los jóvenes hacemos lo que queremos y lo hacemos desde el corazón. No etiquetamos, no prejuzgamos, no discutimos.

  1. Expresión de una nueva espiritualidad en el mundo

Nuestra espiritualidad no es la espiritualidad de la superstición, no es la espiritualidad de la intolerancia, no es la espiritualidad del dogma, no es la espiritualidad de la violencia religiosa; es la espiritualidad que ha despertado de su profundo sueño para nutrir a los seres humanos en sus mejores aspiraciones.