Categoría: Raciovitalismo - Meditaciones

José Ortega y Gasset, la filosofía como acción política

Documental sobre las dos vocaciones de Ortega, la filosófica y la política, siempre con la preocupación de encontrar una fórmula para transformar y modernizar España. El gran filósofo de la razón vital aparece reflejado a través de sus propios textos y de la valoración de filósofos e historiadores que se acercan a su vida y obra.

José Ortega y Gasset



Sobre «Origem e Epílogo da Filosofia»

Nos dias atuais, freqüentemente, ouvimos discursos que tratam das vantagens e das desvantagens sobre o ensino da História da Filosofia para jovens estudantes. Os discursos são apresentados numa tentativa de demonstrar a importância em despejar nas cabeças dos estudantes todo o legado do passado filosófico, reduzindo o ofício do amor ao saber, numa simples retilínea com sucessão de idéias mortas. Sabemos que é importante integrar o passado filosófico ao exercício de vencer os desafios contemporâneos. Nessa tentativa de vencer os desafios contemporâneos consiste o Filosofar. Para articular a História da Filosofia com o Filosofar, pensamos com o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) que trabalha esta questão em seu livro Origem e Epílogo da Filosofia, cuja organização se realizou com ensaios introdutórios para o livro História da Filosofia de seu amigo Julían Marías.

Para Ortega y Gasset, o passado filosófico constitui um emaranhado de idéias que se organizam numa série dialética. A série dialética é a apresentação das idéias que se opõem, mas que são dependentes entre si, e impulsiona uma dinâmica que move a história. O ponto de partida para o exercício do pensar é analisar o objeto que chega aos sentidos, mas não se esgota nos sentidos. Para o filósofo, ao analisar um objeto estamos empregando uma reflexão a fim de conceber um aspecto da realidade. Esta forma analítica de pensar é a primeira instância do pensamento.

Ao pensar em algo somos forçados a pensar nas coisas que estão à sua volta. O “pensar em torno” é o que acrescenta o pensamento analítico inicial e, por isso o complica porque força-nos a pensar nas circunstâncias de algo. Ao pensar no “em torno” estamos pensando nas circunstâncias. A dialética é a força que nos impulsiona e nos mantém pensando, considerando sempre o objeto e as coisas à sua volta. A obrigação que temos em assumir a tarefa de pensar é dada pela realidade vital, porque esta realidade não pode ser negada, pois é experimentada e vivida.

O primeiro aspecto que a análise de algo nos oferece é a apresentação de uma multidão de opiniões que o cerca. Mas sobre estas opiniões empregamos a elegância em saber escolher o que melhor se adapta para o nosso juízo. Para Ortega y Gasset, a palavra “elegância” conota o sentido latino “eligentia”, que ao adicionar ao prefixo “int” obtemos “inteligentia”, que significa o hábito de escolher. O termo “elegância” é um dos principais elementos da ética orteguiana. Por elegante entende-se o homem que nem faz, nem diz qualquer coisa, mas faz o que é preciso fazer e diz o que é preciso dizer.

Para Ortega y Gasset, a fisionomia do passado é constituída por ruínas. Estas ruínas são os erros que nos foram legados pelas diferentes gerações que viveram os problemas de sua época. Assim, cada filosofia leva em conta os erros de outras teorias filosóficas esperando não repeti-las, pois como diz o filósofo:

Cada Filosofia aproveita as falhas das anteriores e nasce, certa de que, pelo menos nestes erros não cairá (Origem e Epílogo da Filosofia. p.160).

A verdade é difícil a ser alcançada, porém o erro é facilmente encontrado. Ortega y Gasset, entende que o erro nos aparece naturalmente. No entanto, não existe um erro absoluto, porque mesmo do erro pode-se extrair algo positivo. O termo “cético”, por exemplo, surgiu no auge da cultura grega e não pode ser aplicado a aqueles que “não acreditam em nada” como pensam algumas pessoas. Os céticos eram “homens terríveis” porque não deixavam as pessoas viverem sem questões. Para Ortega y Gasset, os céticos “extirpavam a crença nas coisas que pareciam mais certas” (Idem. p. 163). O sentido original do termo cético é a ocupação em exaurir as verdades do vulgo, a fim de colocá-las em apreço para análise e reflexão, e enfim coloca-las em dúvida. Ao questionar, os céticos se empenha em refutar, isso funciona como um choque, porque demonstra que a verdade ordinariamente assumida é insuficiente para explicar o que se propõe.

Para explicar os problemas atuais, deve-se percorrer todo o passado filosófico, com uma visão arqueológica. Ortega y Gasset explica que a Filosofia atual tem como referência a Filosofia anterior. É como percorrer um itinerário mental que todo aquele que se propõe a pensar a realidade terá que seguir. O ato de percorrer simplesmente o passado filosófico sem identificá-lo com os problemas atuais das sociedades, consiste numa tarefa da mente adestrada. Esta mente adestrada, percorrerá a série dialética do pensamento numa educação filosófica sem o esforço de refletir, mas como uma ginástica de cultivar a memória. Para refletir o passado filosófico buscando fundamentos para explicar a sociedade contemporânea não basta abandonar os erros precedentes, mas integrá-los a fim de edificar um conceito novo.

Para o filósofo espanhol, o passado filosófico nos deixou idéias que não são as mesmas que temos atualmente. Isso significa que um segundo olhar sobre algo revela-nos detalhes que primeiramente não percebemos. A cada olhar o objeto deixa-nos escapar alguma revelação:

Proponhamos ver uma laranja. Primeiro, nós vemos dela apenas uma face, um hemisfério e depois temos que mover-nos e ir vendo hemisférios sucessivos. A cada passo, o aspecto da laranja é outro que se articula com o anterior quando este já desapareceu, de modo que nunca vemos junta a laranja e temos que contentar-nos com vistas sucessivas (Idem. p. 182).

Ortega y Gasset explica que mesmo Platão (427-347 a.C.) quando se refere à idéia como algo totalizante, na verdade busca exprimir a noção de um aspecto da realidade. Isso significa que, não existe nada que possa ser apreendido em sua totalidade. O modo de o homem ver as coisas é sempre um modo de apreender um determinado aspecto. A verdade é sempre perseguida e nunca alcançada. A verdade é o resultado da adição dos vários aspectos que conseguimos apreender da realidade. Por isso, há a necessidade de estabelecer sempre um processo dialético como integração para fundamentar um conceito novo.

Ortega y Gasset não dá ao termo “dialética” o sentido adotado pelos românticos alemães, que em seus sistemas declarava uma grande caça a verdade em nome do Absoluto. O pensador entende o termo “dialética” como um conjunto de fatos mentais que resultam ao se pensar a realidade. A realidade mostra a soma integral de seus aspectos e numa operação dialética podemos: parar, prosseguir, conservar e integrar, nunca deixando de refletir o presente.

O passado filosófico nos chega pelos títulos dos livros e o nome dos seus autores. Os títulos e os nomes dos autores são apenas uma referência aos problemas que eles tenta explicar em suas épocas. Para tentar explicar os problemas que afligem sua geração, os autores precisam aplicar a “alethéia”, que é o nome primogênito da Filosofia.

Por “alethéia” entende-se descobrimento ou revelação. A Filosofia, para Ortega y Gasset, é “uma faina de descobrimento e decifração de enigmas que nos põe em contato com a própria e nua realidade” (Idem. p. 210). A “alethéia” é a própria verdade revelada.

O que fazia o homem com sua mente antes de pensar o mundo? Para Ortega y Gasset, todo pensar possui um subsolo, um solo e um adversário. Antes de o homem iniciar seu pensamento sobre o mundo existiu algum subsolo que o suportou e o impulsionou a pensar. No passado grego, esse suporte e impulso foram à falta de credibilidade nas explicações divinas.

Ao filosofar o homem exercita sua liberdade. Para Ortega y Gasset, a liberdade não brota da ética e nem da política porque estas instâncias não são a raiz da vida. A liberdade é a escolha entre as carências de necessidades vitais. O filósofo explica que o círculo das possibilidades é bem maior que o das necessidades. E a vida é pobreza, portanto necessidades. A vida é sempre insegura. A dúvida é o meio pelo qual o homem sai de suas necessidades. O filósofo René Descartes (1596-1650) ensina que o método é a reação a uma dúvida, e foi nesta perspectiva que Ortega y Gasset explica que para suprir as necessidades deve-se recorrer à dúvida porque ela é postulação de um método.

A mais antiga divisão do pensamento humano acontece entre o sagrado e o profano. O deus que aparece nos tempos remotos da Grécia não é um deus religioso, mas um deus conceitual. Este deus conceitual é produto da racionalidade, que consiste na livre escolha para buscar um novo fundamento. A essa livre escolha dá-se o nome de Filosofia. A tonalidade própria do pensador é o insulto ao vulgo, pois é sua a missão de possuir idéias opostas à opinião pública. A preocupação dos filósofos gregos era discutir sobre eles mesmos e sobre a vida na polis. A palavra “Filosofia” devia circular neste ambiente para significar a ocupação com todas as novas disciplinas – desde a Filosofia Natural até a Retórica. A Filosofia é uma tentativa de explicar o mundo, interagindo o passado com o presente e ampliando os seus horizontes nas mais diversas disciplinas. Toda descoberta científica, toda verdade nos põe numa visão repentina e imediata de um mundo que até então desconhecíamos e com o qual não contávamos. O diálogo filosófico nos impulsiona para novas descobertas.

BIBLIOGRAFIA

ORTEGA Y GASSET, José. Origem e Epílogo da Filosofia. Ibero-Americano: Rio de Janeiro, 1963.

Danilo Santos Dornas
Graduado em Filosofia
Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea – Ética
Universidade Federal de São João del-Rei




Os fundamentos de uma pedagogia raciovitalista

Neste trabalho, examinamos quais são os fundamentos de uma pedagogia raciovitalista segundo o pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Adicionalmente, procuramos compreender qual a postura do educador e do educando nesse modelo teórico.

Palavras-chave: Filosofia, Educação, Raciovitalismo.

Considerações iniciais

A pedagogia é a ciência que investiga os pressupostos teóricos da educação. Para pensa-las valemos-nos das indicações do pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Ele analisa os problemas sociais que afligem sua geração. Desse modo, se depara com as idéias educacionais que necessitam de uma investigação singular. Para Ortega y Gasset a ciência pedagógica não pode apenas abordar um tema, mas precisa instaurar uma postura crítica diante da situação sociopolítica e cultural alterando-a para melhor.

Nosso trabalho tem por objetivo examinar os fundamentos da pedagogia raciovitalista. Além disso, buscaremos compreender como os estudantes devem proceder dentro desse modelo educacional que lhes permitirá crescer como seres únicos, equilibrados e criativos. Por outro lado, o educador, seguindo as indicações da pedagogia raciovitalista, deve aprofundar os fundamentos das teorias pedagógicas do século XX, porque um educador tem que ser mais que um regulador ou transmissor daquilo que é preciso aprender numa certa circunstância. O educador deve ser capaz de atualizar as potencialidades do educando.

Nos últimos dois anos, nós nos dedicamos ao estudo de alguns aspectos da Filosofia de Ortega y Gasset. Este trabalho, faz parte de um projeto maior sobre a Filosofia da Educação que estamos desenvolvendo com o apoio do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico, nos Programas de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), sob a orientação do Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

As referências principais para a realização deste trabalho foram as Obras Completas, de José Ortega y Gasset, editadas em Madri, pela Alianza. Além disso, valemo-nos dos artigos da Revista de Estudios Orteguianos e das obras de Margarida I. A. Amoedo intitulada José Ortega y Gasset: a aventura filosófica da educação, editada em Lisboa, pela Estudos Gerais e de José Mauricio de Carvalho intitulado Introdução à Filosofia da Razão Vital, editada em Londrina, pela CEFIL.

I Como se pensava a educação nos tempos de Ortega y Gasset?

José Ortega y Gasset apresenta suas idéias pedagógicas contrapondo-as às idéias educacionais então vigentes. Naquele momento as teorias da educação consagram o saber prático. Assim, verificamos que o principal problema educacional de sua geração é a conversão dos conceitos educacionais nos termos das ciências técnicas.

O problema da educação, nesse caso, é sempre um problema de eliminação. Eliminação significa a capacidade de o homem selecionar o que é essencial para sua vida, eliminando o que não é. As funções essenciais que o homem deve perseguir são de ordem psíquica e é essa ordem que o distingue de uma máquina.

As máquinas são construídas a partir da dificuldade do corpo humano em realizar determinadas tarefas. Para Ortega y Gasset, as máquinas trabalham em limitadas condições e reduzem a atividade humana ao mínimo, impedindo distinção entre o vital e o operacional. O filósofo, é necessário distinguir a função vital e o substituto dela quando se emprega uma máquina. Eis o que diz nos Ensayos Filosóficos:

O uso da bicicleta é mero mecanismo e, portanto, menos vital que o uso do pé, tampouco este representa a vitalidade essencial, também é um mecanismo em comparação com outras funções biológicas primárias (O. C. II; p. 276).

A ciência do século XX preocupa-se sobretudo com os estudos orgânicos. Ortega y Gasset entende que ensinar o homem pelos modelos funcionais, como as teorias mecânicas então predominantes, não permite entender as realidades vitais do homem. Então, o filósofo indaga: quais são as realidades vitais do homem? Para ele, são três: 1) a realidade mecânica ou técnica, que em seu conjunto chamamos de civilização e correspondem a montar uma bicicleta; 2) as realidades culturais do pensar científico, que se inserem numa vitalidade psíquica dentro de causas normativas, e é com esta que a pedagogia da razão vital deve se preocupar para que haja a capacidade do homem em eliminar o que é desinteressante de sua vida; e 3) os ímpetos originais do psiqué, como as emoções. Essas três realidades distinguem os homens, mas são raízes da existência pessoal. O erro das concepções pedagógicas de sua época foi supor que ensinar técnicas ao indivíduo iria dotá-lo de visão científica e de uma inteligência inquestionável.

II A vida espontânea como processo de adaptação

Ortega y Gasset, no ensaio intitulado Biologia y Pedagogia, explica que a missão da escola é preparar o homem para a vida. Para isso, ele completa, as escolas poderiam ensinar a educação cultural e a civilização para constituírem um instituto que permaneça idêntico desde os tempos mais remotos do passado e estimular a criatividade para o educando enfrentar os problemas do futuro. Para o filósofo, é mais urgente e necessário educar o homem para uma vida criadora do que para repetir técnicas.

O ensino das técnicas é adequado para quem precisa se especializar numa função que não seja essencial para sua vida. Ortega y Gasset explica que o ensino técnico era considerado a principal forma de educar o homem porque sua geração passara por uma circunstância muito singular. A geração que antecedeu à sua preocupou-se com a exploração de minerais e, assim, com a configuração de uma realidade limitada, o que impedia um olhar mais aguçado para o futuro. Também ficou sem função a possibilidade de admirar ou contemplar o mundo que está na raiz de todo conhecimento humano.

O estudo da realidade principia com um impulso inicial que é a admiração. Ortega y Gasset nos lembra que a admiração fez mover a Filosofia nas suas origens gregas. O filósofo conclui que a admiração no povo grego nasce não só da sua cultura, mas também devido a um perfil psicológico caracterizado pelo desejo de riqueza, glória e sabedoria. Uma pedagogia, para ter sucesso, tem que sistematizar a vitalidade espontânea dos educandos. Para realizar essa tarefa, os filósofos da educação devem analisar, equilibrar e corrigir as deformações que surgiram na história.

Ortega y Gasset entende que o homem não tem natureza, mas história. Por isso, contrapõe suas teses educacionais com as de Jean Jacques Rousseau (1712-1778), para quem a vida espontânea deve ser negada e a vida primitiva, valorizada. Entendemos que tratar o homem primitivo como selvagem, como fez Rousseau, significa centrar a distinção entre homem selvagem e homem civilizado nos recursos técnicos que cada um dispõe para a sobrevivência. E isso consiste em admitir teoria “progressista” como processo único de construção do saber humano. Porém, essa teoria “progressista” não entende que a origem da civilização aconteceu ainda entre os homens primitivos quando estes sentiram a necessidade de organizar-se em comunidade.

Ao contrário do que pensa Rousseau, Ortega y Gasset diz que a educação nunca será uma ficção da natureza. O filósofo espanhol entende que entre os anos de 1850 e 1900, os pensadores definiram que a vida essencial era a adaptação do homem ao meio em que se encontra. Essa característica atende somente à sua vida orgânica. Na passagem seguinte, Ortega y Gasset sintetiza as conseqüências de semelhante modo de pensar:

A mão, sobretudo no homem, é o órgão exemplar da adaptação criadora, que consiste em transformar proveitosamente o meio (O. C. II; p. 284).

A biologia refere-se à vitalidade como um processo de adaptação. Esse mesmo propósito orienta a psicologia, cuja vitalidade psíquica é inspirada na biologia orgânica do século XIX. As teorias biológicas e psíquicas daquele século entendem que a percepção do mundo circundante inicia-se num processo de adaptação do sujeito ao meio em que está situado. Esse processo relaciona a vida com o meio e é regido por ele. Porém, explica Ortega y Gasset, ao penetrarmos fundo na alma, percebemos extratos profundos que dificultam a adaptação ao meio.

Para Margarida Amoedo, o conceito de “paisagem” que o filósofo propõe, visa combater a categoria biológica de “meio”. Em nosso entendimento, o conceito de “paisagem” significa que cada espécie animal tem o seu lugar e que o homem vive em toda parte. O termo “paisagem”, além de diferir do “meio”, significa o conjunto das circunstâncias que o homem encontra em sua vida. Desse modo, “circunstâncias” e “paisagens” são ao mesmo tempo uma limitação para o homem e um conjunto de possibilidades.
Com o conceito de “paisagem”, podemos auferir as seguintes implicações pedagógicas: 1) o êxito da aprendizagem depende do uso de mecanismos adequados; 2) a compreensão da paisagem do indivíduo permite investigar seu potencial criador; e 3) educar deverá ser sempre o causador de paisagens novas.

III A forma psíquica inadaptada e a pulsação vital como sentimento de vitalidade

No item anterior, procuramos explicar em que consiste a adaptação e como o conceito foi introduzido nas teorias pedagógicas. Consideramos também que essas práticas educacionais suscitam dificuldades porque não incentivam a criação humana. Agora, em contraposição ao que proclama essas teorias, vejamos como Ortega y Gasset aborda a forma psíquica como a mais rica, enérgica e abundante.

Para fazer essa elucidação, recorremos, com o filósofo, às palavras: “querer” e “desejar”. O “querer” significa apropriar-se da realidade de algo e dos meios que se utiliza para fazer algo; o “desejar” implica em dar conta de que o desejado é relativo ou absolutamente impossível. Na criança, essa distinção não existe. Quando sua experiência lhe mostra o que é ou não possível, sua vontade vai se modificando entre o realizável e o irrealizável. A sua existência torna-se uma constante luta de fronteiras entre o “querer” e o “desejar”. Assim, o “desejo” é um “querer” fracassado. Porém, Ortega y Gasset nos explica que é o “querer” que nutre o “desejo”, movendo-o e ampliando-o. Assim, o desejo é o motor dentro do universo psíquico porque significa o homem sentir suas necessidades e empenhar-se em buscá-las.

A esfera política, Ortega y Gasset explica que a “barbárie” resulta do triunfo do homem que tem poucas necessidades. No caso, as suas necessidades são reconhecíveis pelo homem de forma íntima, abrindo as possibilidades para que ele saia de suas circunstâncias pelo “desejo” de ampliar os seus horizontes.

Uma pedagogia voltada para a adaptação do indivíduo ao meio exclui os “desejos” e a possibilidade do indivíduo realizar grandes feitos porque exalta as tarefas que os mestres julgam praticáveis. Assim, os mestres cegam o indivíduo de suas possibilidades e de suas potencialidades criadoras. Uma pedagogia raciovitalista considera que o pensamento é a ação sobre a outra pessoa porque influi na relação com o outro. Desse modo, a censura muitas vezes empregada pela pedagogia de adaptação pode nascer tanto do amor quanto do rancor que temos ao outro.

Para o filósofo, as emoções que sentimos na relação com o outro revelam nossas instâncias psíquicas e são elas que nos dirigem, nos alimentam, nos deprimem, mas que também nos são íntimas e podem nos nutrir. Essas emoções são influenciadas por uma dinâmica psíquica que varia entre os homens. Isso significa que o sentimento de vitalidade existente em cada homem parte de um pulso psíquico íntimo que o faz viver os desafios de sua época.

Não há que se esperar valores éticos nos pulsos vitais, mas cabe ao homem assegurar sua saúde vital. Nesse contexto, o filósofo explica que a pedagogia deve preocupar-se em submeter a atividade educacional aos ditames do imperativo de vitalidade. O ensino fundamental, explica o filósofo, deve ter o objetivo de produzir o homem vitalmente perfeito. Isso quer dizer que o homem deve sentir sua pulsação vital já no período inicial da formação. Ortega y Gasset ainda explica que as demais ciências, a moral, a técnica e o ideal de cidadania não devem ser a preocupação inicial da pedagogia raciovitalista, eles serão preocupações posteriores do educando.

IV A importância dos mitos na educação fundamental

Até aqui, identificamos o perfil da pedagogia raciovitalista; entretanto sentimos a necessidade de abordar a questão dos mitos porque ela interfere na educação fundamental. Na educação fundamental, o indivíduo necessita estar envolvido numa atmosfera de sentimento audacioso, ambicioso e entusiasmado. Por isso, a importância dos mitos.

Uma pedagogia prática, certamente, desprezará o ensino dos mitos por considerá-los um emaranhado de imagens fantásticas e, em contraposição, procurará colocar no indivíduo a idéia exata sobre as coisas. Essa pedagogia rejeita a noção que o mito possui uma função interna sem a qual a vida psíquica ficaria paralisada. Ortega y Gasset nos explica que o mito nutre o pulso vital e, por isso, o filósofo o denomina de “hormônio psíquico”. O filósofo ainda acrescenta que, até o século XIX, o “meio” é o mundo físico-químico onde estão os indivíduos, e eles teriam que se adaptar a ele do melhor modo possível. Assim, a biologia transforma os fenômenos vitais em fenômenos mecânicos. As coisas, no entanto, não se relacionam por atividades mecânicas.

A incompreensão do ensino fundamental vigente é a suposição de que os educadores dispõem que, na vida educacional, os educandos possuem o mesmo mundo que o dos educadores porque sempre partem do próprio mundo como algo definitivo, pronto e acabado e porque acreditam na pedagogia prática. Entretanto, o mestre com a formação prática esquece que a maturidade e a cultura são criações da criança e do selvagem. Para Ortega y Gasset, a maturidade não é a superação da imaturidade, e sim uma interrogação da realidade que se apresenta ao indivíduo. Para o filósofo, a pedagogia de Rousseau se assemelha ao uso de um método cruel porque intenta suplantar a paisagem natural da criança com os elementos que rodeiam as pessoas maiores. O filósofo ainda explica que o homem é um conjunto de órgãos seletos que interferem na realidade circundante; porém, o “meio” depende não só de sua estrutura corporal, mas também de sua estrutura psicológica. É essa a importância de ensinar os mitos ao jovem, para que ele possa exercitar sua pulsação vital.

O jovem imagina uma realidade ilusória e, por isso, sua educação vai se consolidando na medida em que as interrogações vão perdendo as ilusões. Esse processo de desilusão inicia-se quando a razão começa a operar em torno do novo objeto. Todo empenho da razão será guiado pela vontade de saber e obter uma noção exata do objeto de elaborar uma cópia intelectual que o transcreva como ele aparece. Para Ortega y Gasset, não há nada que chegue até nós num primeiro instante que não nos cause uma dupla reação: história e lenda. A lenda ocupa tanto nossa paisagem que até mesmo a ciência pode ser incorporada nela, completa o filósofo. Trata-se de uma crítica ao positivismo, que é exemplo de uma grande exaltação acrítica à ciência, fazendo fundar-se até uma religião constituída por mitos.

V O ato de estudar na pedagogia raciovitalista

Até aqui, discutimos os principais conceitos presentes na pedagogia raciovitalista. Passamos agora a considerar o perfil do estudante e o ato de estudar. Para o filósofo, o ato de estudar consiste na constante busca da verdade. Sendo assim, a verdade é o fator que acalma a inquietude de nossa inteligência. Nessa perspectiva, Ortega y Gasset explica que o saber deixa de ser científico. Isso, completa o filósofo, ocorre também com a Metafísica. Para quem não vê uma necessidade da Metafísica, os seus assuntos consistem num falatório sem sentido.

Para compreender o sentido dos discursos metafísicos, não precisamos de nenhum talento ou sabedoria inata, mas de uma condição fundamental: investigar para que serve a Metafísica. Ortega y Gasset entende que para aceitar sua necessidade deve-se reconhecê-la como um sentimento próprio e, da mesma forma, possuir uma necessidade das coisas que nos chegam da realidade. Assim, percebemos que a necessidade em conhecer é o motor que precisamos para buscar a descrição das coisas que nos chegam.

Nesse processo, ainda cabe esclarecer a questão: o que é o estudante? O estudante é um ser humano a quem a vida não impõe a necessidade das ciências. O estudante encontra a teoria e é estimulado a aprendê-la. Em contrapartida, está aquele que cria a ciência, pois sente uma necessidade vital e tem satisfação em edifica-la. Desse modo, não é o desejo que resulta no saber, mas a necessidade em saber. Podemos ainda completar que o desejo não existe sem que exista uma coisa desejada; ao contrário, a necessidade é percebida quando uma carência brota na alma e precisa ser preenchida.

O estudante tenderá a não questionar o conteúdo da ciência que lhe foi comunicada. Ao contrário, quando está diante de um conceito determinado se sente acomodado e amparado pela teoria e passa a crer que ela é definitiva, pronta e acabada. Existe uma outra questão que deve ser analisada. Ortega y Gasset indaga se, caso a ciência não estivesse aí, o estudante sentiria a necessidade dela. Para responder, o filósofo explica que a situação de estudante é artificial, ele apenas finge a necessidade. Portanto, o ideal é que o estudante tivesse um sentimento urgente que brotasse na alma com o intuito de desbravar os diversos saberes. Mas estudar tem sido em nossa cultura a obrigação de se interessar pelo que não interessa.

O perfil do criador, para Ortega y Gasset, se baseia na curiosidade. Em Martin Heidegger (1889-1976), a palavra “curiosidade” sugere um sentido que parece adequado ao que Ortega y Gasset quer exprimir. Para Heidegger, “curiosidade” se origina na palavra “cura”, que significa “cuidado” ou “preocupação”. Assim, um homem cuidadoso faz tudo com atenção e extremo rigor e se preocupa com sua ocupação. Ortega y Gasset entende que o vício do homem é fingir o cuidado, ou seja, ser incapaz de autêntica preocupação.

Através da curiosidade, chegamos à ciência e aí o homem revela sua sincera preocupação, que é uma necessidade imediata e autônoma. O estudante que não sente essa curiosidade consiste numa fraude de sua própria existência.

Considerações Finais

Neste trabalho, examinamos a importância das contribuições da filosofia raciovitalista para a educação. As teses educacionais se fundam nos problemas encontrados pelo filósofo Ortega y Gasset ao contrapor as práticas educacionais puramente técnicas que estavam vigentes em sua época inspiradas nos pensadores do séc. XIX. Essas práticas compreendiam o homem como um ser que se adapta ao meio e, assim, tratam a vida humana como algo que se restringe ao orgânico.

A pedagogia raciovitalista compreende o homem como um ser que está além de suas limitações orgânicas. Ele é um ser que possui aspectos psicológicos que nutrem seus desejos de conhecer a realidade vital. Os aspectos psicológicos tratados pelo filósofo sofrem influxo da pulsação vital que impulsiona o homem para além de suas circunstâncias e precisam, ser considerados pelas teorias educativas.

Para que haja o desenvolvimento dessa pulsação vital, o educador deve aprender a usar os mitos, porque são eles os principais recursos para ensinar as virtudes necessárias para a sobrevivência de uma comunidade. Os mitos não são simples lendas, e sim “hormônios vitais” que ajudam o homem a exercer suas atividades criadoras, demonstrando audácia, coragem e ambição necessárias para a vida. Os mitos devem ser ensinados ao jovem para que ele cresça sem se fixar em verdades prontas e desenvolva o gosto pela pesquisa e busca da verdade.

O estudante, formado neste processo de constante indagação, se transforma num pesquisador. Assim, segue construindo ser com a eterna busca do saber. A educação, assim vista, significa a ação de extrair uma coisa de outra, de converter uma coisa menos boa em outra melhor.

Bibliografia

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CARVALHO, José Mauricio de. Introdução à Filosofia da Razão Vital. Londrina: CEFIL, 2002.

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HEIDEGGER, Martin. Conferências e outros ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

HUSSERL, Edmund. Meditações Cartesianas: Introdução à Fenomenologia. Tradução Frank Oliveira. São Paulo: Madras, 2001.

JASPERS, Karl. Introdução ao Pensamento Filosófico. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 1999.

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________. Ensayos filosóficos: biologia y pedagogia. Obras Completas. 2. ed. tomo II, Madrid: Alianza Editorial, 1993.

________. La Rebelión de las masas. Obras Completas. 2. Ed. tomo IV, Madrid: Alianza Editorial, 1993.

________. Sobre el estudiar y el estudiante. Obras Completas. 2. ed. tomo IV, Madrid: Alianza Editorial, 1993.

ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Nova Cultural, 1999

 

Trabalho realizado como parte das atividades do PIBIC/CNPq, anos 2002/2003, sob a orientação do Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

** Acadêmico de Filosofia da Universidade Federal de São João del Rei (PIBIC/CNPq)




Nuestras creencias: la Realidad

De niños nuestra realidad cabe en una casa, la casa de nuestros padres y utilizamos nuestro intelecto para imaginar; creamos mundos de fantasía que tomamos, muy fácilmente, como realidad. Estos mundos brotan de una caja, de un rincón de la casa en donde tenemos nuestros juguetes y disfraces, pero son capaces de volar más allá del universo mismo. De niños, nuestro mundo real es muy pequeño, nuestras fantasías enormes y así tenemos muchos espacios donde movernos.

Conforme vamos creciendo nuestro “mundo real” se amplía: la escuela, las casas de los amigos, el barrio, la ciudad, el país; hasta que llegamos a abarcar la realidad del mundo. En este punto ya somos personas adultas. En nuestro ejercicio cotidiano de vivir, constituimos el mundo y nos plantamos sobre una realidad (la propia) de forma tan firme que la fantasía queda relegada para algunas ocasiones (con suerte) o guardada totalmente en el cofre de recuerdos que suele llenarse de polvo.

De adultos, nuestro intelecto es utilizado para generar ideas “serias”. Especulamos acerca de la realidad que llegamos a construir, discutimos, razonamos, formulamos, criticamos… ideas serias, que no son más que eso, ideas que se erigen sobre la enorme realidad que nos sustenta, en la que estamos y en la que vivimos. Se trata de las creencias. La vida humana está constituida por creencias básicas y éstas son nuestra realidad.

El hombre se enfrenta a un mundo y a si mismo, tiene una percepción de ello y realiza una interpretación. Esto no forma parte de su pensamiento, no surge en un momento determinado, sino que está ahí, cuenta con esa forma de interpretar y mediante ella es que genera su realidad.

Las creencias no se formulan, no se discuten porque no son producto de nuestro pensamiento. Cuando pensamos generamos ideas, contenidos de nuestro intelecto que no son nuestra realidad dado que para que podamos ejercer la acción de pensar nuestro intelecto debe estar sustentado por una realidad desde donde comenzar.

Nuestras creencias, operando como fondo, conforman nuestra realidad. Por lo tanto contamos con ellas siempre, sin pausa y no necesitamos hacernos cuestión porque están allí. Ortega y Gasset explica muy bien esta diferencia de la siguiente manera: … “las creencias constituyen el continente de nuestra vida y, por ello, no tienen el carácter de contenidos particulares dentro de ésta. Cabe decir que no son ideas que tenemos, sino ideas que somos.”1

Cuando pensamos, cuando adherimos a ciertas ideas, teorías o razonamientos de otros que nos parecen correctos, que son por lo tanto verdades para nosotros, lo hacemos en un momento dado y somos conscientes de ello. Por ejemplo, si queremos escribir una carta a un ser querido, nuestro intelecto piensa en lo que vamos a decir y si razonamos esta acción pensamos que tomamos un papel y una lapicera y utilizando estos instrumentos nos servimos de las palabras para expresarnos. Nuestras ideas pueden crear una carta más o menos poética, con mejor o peor retórica, con una sintaxis más o menos correcta, pero nunca nos ponemos a pensar si todo este conjunto de letras en verdad quieren decir lo que pretendemos. Lo damos por hecho porque contamos con esto y el lenguaje es parte de nuestra realidad.

¿Cómo se forman nuestras creencias?

Algunas las heredamos, de nuestro entorno y también de la época a la que pertenecemos; otras las vamos constituyendo de acuerdo a nuestra experiencia, a las situaciones que vivimos, a las dificultades con las que nos enfrentamos y como respuesta de lo que percibimos. Así se van gestando nuestras creencias, formando un colchón sobre el que nos es sustentable la vida.

Creemos en aquellas cosas de las cuales no tenemos la menor idea pero que defendemos en los actos y no en las palabras. Creemos sin más. No somos conscientes de nuestras creencias como tales, solo vivimos conforme a ellas porque para nosotros son la realidad. Esa asociación es la forma más fuerte de “defenderlas”, de serles fiel. Y es porque tenemos verdadera fe en ellas que ni siquiera necesitamos traerlas al nivel del intelecto para especular, sino que para nosotros no tienen lugar a dudas…

La duda

Cuando por alguna razón se genera una grieta y se produce un corte en nuestras creencias, comenzamos a dudar. Aquello que se explica como crisis en la evolución científica equivale a nuestra duda. No a la duda metódica o intelectual, la verdadera duda que se yergue ante nosotros como la muerte y como tal es la vida misma, es la otra cara de la misma moneda. O sea, la duda surge de la creencia y es lo mismo que la creencia, como la muerte surge de la vida. Si no hay vida no hay muerte, sin creencia no hay duda. La duda es, pues, desacomodamiento, conflicto de creencias antagónicas, la duda es ambigüedad. Sentimos que la vida es ambigua, que la realidad no se nos aparece tan clara como solía y no sabemos qué pensar… Justamente en estos momentos donde la fortaleza de nuestras creencias se desvanece y genera un hueco, allí surge la duda. El virus de la duda que acude a su médico más querido, el intelecto y a su medicina más eficaz, las ideas.

Salimos de la duda, pensando, buscando alternativas, nuevas formas. A través de este mecanismo tratamos de acomodarnos en el mundo, nuestro mundo que habiendo perdido la estabilidad se nos presenta incómodo, nos hace tambalear, naufragar. Entonces, nuestro intelecto busca estabilidad donde la duda había sembrado arenas movedizas. Ante esta situación sentimos dolor, sufrimos. Nos sentimos perdidos y buscamos la tranquilidad que solíamos tener. ¿Quién se siente bien cuando el suelo, bajo sus pies, no lo deja correr?

Lo verdadero y aún lo científicamente verdadero, no es sino un caso particular de lo fantásticoHaz click para twittear

En el mundo de hoy, en nuestros días, esta sensación de inestabilidad habita, generalizada, en jóvenes y adultos. El problema es que no tomamos conciencia de que la solución está en cada uno de nosotros y depende exclusivamente de nosotros.

Realidad y fantasía: la misma cosa.

Si entendemos que somos los productores de nuestra realidad, si hacemos conscientes nuestras creencias y comprendemos que ellas son creadas por nosotros y son las que nos hacen ver el mundo desde una perspectiva, podemos entender también que el mundo, nuestra perspectiva del mundo, vive en nosotros, no existe como realidad aislada. Y nosotros vivimos en ella tal y como la concebimos, hasta que por algún motivo se produce un quiebre, un desplazamiento de nuestras creencias y nos vemos en la necesidad de reconstruirla. La realidad nos necesita para existir de algún modo y por lo tanto cuando esa realidad no nos satisface, nos hace sufrir y nos vemos forzados a cambiarla para sentirnos mejor, para “estar mejor” en ella, tenemos la oportunidad de moldear el mundo como mejor nos parezca. Lo importante es que muchas veces sentimos que no somos capaces de cambiar esa realidad, solo porque no entendemos que nuestro mundo, nuestras creencias son nuestra obra; de la misma manera que lo son la ciencia, la literatura, las artes y todas las cosas. El mundo tal y como existe para nosotros hoy, es una forma del mundo que desarrollamos. Pero no tiene existencia propia, sino que depende de nuestra fe en él. De modo que en cuanto dudemos de la realidad de este mundo podremos conformar otro diferente…

Pero entonces, la solución está al alcance de nuestra mano, está en nosotros, en nuestra percepción de la realidad. Simplemente está guardada en el cofre de los recuerdos. Recordemos cómo hacíamos cuando éramos niños para crear mundos diferentes… Utilizando nuestra fantasía, nuestra imaginación, imaginemos mundos posibles, no es difícil. Seamos niños, dejemos de pensar en “ideas serias” y usemos nuestra fantasía, nuestra capacidad creadora de realidades. Porque: “lo verdadero y aún lo científicamente verdadero, no es sino un caso particular de lo fantástico.”1

1. Ortega y Gasset, José. Ideas y Creencias




Palabras y Formas

Al preguntarnos el origen las palabras, encontramos un desarrollo y una elaboración de pensamientos que se formularon dentro del transcurso de la vida humana.

El hombre ha mantenido una postura de supervivencia en la cual la comunicación floreció como una herramienta de lucha. No me refiero a una lucha por hacer batalla contra un enemigo, sino a una lucha por adquirir una presencia duradera y no dejarse morir. Este deseo de tener una presencia más allá de la vida del animal, fue quizás, fomentada por la posesión de una conciencia y la habilidad de expresar significados, sentidos e intenciones. La organización del pensamiento y su expresividad, le permitió obtener una representación simbólica de la vida. El vivir podía verse desde esos símbolos y esos símbolos eran eternos. El hombre dio a los símbolos una organización, una forma por la cual él se descubrió a si mismo en una entidad simbólica. Motivado por su deseo de vivir y asistido por la expresividad simbólica de su vida, él buscó en los símbolos otra forma de vivir para así poder seguir viviendo.

La organización de las palabras podría decirse que no tiene una forma libre. Su estructura o sintax es más o menos un esfuerzo que nos permite representar un pensamiento. Esta estructura surgió de un convenio humano que le dio un orden. Sin esta estructura, los pensamientos serían expresiones espontáneas que se perderían debido a su incapacidad de soportarse por sí mismas y se olvidarían al no provocar significado. Esta estructura artificial o convención humana nos permite salir de un mundo animal a un mundo simbólico donde los sueños y la realidad se entrecruzan en un modelo ficticio.

Cuando usamos palabras intentamos ver una relación. La relación es una operación por la cual creamos un puente semántico que junta eso que antes estaba separado. Así formamos una red de significados por los cuales encontramos otras relaciones que nos permiten ver de una forma simbólica. Esto nos permite representar lo que deseamos y también representarnos a nosotros mismos. Por ejemplo, en la poesía y la ficción encontramos expresiones que surgieron como representaciones de deseos. Y también en la vida cotidiana encontramos deseos y sus correspondientes representaciones. Las palabras nos ayudan a ver relaciones en la vida. La vida nos da deseos y por medio de las palabras, podemos encontrar significados por los cuales relacionar nuestra vida con nuestros deseos. Pero también los significados, en su forma semántica, necesitan de una forma válida que les da un soporte y que los distingue de entre lo que el hombre ve. Al igual que las palabras necesitan de un orden que las da forma y las junta en unidad valida, los significados necesitan de una forma semántica que les da sustancia y que el hombre retiene como concepto. La forma semántica es una relación que hace el hombre al vivir. Como en el puzzle juntamos piezas con diferentes formas, en nuestra vida intentamos juntar piezas semánticas de distintas formas. Pero, a diferencia de las palabras, las formas semánticas (conceptos), en su origen, no fueron creados por convenio sino por espontaneidad circunstancial. El hombre descubrió el mundo y su circunstancia por medio las formas semánticas. La forma semántica de la vida es una expresión que se cristaliza dentro de una circunstancia y esa circunstancia se le presenta con un final. El hombre al vivir, no se rinde y usa la intelectualidad como arma contra la finalidad. Afrontado por el conocimiento de una vida con un final, busca en los símbolos una solución y al no encontrar ninguna, se transforma en esa forma simbólica que entiende como eterna. El hombre quiere transformarse en una forma simbólica y así cristalizarse en estatua. El quiere petrificar su forma en las palabras para intentar seguir viviendo por medio los símbolos.

Ortega nos explicaba que la realidad no tiene soporte. En su metáfora nos decía que cuando el hombre se cae al mar, sólo puede mantenerse a flote nadando en la misma agua que amenaza su vida. La representación que hace el hombre de la vida es una manera de nadar en esa agua que nos amenaza. En términos un poco mas amplios, el hombre se representó en su historia y obtuvo una identidad. El hombre usó la palabra como arcilla y bote. La condición de la vida humana es en esencia una absorción y realización de deseos. Para darse una identidad, él esculpió su forma por medio de las palabras. Para combatir la finalidad, él uso la palabra como arma e intento de cristalización.




O homen massa e os desafios da política no pensamiento de Ortega y Gasset

Neste trabalho indicaremos quais eram, na avaliação de José Ortega y Gasset (1883-1955), os principais problemas sociais e políticos da Europa de seu tempo: o homem massa e o individualismo exacerbado. Para ele, a solução para esses problemas está na educação e no estabelecimento de novas bases para uma moral social. Adicionalmente, procuraremos atualizar essa discussão com interpretações atuais de Ortega y Gasset sobre o tema.

Palavras-Chave: Filosofia Política, Filosofia Social, Educação.

Considerações iniciais

José Ortega y Gasset nasceu em Madri em maio de 1883. Filho de José Ortega y Munilla, foi célebre escritor e colunista de uma revista espanhola. O filósofo estudou Filosofia e Letras e se especializou em filosofia estética alemã no fim do século XIX. Foi professor de Metafísica na Universidade Central de Madri. Viveu algumas temporadas na Alemanha e na França e realizou várias viagens à América, sobretudo Argentina (1916 e 1928), país em que teve singular êxito como palestrante.

Ortega y Gasset foi um filósofo inserido nos problemas de seu tempo e preocupou com o destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado, dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos que o impediam de acompanhar o desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar esses problemas, o filósofo pensou as questões políticas à luz de uma teoria da realidade, que ele denominou raciovitalismo. Essa teoria centrou a discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset particulariza os problemas de cada homem. Com a continuação desta mesma frase: se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset indica que o homem pode mudar a sua vida e da sociedade que vive.

Neste trabalho, indicaremos como, segundo o filósofo, podemos tratar os problemas sociais e políticos para entender que o homem consegue salvar suas circunstâncias se valendo da educação e da cultura, que são instâncias que igualam os homens. Nesse empreendimento, nos valemos dos textos: Los problemas nacionales y la juventud; La ciencia y la religión como problemas políticos; La pedagogia social como programa político; Vieja y nueva política; A Rebelião das Massas; El hombre y la gente; e España Invertebrada.

Esses escritos foram publicados nas Obras Completas editadas pela Alianza Editorial de Madri. Procuramos nos valer, na meditação que se segue, da interpretação de diversos estudiosos de Ortega y Gasset, notadamente dos artigos editados na Revista de Estudios Orteguianos.

1 Os problemas políticos

A geração de Ortega y Gasset encontra uma Espanha mergulhada em problemas sociais. Tais problemas surgiram do mal uso da razão no exame da vida social e política. Para o filósofo, os homens de sua época deveriam utilizar a razão e a sensibilidade para examinar os problemas sociais que impedem a Espanha de se firmar como nação. Estes problemas sociais são originados pelo mal exercício da participação política. Maus governantes completam a dificuldade.

Primeiro, é preciso entender o que o filósofo designa por nação. Ortega y Gasset explica que nação não é uma simples delimitação de terras, e sim o objeto de uma virtude que acompanha cada homem. Esta virtude é o patriotismo. A nação passa a existir se os homens exercitam seu patriotismo no país onde vivem.

Faz parte do patriotismo identificar os vícios que aparecem em uma determinada nação. Os vícios nascem da distração dos membros dessa sociedade, distração que permite que pessoas pouco virtuosas cheguem ao comando da nação. Essa era a situação política da Espanha; regida por governantes não preparados, a nação não atendia o bem-estar do povo. Ortega y Gasset conclui que o povo espanhol, ao perder a capacidade de refletir sobre si mesmo, tornou-se motivo de desprezo por outras nações da Europa.

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset entende por homem desprezível aquele que não se esforça para superar as dificuldades que se lhe apresentam nem sequer reflete sobre suas ações. Entretanto, o homem desprezível não é o que simplesmente cai, mas o que não consegue reerguer-se após uma queda.

O filósofo entende que sua geração estava mal preparada política e moralmente. Por isso, ele supõe que era necessário discutir os males da Espanha, assim como fazem outras nações da Europa. Os males políticos que atravessavam a Espanha se fundamentavam na má formulação do conteúdo moral das gerações precedentes. O filósofo diz que uma geração que não se prepara moralmente para as dificuldades que se avizinham traz conseqüências trágicas para as que se seguem. Então, cada geração é mestra da que se segue, o que nos sugere uma valorização dos pressupostos históricos para a edificação de uma sociedade contemporânea, resgatando a moralidade que se encontra desvirtuada dos assuntos políticos. Eis o que nos diz:

É certo que a geração anterior não nos deixou de herança nenhuma virtude moderna. Cada geração chega ao mundo com uma missão específica, com o dever adscrito nominalmente a sua vida (Los problemas nacionales y la juventud. p. 15).

Não custa recordar que, para o filósofo, a moral não é constituída de fórmulas abstratas. Isso porque a moralidade deve aparecer como um desafio vital ou uma tarefa a ser cumprida pelos homens. A resposta ao desafio faz com que os indivíduos mereçam o título de entes sociais. E, para agir moralmente, o homem deve se pautar em normas que foram desenvolvidas pelas gerações anteriores. A realidade histórica de cada geração consiste em ser o ponto de interseção da geração que lhe antecedeu e da outra que a seguirá. Essa dupla função é importante porque o filósofo coloca a educação como medula da história e regente da moral do homem:

Cada qual faz o que é capaz de fazer, mas sua capacidade depende completamente de sua preparação: isto nos obriga a manter desperta a consciência de nossa solidariedade com as forças e até com os vícios do passado (idem. p. 16).

Desse modo, Ortega y Gasset entende que, antes de mudar o sistema político, se deve entender que falta ao povo espanhol entusiasmo, energia, pureza, sensibilidade para as instâncias morais. Essas instâncias morais devem ser alteradas. No entanto, a geração em que Ortega y Gasset viveu não herdou virtudes nem ideais, herdou unicamente falta de entusiasmo para enfrentar os problemas. Os homens estão destinados a viverem numa nação com características particulares e regionais, isso é o que tipifica e diferencia as nações. Essa característica particular e regional de uma nação significa um modo que antecede a desintegração por não considerar as qualidades do mundo ao redor.

Os líderes políticos de cada povo devem ser sensíveis à vontade de seus cidadãos para que essa regionalização se extinga impedindo a formulação dos flancos, grupos particulares, para que a necessidade de todos sejam perseguidas por meio de uma discussão entre os homens. Um político que cria leis sem um debate entre os cidadãos não educa o povo, prejudica a nação e dificulta que ela se forme integralmente.
Ortega y Gasset entende que resgatar a moral é tarefa da metafísica e não da sociologia, mas que tem implicação na política. Isso porque deve salvar uma virtude comum aos cidadãos da Espanha. O filósofo grego Platão (427-347 a. C.), em sua República, pretendia que um rei-filósofo administrasse com sucesso a polis. Ortega y Gasset não pede tanto ao se referir à administração do Estado. Para ele, o governante precisa ser um homem preparado para enfrentar as dificuldades da administração pública. Governantes cultos são importantes porque eles identificam a alma de seu Estado e assim governam com mais eficácia. Ortega y Gasset diz que na Espanha, por exemplo, a alma identificada é a valentia e por isso há tantas guerras na história de seu povo:

Na Espanha só temos a tradição de valentia: por um gesto de valentia vendemos a alma nacional ao diabo (idem. p. 21).

Os problemas políticos são solucionados com o exercício da liberdade de cada ser humano. Para os atenienses, explica o filósofo, liberdade significava viver como quisessem, atendendo à busca de felicidade na polis. A liberdade, para Ortega y Gasset, não pode ser mais entendida como entre os gregos; ele a vê como respeito ao indivíduo e ao Estado. Ortega y Gasset completa que a liberdade de consciência só pode ser desenvolvida numa organização política forte que eduque o povo espanhol. E consciência significa sensibilidade, conhecimento dos deveres morais.

Como educar o povo? Ortega y Gasset afirma que é promovendo a paz entre todos os homens. E a paz só é conseguida por um povo que possua uma alma culta:

Paz e cultura tem um valor recíproco em meu vocabulário: paz é a postura da alma culta, e cultura é cultivo (idem. p. 23).

Nesse sentido, o pensador espanhol se mostra contrário às revoluções como estratégia para introduzir mudanças políticas, entendendo que elas são constituídas por uma sucessão de crimes. Assim, impedem o exercício da paz entre os homens e não podem conduzir uma nação à liberdade por não respeitarem a individualidade de cada um. As revoluções mostram que quanto mais injustiças existirem mais os homens serão culpados em não refletir sobre o próprio compromisso moral que serve de guia para a vida social. Portanto, Ortega y Gasset entende que é exigência moral evitar as ações dos revolucionários, mas deve-se entender seu sentido porque elas só surgem como tentativas de solucionar os problemas encontrados em uma sociedade.

2 O homem massa e os problemas gerados pela política

As teses sociais e políticas de Ortega y Gasset são uma resposta aos inúmeros problemas sociais provocados pelo individualismo exagerado. O autor explica em seus textos que os problemas sociais e políticos gerados na Europa são causados pela superlotação dos lugares públicos, que é o que ele chama de massa social. O individualismo exagerado culmina na sociedade de massa.

O que o preocupa é o homem não se comprometer com sua vocação ou missão. O homem massa, como ele o trata, é o indivíduo que não atribui a si um valor e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos demais indivíduos. Essa análise do filósofo destaca a preocupação em melhorar a qualidade de vida de cada homem para melhor identificar no corpo da nação uma coluna vertebral que une os homens.

Dessa forma, o problema social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os rumos políticos que devem seguir sua nação, e desorganizados na sociedade, distribuídos em blocos individuais. Esse distanciamento dos homens nos assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela ignorância. Esse acontecimento é o que ele chama de hiperdemocracia das massas cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de leis, sem se preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as dificuldades da sociedade contemporânea em se firmar como sociedade.

Um dos sintomas mais evidentes da hiperdemocracia se instaura quando a massa resolve fazer justiça. Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que garantam a paz. Ortega y Gasset verifica que quando as massas triunfam, reina também a violência como doutrina e única razão. Para controlar a violência das massas, nasce o Estado.

O homem massa não se preocupa com sua civilização, sua cultura, e sua educação, que são os caminhos que ele tem para sair dessa condição de vulgaridade. O resultado dessa situação é fatal para a vida de cada ser humano porque os homens passam a viver em função do Estado, tornando-se máquinas estatais. Após certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam. Essa é a razão dos governos totalitários que se espalharam ao longo do século XX.

Os governos totalitários, comunistas e socialistas, e também a sociedade de consumo são potenciais fabricantes de homens massa porque impedem o homem de se valer de sua vida singular para agir. Por isso, é perigoso se render a esses projetos políticos. Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem particularidade que o distinga dos demais homens. Está agarrado em suas circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair.

Ortega y Gasset postula uma rebelião individual contra os desejos do homem massa em suas obras sobre política. Ou seja, defende a revolta pessoal contra a consciência coletiva para manter o homem numa posição seleta pela sua própria capacidade de trabalhar, construir e se esforçar cada vez mais para melhorar sua vida.

Ortega y Gasset apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência individual identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio de cada ser humano, enquanto, o homem massa é o inimigo consciente de sua singularidade.

3 A preocupação com o social 

A primeira coisa a se fazer para melhorar a vida na Espanha, na compreensão de Ortega y Gasset, é socializar os homens fazendo com que saiam da condição de homens massa. Preocupar-se com a política é ocupar-se com a vida social, o que só pode ser conseguido pelo humanismo e pela cultura. Assim, preocupar-se com o social é cultura, construção que, por sua vez, promove a paz social pelo princípio de amizade. Logo, o socialismo é construtor da paz, afirma o filósofo.

Ortega y Gasset diz que os socialistas não devem ser inimigos de seus inimigos, mas amigos de seus amigos. Assim, eles devem se agrupar, comungar, comunicar e socializar todos os homens: antes de mais nada, o socialismo é um princípio de amizade aos homens, uma forma de humanismo, que o filósofo julga necessário existir nas relações sociais. Como naquele momento socialismo estava identificado com marxismo, o filósofo procura explicar o que entende por socialismo, uma vez que não partilhava das teses marxistas.

Ortega y Gasset explica que o marxismo consiste em solucionar toda variação histórica como uma variação de relações econômicas: cada época se caracteriza por um tipo de produção, por uma maneira especial de obter o produto, de decidir a coisa econômica como meio para a vida.

O que interessava a Karl Marx era determinar que tudo de mal que compõe a história social humana, religião, política, moral são sempre formas de realidade econômica, que não tem sentido sem referir ao econômico (La ciencia y la religión como problemas políticos. p. 32).

A economia é entendida, segundo Karl Marx (1818-1883), como matéria para a vida. Ortega y Gasset não concorda com esse entendimento porque não admite reduzir a vida humana às relações econômicas. Para o filósofo espanhol, sempre haverá o capitalismo porque sempre existirão instrumentos de produção. E, ainda completa, o socialismo nasceu com Platão quando afirmou que os cidadãos não devem se empenhar em uma perpétua luta entre ricos e pobres na polis. Erradicar a luta de classes como meio para socializar a produção é proposta do marxismo, mas essa forma não promove a paz e a liberdade entre os homens. Os acontecimentos históricos dos últimos anos confirmam a avaliação do filósofo.

O socialismo tal como ele o propõe eleva o nível cultural das sociedades. E cultura, para Ortega y Gasset, não é uma palavra vaga, sem sentido. Cultura é o cultivo científico do entendimento de cada homem, de sua moralidade e de seu sentimento. Por isso, a cultura é o verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos devem trabalhar para o benefício de todos, porque só assim existirá uma comunidade firme.

4 A pedagogia social como solução para os problemas sociais e políticos

Nossa consciência necessita de um motor para se colocar em movimento. Ortega y Gasset diz que este motor é a educação. Por educação, o filósofo entende a transformação de um homem imperfeito em indivíduo com irradiações virtuosas. A pedagogia, enquanto ciência, trata de modificar o caráter, tem por objetivo integrar os indivíduos em uma comunidade. Desse modo, a pedagogia deve começar por um ideal moral.

O homem, segundo Ortega y Gasset, não é apenas um indivíduo biológico. O homem se difere de um cavalo por saber determinar o que é bom para si e para sua comunidade. Então, a pedagogia não significa um adestramento de homens, e sim de uma atividade educadora que insere o homem singular, consciente de sua situação, em um grupo social. É o que afirma o filósofo:

O cavalo é uma coisa física, é todo uma exterioridade, vive só uma vida espacial. Agora bem, o problema da pedagogia não é educar o homem exterior, o anthropos, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e quer (La pedagogia social como programa político. p. 51).

As características da ciência, da moral e da arte são que seus conteúdos pertencem ao patrimônio comum, apesar dos amores, ódios e caprichos serem subjetivos. Portanto, existe um eu individual, que sente tais emoções e um eu comunitário, que pensa algo que é comum a todos. Para que exista uma comunidade entre os homens é necessário que exista uma linguagem comum. Ortega y Gasset completa que sem linguagem não há pensamento.

“O pensar é um monólogo e o monólogo não é originário, e sim a imitação de um diálogo, um diálogo de uma só dimensão” (idem p. 52).

Ortega y Gasset explica que sem o uso da linguagem o espírito não chega a possuir conteúdo para a interação. Um indivíduo que extingue sua comunicabilidade com os outros se mantém solitário e se transforma em um átomo social.

Todo individualismo é mitológico e anticientífico. Assim, Ortega y Gasset considera a pedagogia individual um erro e projeto inútil. Platão, na sua República, que é preciso primeiramente educar a polis e depois o indivíduo. Então, a pedagogia platônica privilegia a dimensão social. Ortega y Gasset explica que a escola só é um espaço momentâneo e que a verdadeira educação se adquire em casa, nas praças e estabelecimentos públicos; enfim, onde as relações humanas sejam mais intensas. A pedagogia é entendida pelo filósofo como a ciência que transforma as sociedades, pela moralidade, em um reunião de pessoas com ideais.

Antes, essa transformação do indivíduo era entendida como produto da política, explica o pensador. Mas não se pode fazer política sem antes passar por uma pedagogia social. O social é a combinação dos esforços individuais para realizar uma obra comum. Um grupo de homens, ao trabalharem em uma obra comum, recebem em seus corações, por reflexão, a unidade dessa obra e, assim, nasce o elo da unanimidade. Ortega y Gasset conclui que pela cooperação se forma uma sociedade unida.

Socializar o homem é fazer do trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde a cultura abarca tudo, desde cavar a terra até compor versos (idem. p. 58).

Não pode participar bem da sociedade quem não trabalha. Ortega y Gasset entende que pela consciência do trabalho não pode haver lutas entre ricos e pobres na nação. Erradicar a luta de classes como meio de socializar a produção é proposta do marxismo e não promove a paz e a liberdade entre os homens. Ao contrário, é onde a luta de classes encontra meios políticos de expressão que a sociedade consegue os melhores benefícios.

O verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos e reconstruir a moralidade do homem. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos com seu trabalho contribuem para o destino da comunidade, só assim o futuro poderá ser mirado com esperança.

Considerações finais

Neste trabalho examinamos as teses políticas e sociais de Ortega y Gasset. Vimos os problemas causados pela influência de uma sociedade de massa no destino dos gruos humanos. Tal influência deve ser alterada para não se transformar a nação numa hiperdemocracia. A hiperdemocracia é o exercício das massas e imposição de seus costumes ao restante da sociedade com todas as implicações negativas daí decorrentes. Entretanto, não concordamos com interpretações que indicam que esta crítica do filósofo ao excesso da democracia represente uma posição antidemocrática. Pensamos que ele espera superar o democratismo de inspiração rousseniana (Cf. Carvalho, 2001. p. 411-415), ou melhor, conforme diz Maria Teresa Lopez de la Vieja, a crítica à hiperdemocracia é uma tentativa de verificar os abusos da imposição e os inconvenientes do domínio do homem massa ao longo do século XX.

Um dos modos de evitar a hiperdemocracia é permitir que a educação seja o exemplar fio condutor para os homens e assim privilegiar as decisões políticas de forma exemplar, valorizando o conhecimento e a competência. Neste ponto, Ortega y Gasset dialoga com Aristóteles (367-322 a. C.), que defende em sua obra Ética a Nicômaco que devemos deliberar retamente as decisões com a devida prudência. Aquele que se guiar nestes moldes será sempre um modelo a ser seguido. Ao considerarmos o papel da educação na vida social, não encontramos em outro intérprete de Ortega y Gasset uma abordagem mais apurada. Aqui, nos conduzimos para a solução que o autor sugeriu em alguns de seus ensaios.

Há leitores de Ortega y Gasset identificam a preocupação com os homens puros como uma forma de aristocracia. Tais intérpretes não observam, contudo, que o filósofo valoriza a vida de todos de modo igual. E, para que haja uma vida política sem deteriorar os valores de cada pessoa, teria a educação que ter uma forma de unificar, socializar os homens num princípio de amizade; essa é a real intenção do filósofo que nada revela de elitista. A posição elitista de Ortega y Gasset se restringe em aspectos psicológicos e antropológicos que, conforme nos indicou Maria Teresa Lopez de la Vieja, significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária. Trata-se de um convite ético a ser bom, mas não de um governo para poucos.

Não identificamos um interesse do filósofo de discutir questões como eleições, partidos e formas de governo, e sim, estabelecer bases de uma “pedagogia política”. Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesses e os valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública através do meio cultural não são tarefas de uma elite política, e sim de uma elite cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço suficiente para transcender a vida comum. O instrumento com que conta cada homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão, uma razão voltada para a vida.

 

Bibliografia

CARVALHO, José Maurício de. Lições de Ortega sobre a vida humana. Ética e Filosofia Política. Juiz de Fora: UFJF, 1996. v. 1.

______. Contribuição Contemporânea à História a Filosofia Brasileira. Londrina: EDUEL, 2001.

LAVEDÁN, Maria Isabel Ferreiro. La docilidad de las masas en la teoria social de Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.2 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2001.

ORTEGA Y GASSET, José. Los problemas nacionales y la juventud. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

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______. La pedagogia social como programa político. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

______. Vieja y nueva política. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

______. A Rebelião das Massas. Tradução Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

______. La rebelión de las masas. Obras Completas. 2. ed. Tomo IV. Madrid: Alianza Editorial, 1993.

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______. España Invertebrada. Madrid: Revista de Occidente en Alianza Editorial, 2000.

VIEJA, Maria Teresa López de la. Democracia y masas en Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.1 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2000.




El concepto de «revolución» en Ortega y Gasset

Este artículo pretende hacer una breve aproximación a la idea de «revolución» en Ortega. El objetivo es reflexionar sobre su posible adecuación al momento histórico que nos ha tocado vivir. ¿Se puede hablar hoy de «revolución»? ¿En qué sentido? Si pudiéramos rescatar una dirección revolucionaria en el acontecer actual, seguramente, nos veríamos conducidos a otra meditación más profunda concerniente al hecho de cuál es –o debería ser– nuestra postura al respecto.

Habitualmente se tiene la idea de «revolución» como el enfrentamiento violento contra la injusticia de un orden establecido. Frente a esta concepción, Ortega expone una definición de «revolución» como modificación del estado de espíritu del hombre, de su mecanismo psíquico. La revolución es contra los usos, no contra los abusos –dice Ortega– «Lo menos esencial de las verdaderas revoluciones es la violencia. Aunque ello sea poco probable, cabe inclusive imaginar que una revolución se cumpla en seco, sin una gota de sangre»[i].

La revolución es contra los usos, no contra los abusos. Hay que entender esta idea en un sentido profundo. Por supuesto que no se niega el justo enfrentamiento del hombre a toda situación que lo condicione e impida su progreso. Pero el mismo concepto de «bien» o «mal», de «justicia» o «injusticia» cambia con los tiempos. Así, aquellos que luchan por mejorar sus condiciones de vida y sus oponentes defensores del orden establecido tienen en común mucho más de lo que aparentan. Comparten un mismo paisaje histórico y social. Cuántas veces el nuevo orden revolucionario no resulta ser tan opresor o peor que el anterior. Cuántas veces no se comprende cómo se desvirtuaron aquellas sentidas ideas revolucionarias. Sucede que no se tiene en cuenta el sentido histórico del acontecer humano y, ni mucho menos, se tiene una idea aproximada de cómo es su mecanismo.

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La revolución es contra los usos. Cada ser humano, al nacer, se encuentra en una determinada circunstancia que no ha elegido. Esta circunstancia está constituida por hombres, objetos, acontecimientos, valores, creencias, tradiciones y, en general, una serie de vigencias (o usos) propias de ese momento histórico en el que a uno le ha tocado caer. En ese paisaje que nos encontramos «ya hecho» tenemos que formarnos. Dice Ortega: « […] al animal le es dado el repertorio de su conducta, que va, sin su intervención, gobernada por sus instintos. Pero al hombre le es dada la necesidad de tener que estar haciendo siempre algo, so pena de sucumbir, mas no le es de antemano y de una vez para siempre, presente lo que tiene que hacer. Porque lo más extraño y azorante de esa circunstancia o mundo en que tenemos que vivir consiste en que nos presenta siempre, dentro de su círculo y horizonte inexorable, una variedad de posibilidades para nuestra acción, variedad ante la cual no tenemos más remedio que elegir y, por tanto, ejercitar nuestra libertad.»[ii] De este modo, la vida personal que es, en esencia, libertad, se encuentra limitada por el abanico de posibilidades que le ofrece la circunstancia en que se encuentra. Estas posibilidades se presentan al hombre en forma de facilidades o dificultades en el camino de su vida, pero también, como una estructura de creencias, valores y conductas propias del momento histórico en que vive. Estamos hablando de una sensibilidad y un modo de ver el mundo que constituyen su visión de la «realidad» (paradigma[iii]), aquello de lo que no se hace cuestión porque se «da por hecho» y que, sin embargo, podríamos decir que ejerce la mayor influencia en el momento de decidirse por una u otra opción. En definitiva, no tenemos la sana costumbre de preguntarnos «quiénes somos», de ponernos en contacto con nosotros mismos, con nuestros hábitos de pensamiento, de sentimiento y conducta, sino que, más bien, solemos dar por sentado que somos como somos y el mundo es como es, un poco «porque sí»… Y, desde esa actitud inveterada es difícil comprender cualquier proceso, cualquier cambio, y menos el proceso evolutivo humano que responde a intenciones, a intereses, valoraciones… elementos éstos que no se encuentran en la naturaleza, en el mundo de los objetos. Esta visión cosificadora (positivista) de la realidad humana volverá a ocuparnos más adelante porque, hoy, ha llegado a un punto álgido con el establecimiento del paradigma cultural y social que es el modelo neoliberal que impera.

Volvamos a las palabras de Ortega: « […] en esa área básica de nuestras creencias [nuestra incuestionada visión de la realidad] se abren, aquí o allá, como escotillones, enormes agujeros de duda. Éste es el momento de decir que la duda, la verdadera, la que no es simplemente metódica ni intelectual, es un modo de la creencia y pertenece al mismo estrato que ésta en la arquitectura de la vida. También en la duda se está. Sólo que en este caso el estar tiene un carácter terrible. En la duda se está como se está en un abismo, es decir, cayendo. Es, pues, la negación de la estabilidad. De pronto sentimos que bajo nuestras plantas falla la firmeza terrestre y nos parece caer, caer en el vacío, sin poder valernos, sin poder hacer nada para afirmarnos, para vivir. Viene a ser como la muerte dentro de la vida, como asistir a la anulación de nuestra propia existencia. Sin embargo, la duda conserva de la creencia el carácter de ser algo en que se está, es decir, que no lo hacemos o ponemos nosotros. No es una idea que podríamos pensar o no, sostener, criticar, formular, sino que, en absoluto, la somos. No se estime como paradoja, pero considero muy difícil describir lo que es la verdadera duda si no se dice que creemos nuestra duda.»[iv] En ese contexto hablamos de «revolución». La verdadera revolución se produce cuando hay un cambio profundo en la forma mental, en las creencias, valores, sensibilidad de la gente, en definitiva, una transformación del modo de ver el mundo, del estado de conciencia, de la representación que nos hacemos de la realidad. Lógicamente, esto no se produce de forma instantánea y «porque sí» sino que es preciso que el anterior esquema vigente caduque, deje de tener sentido, de dar respuestas (opciones, posibilidades) al ser humano, es decir, entre en crisis. Cuando una generación se hace cuestión de la realidad, del paisaje humano en que vive, es porque ese sistema de creencias deja de tener vigencia, pero, a la vez, tampoco hay un nuevo paradigma que lo sustituya. En esos tiempos de tránsito el hombre se encuentra náufrago en un mar de dudas y sin tener donde aferrarse ¿Se reconoce ese estado interno?

De todo esto podemos colegir, entre otras cosas, que la historia es un proceso (y no una simple sucesión de acontecimientos) en el que se reproduce un esquema evolutivo, que sigue unos pasos, que tiene unos ciclos. Por supuesto, no nos referimos a las teorías evolucionistas que parten de Spencer y el darwinismo social (marcadamente positivistas) sino, más bien, a la línea postulada por Dilthey y la «razón histórica». El conocimiento parte de la experiencia vital, de la aprehensión del dato por la conciencia, o, dicho de otro modo: nuestra visión de la realidad depende no sólo de las condiciones externas del mundo sino de nuestra interpretación sobre la base de todos los elementos que constituyen nuestra vida. No debemos perder, por lo tanto, esta perspectiva vital cuando hagamos una lectura del proceso histórico, porque ella es la que nos va a permitir descubrir una cierta continuidad, un cierto sentido que facilite nuestro aprendizaje del pasado (nuestra memoria histórica) para poder orientarnos en el presente.

Desde esta perspectiva vital, se entiende la idea de ciclo como distintos momentos, o etapas conectadas, por las que se debe pasar en todo proceso, como en la propia vida pasamos por la infancia, la adolescencia, la madurez y la vejez. En ese sentido, Ortega observa tres estados de espíritu por los que ha pasado el hombre en las distintas épocas históricas. Se trata de un mecanismo del desarrollo histórico; el proceso de formación, consolidación y declinación de las civilizaciones. Explica Ortega: «Entonces se advierte que en cada una de esas grandes colectividades el hombre ha pasado por tres situaciones espirituales distintas, o, dicho de otra manera, que su vida psíquica ha gravitado sucesivamente hacia tres centros diversos. De un estado de espíritu tradicional pasa a un estado de espíritu racionalista, y de éste a un régimen de misticismo. Son, por decirlo así, tres formas diferentes del mecanismo psíquico, tres maneras distintas de funcionar el aparato mental del hombre»[v] Este esquema –necesariamente simplificado– de las modificaciones de la psique humana se corresponde con un ciclo histórico completo.[vi]

Nuestra civilización actual –que no hemos de olvidar, es la primera en abarcar todo el planeta– ha agotado la etapa racionalista. La época mística, o pre-religiosa que le sucede, se caracteriza por ser una etapa de decadencia, de crecimiento de la superstición y el irracionalismo. «Después de la derrota que sufre en su audaz intento idealista, el hombre queda completamente desmoralizado. Pierde toda fe espontánea, no cree en nada que sea una fuerza clara y disciplinada. Ni en la tradición ni en la razón, ni en la colectividad ni en el individuo […] incapaz el espíritu de mantenerse por sí mismo en pie, busca una tabla donde salvarse del naufragio y escruta en torno, con humilde mirada de can, alguien que le ampare. El alma supersticiosa es, en efecto, el can que busca un amo. Ya nadie recuerda siquiera los gestos nobles del orgullo, y el imperativo de libertad, que resonó durante centurias, no hallaría la menor comprensión. Al contrario, el hombre siente un increíble afán de servidumbre. Quiere servir ante todo: a otro hombre, a un emperador, a un brujo, a un ídolo»[vii] Pero esta etapa decadente y pre-religiosa es el caldo de cultivo para el nacimiento de un nuevo espíritu, un nuevo tipo de hombre a la altura de la nueva civilización planetaria que se está gestando. Esto será posible si somos capaces de aprovechar la oportunidad histórica que se nos ofrece.

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Para finalizar nos gustaría traer a colación unas palabras de Silo en torno al proceso revolucionario y su dirección: «Debemos distinguir entre proceso revolucionario y dirección revolucionaria. Desde nuestra posición, se entiende al proceso revolucionario como un conjunto de condiciones mecánicas generadas en el desarrollo del sistema. En ese sentido, tal desarrollo crea factores de desorden que, finalmente, son desplazados, se imponen, o terminan descomponiendo la totalidad del esquema. De acuerdo a los análisis que llevamos hecho, la globalización a la que se tiende en estos momentos está presentando agudos factores de desorden en el desarrollo total del sistema. Se trata de un proceso que es independiente de la acción voluntaria de grupos o individuos. Ya hemos considerado este punto en más de una ocasión. El problema que se está planteando ahora es, precisamente, el del futuro del sistema ya que éste tiende a revolucionarse mecánicamente sin mediar orientación progresiva alguna. La orientación en cuestión depende de la intención humana y escapa a la determinación de las condiciones que origina el sistema. Ya en otros momentos hemos aclarado nuestra posición respecto a la no pasividad de la conciencia humana, a su característica esencial de no ser simple reflejo de condiciones objetivas, a su capacidad de oponerse a tales condiciones y pergueñar una situación futura diferente a la vivida en el momento actual. Dentro de ese modo de libertad, entre condiciones, interpretamos la dirección revolucionaria.»[viii]

En conclusión: Hoy estamos asistiendo al asentamiento de un nuevo imperio de carácter mundial bajo la hegemonía de los EE.UU., que, como en otras épocas, acabará imponiéndose por la fuerza de su aparato militar. En este intento por implantar definitivamente el «Nuevo Orden Mundial» –que se corresponde con la imposición del modelo económico y social del neoliberalismo a ultranza– se quiere barrer con toda diversidad cultural, ideológica y de todo tipo, e instaurar la filosofía del pensamiento único. Esto supone, en última instancia, la «globalización» que tan justa oposición encuentra en todo el mundo. El éxito de la «globalización» pasa por el completo vaciamiento de la subjetividad humana y por la anulación de todo valor que no esté estrictamente supeditado al nuevo Dios supremo: el Dinero. La pleamar de la deshumanización y la violencia.

Sin embargo, paralelamente a la globalización, se observa otro proceso que viene acompañando y que puede suponer la alternativa a un sistema que da sus últimos coletazos. A este proceso lo podemos llamar «mundialización» y viene caracterizado por una nueva sensibilidad que capta al mundo en su totalidad. Que comprende que todo cambio sólo tiene sentido si comienza por uno mismo y se continúa en el medio inmediato. Que percibe que lo que está pasando a miles de kilómetros también le afecta. Que tiende a la convergencia en la diversidad, buscando factores de unión entre las personas y culturas donde cada uno aporta lo mejor en una dirección común. En resumen, se percibe el nacimiento de un nuevo estado de espíritu, un nuevo modo de ser, de sentir y de relacionarse. Este proceso, esta dirección revolucionaria que observamos, dista mucho de ser algo mecánico o espontáneo, sino que sólo puede presentarse en aquellos que, después de hacerse cuestión del mundo en que viven, llegan a la conclusión de que éste conduce a un callejón sin salida y comienzan a ser protagonistas de su propia vida.

[i] Ortega, El ocaso de las revoluciones
[ii] Ortega, El Hombre y la gente
[iii] En el sentido acuñado por Thomas S. Kuhn
[iv] Ortega, Ideas y creencias
[v] Ortega, Epílogo del alma desilusionada
[vi] Faltaría explicar mínimamente estas situaciones. Preferimos remitir al texto original.
[vii] Ortega, Epílogo del alma desilusionada
[viii] Silo, Cartas a mis amigos. Sobre la crisis social y personal en el momento actual.




A filosofia política de Ortega

Neste trabalho indicaremos como o filósofo José Ortega y Gasset analisou os problemas de seu tempo e a partir deles consolidou suas teses sociais e políticas. A partir dos textos sobre política do filósofo podemos verificar que sua preocupação fundamental era incentivar o homem em sair da sua condição de minoridade e caminhar meios para construir a sua vida singular.

Palavras-Chave: Filosofia. Política. Raciovitalismo.

Considerações Iniciais

José Ortega y Gasset foi um filósofo que viveu os problemas de seu tempo e se preocupou com o destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado, dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos que o impediam de acompanhar o desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar esses problemas, o filósofo pensou as questões políticas à luz de uma teoria da realidade, que ele elaborou e que se tornou conhecida como raciovitalismo. Essa teoria centrou a discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset particulariza os problemas de cada homem. A continuação desta mesma frase: se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset indica que o homem pode mudar a sua vida transformando a realidade em que vive. Se não fizer afunda-se na circunstância e não dá sentido a sua própria vida.

Neste trabalho, indicaremos como, segundo o filósofo, devemos olhar os problemas sociais e políticos como estratégia para mudar a circunstância. O caminho mais simples é melhorando a educação e o nível cultural das pessoas, que são instâncias que aproximam os homens.

Os escritos analisados estão reunidos nas Obras Completas editadas pela Alianza Editorial de Madri. Procuramos também nos valer, na elaboração desse artigo, da interpretação de diversos estudiosos de Ortega y Gasset, notadamente dos artigos editados na Revista de Estudios Orteguianos, o principal veículo de estudo da obra do filósofo espanhol.

1. A discussão contemporânea sobre os temas políticos de Ortega y Gasset

Os problemas políticos integram um importante capítulo de filosofia da razão vital, fazem parte da dimensão social e história do viver. Julián Marías em sua História da Filosofia (1959) afirma que temos que dedicar atenção à reflexão de Ortega y Gasset sobre política porque aí encontramos elementos para entender o funcionamento da sociedade. Essa nunca está parada e a tentativa de estabelecer equilíbrio é sempre precária. A negociação política é a forma de violência menor para solucionar os problemas sociais. Em outras palavras, Julian Marías afirma que ao estudar a política, Ortega y Gasset estava enfrentando aspectos essenciais do mundo dos homens, vencendo obstáculos que o impediram de viver bem.

Luis Gabriel Stheeman, no artigo La etimologia como estratégia retórica en los textos políticos de Ortega y Gasset (Revista de Estudios Orteguianos, 2000) exorta os estudiosos de Ortega y Gasset a observar a preocupação do filósofo com a clareza e a exatidão dos temas que utiliza no campo político. Essa é uma exortação válida que procuramos incorporar à esta pesquisa, manter a clareza dos conceitos.

Na mesma revista, Maria Teresa Lopes de la Vieja escreveu um artigo intitulado Democracia e masas onde esclarece que o conceito de hiperdemocracia traduz a tentativa de imposição das massas de um certo comportamento uniformizado. Esse artigo nos esclarece que Ortega y Gasset não era contrário à democracia embora considerasse as instituições políticas e as relações sociais e pessoais seguem regras distintas. Em nossa pesquisa adotamos esse entendimento que nos parece fiel ao espírito do raciovitalismo.

Um conjunto de artigos publicados no segundo número da Revista de Estudios Orteguianos sobre o livro La Rebelión de las masas, dentre dos quais se destaca o intitulado El mal radical de Felipe Ledesure, revela que a propensão a inércia do homem-massa constitui um mal radical. De fato, no atual momento de interpretação da obra orteguiana, o comportamento do homem-massa é representativo de uma crise mais profunda do homem. Essa foi a interpretação que demos ao assunto central da referida obra orteguiana.

No terceiro número da revista de Estudios Orteguianos, José M. Sevilla esclarece, no artigo intitulado Ortega y Gasset y la idea de Europa, que a noção de Europa corresponde a nova crença orteguiana, radicalmente ontológica e inseparável da realidade histórica. De fato, observamos que Ortega y Gasset desenvolve uma meditação centrada na necessidade da unidade européia e na defesa da cultura, temas que são atuais e importantes.

Dos intérpretes brasileiros de Ortega y Gasset, os mais notáveis são Gilberto de Mello Kujawski e Ubiratan Macedo. O primeiro autor do clássico Ortega y Gasset e a aventura da razão (1964), insiste na responsabilidade pessoal nos assuntos políticos lembrando que nisso consiste o principal freio contra as ditaduras. O mesmo autor esclarece também no ensaio A experiência de Ortega publicado no livro Discurso sobre a violência que o homem europeu viveu experiências diversas de organização política. Ele já foi democrata, liberal, absolutista e feudal e de cada período retirou experiências que devem ajudá-lo hoje na solução dos problemas políticos. Ubiratan Macedo escreveu ensaios memoráveis como A Filosofia de Ortega y Gasset (2001), publicado no livro A presença da moral na cultura brasileira, onde mostra que o engajamento do filósofo é com a razão, descartando toda tentativa de ver em Ortega y Gasset um filósofo militante na política, embora ele fosse um teórico que adotava posições políticas e assumia o risco delas. Os elementos interpretativos destes teóricos foram considerados na condução desta pesquisa.

2. Os problemas políticos

A geração de Ortega y Gasset encontra uma Espanha mergulhada em problemas sociais. Tais problemas surgiram do mal uso da razão no exame da vida social e política. Para o filósofo, os homens de sua época deveriam utilizar a razão e a sensibilidade para examinar os problemas sociais que impedem a Espanha de se firmar como nação. Estes problemas sociais são originados pelo mal exercício da participação política. Maus governantes completam a dificuldade.

Primeiro, é preciso entender o que o filósofo designa por nação. Ortega y Gasset explica que nação não é uma simples delimitação de terras, e sim o objeto de uma virtude que acompanha cada homem. Esta virtude é o patriotismo. A nação passa a existir se os homens exercitam seu patriotismo no país onde vivem.

Faz parte do patriotismo identificar os vícios que aparecem em uma determinada nação. Os vícios nascem da distração dos membros dessa sociedade, distração que permite que pessoas pouco virtuosas cheguem ao comando da nação. Essa era a situação política da Espanha; regida por governantes não preparados, a nação não atendia o bem-estar do povo. Ortega y Gasset conclui que o povo espanhol, ao perder a capacidade de refletir sobre si mesmo, tornou-se motivo de desprezo por outras nações da Europa.

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset entende por homem desprezível aquele que não se esforça para superar as dificuldades que se lhe apresentam nem sequer reflete sobre suas ações. Entretanto, o homem desprezível não é o que simplesmente cai, mas o que não consegue reerguer-se após uma queda.

O filósofo entende que sua geração estava mal preparada política e moralmente. Por isso, ele supõe que era necessário discutir os males da Espanha, assim como fazem outras nações da Europa. Os males políticos que atravessavam a Espanha se fundamentavam na má formulação do conteúdo moral das gerações precedentes. O filósofo diz que uma geração que não se prepara moralmente para as dificuldades que se avizinham deixa questões trágicas e não resolvidas para as que se seguem. Então, cada geração é mestra da que se segue, o que nos sugere uma valorização dos pressupostos históricos para a edificação de uma sociedade contemporânea, resgatando a moralidade que se encontra desvirtuada. Eis o que nos diz:

É certo que a geração anterior não nos deixou de herança nenhuma virtude moderna. Cada geração chega ao mundo com uma missão específica, com o dever adscrito nominalmente a sua vida (Los problemas nacionales y la juventud. p. 15).

Não custa recordar que, para o filósofo, a moral não é constituída de fórmulas abstratas. Isso porque a moralidade deve aparecer como um desafio vital ou uma tarefa a ser cumprida pelos homens. A resposta ao desafio faz com que os indivíduos mereçam o título de entes sociais. E, para agir moralmente, o homem deve se pautar em normas que foram desenvolvidas pelas gerações anteriores. A realidade histórica de cada geração consiste em ser o ponto de interseção da geração que lhe antecedeu e da outra que a seguirá. Essa dupla função é importante porque o filósofo coloca a educação como medula da história e regente da moral do homem:

Cada qual faz o que é capaz de fazer, mas sua capacidade depende completamente de sua preparação: isto nos obriga a manter desperta a consciência de nossa solidariedade com as forças e até com os vícios do passado (idem. p. 16).

Desse modo, Ortega y Gasset entende que, antes de mudar o sistema político, se deve observa-se falta ao povo entusiasmo, energia, pureza, sensibilidade para as instâncias morais. Essa a situação da Espanha e ela devia ser alterada. No entanto, a geração de Ortega y Gasset, assim lhe pareceu, não herdou virtudes nem ideais, herdou unicamente falta de entusiasmo e desânimo. Os homens estão destinados a viverem numa nação com características particulares e regionais, isso é o que tipifica e diferencia as nações. Essa característica particular e regional de uma nação significa um modo que antecede a desintegração por não considerar as qualidades do mundo ao redor.

Os líderes políticos de cada povo devem ser sensíveis à vontade de seus cidadãos para que essa regionalização se extinga impedindo a formulação dos flancos, grupos particulares, para que a necessidade de todos sejam perseguidas por meio de uma discussão entre todos os homens. Um político que cria leis sem um debate entre os cidadãos não educa o povo, prejudica a nação e dificulta que ela se forme integralmente.

Ortega y Gasset entende que resgatar a moral pública é tarefa da metafísica e não da sociologia, mas que tem implicação na política. Isso porque deve recuperar uma virtude comum aos cidadãos da Espanha. O filósofo grego Platão (427-347 a. C.), em sua República, pretendia que um rei-filósofo administrasse com sucesso a polis. Ortega y Gasset não pede tanto ao se referir à administração do Estado. Para ele, o governante precisa ser um homem preparado para enfrentar as dificuldades da administração pública. Governantes cultos são importantes porque eles identificam a alma de seu Estado e assim governam com mais eficácia. Ortega y Gasset diz que na Espanha, por exemplo, a alma identificada é a valentia e por isso há tantas guerras na história de seu povo:

Na Espanha só temos a tradição de valentia: por um gesto de valentia vendemos a alma nacional ao diabo (idem. p. 21).

Os problemas políticos são solucionados com o exercício da liberdade de cada ser humano. Para os atenienses, explica o filósofo, liberdade significava viver como quisessem, atendendo à busca de felicidade na polis. A liberdade, para Ortega y Gasset, não pode ser mais entendida como entre os gregos; ele a vê como respeito ao indivíduo e ao Estado. Ortega y Gasset completa que a liberdade de consciência só pode ser desenvolvida numa organização política forte que eduque o povo espanhol. E consciência significa sensibilidade, conhecimento dos deveres morais.

Como educar o povo? Ortega y Gasset afirma que é promovendo a paz entre todos os homens. E a paz só é conseguida por um povo que possua uma alma culta:

Paz e cultura tem um valor recíproco em meu vocabulário: paz é a postura da alma culta, e cultura é cultivo (idem. p. 23).

Nesse sentido, o pensador espanhol se mostra contrário às revoluções como estratégia para introduzir mudanças políticas, entendendo que elas são constituídas por uma sucessão de crimes. Assim, impedem o exercício da paz entre os homens e não podem conduzir uma nação à liberdade por não respeitarem a individualidade de cada um. As revoluções mostram que quanto mais injustiças existirem mais os homens serão culpados em não refletir sobre o próprio compromisso moral que serve de guia para a vida social. Portanto, Ortega y Gasset entende que é exigência moral evitar as ações dos revolucionários, mas deve-se entender seu sentido porque elas só surgem como tentativas de solucionar os problemas encontrados em uma sociedade.

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3. O homem massa e os problemas gerados pela política

As teses sociais e políticas de Ortega y Gasset são uma resposta aos inúmeros problemas sociais provocados pelo individualismo exagerado, nascido segundo o filósofo do idealismo subjetivista. O autor explica em seus textos que os problemas sociais e políticos gerados na Europa são causados pela superlotação dos lugares públicos e pela padronização do comportamento que forma a massa social. O individualismo exagerado culmina na sociedade de massa.

O que o preocupa é o homem não se comprometer com sua vocação ou missão. O homem massa, como ele o trata, é o indivíduo que não atribui a si um valor e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos demais indivíduos. Essa análise do filósofo destaca a preocupação em melhorar a qualidade de vida de cada homem para melhor identificar no corpo da nação uma coluna vertebral que une os homens.

Dessa forma, o problema social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os rumos políticos que devem seguir sua nação, e desorganizados na sociedade, distribuídos em blocos individuais. Esse distanciamento dos homens nos assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela ignorância. Esse acontecimento é o que ele chama de hiperdemocracia das massas cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de leis, sem se preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as dificuldades da sociedade contemporânea em se firmar como sociedade.

Um dos sintomas mais evidentes da hiperdemocracia é o propósito das massas de fazer justiça por seus próprios meios. Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que garantam a paz. Ortega y Gasset verifica que quando as massas triunfam, reina também a violência como doutrina e única razão. Para controlar a violência das massas, nasce o Estado.

O homem massa não se preocupa com sua civilização, sua cultura, e sua educação, que são os caminhos que ele tem para sair da condição de vulgaridade. O resultado dessa situação é fatal para a vida de cada ser humano porque os homens passam a viver em função do Estado, tornando-se peças da máquina estatal. Após certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam. Essa é a razão dos governos totalitários que se espalharam ao longo do século XX, o homem perdeu a responsabilidade e o sentido de uma vida que é única, vivida na primeira pessoa.

Os governos totalitários, comunistas e socialistas, e também a sociedade de consumo são potenciais fabricantes de homens massa porque o impedem de viver singularmente. Por isso, é perigoso se render a esses projetos políticos. Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem particularidade que o distinga dos demais homens. Está agarrado em suas circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair.

Ortega y Gasset postula uma rebelião individual contra os desejos do homem massa em suas obras sobre política. Ou seja, defende a revolta pessoal contra a consciência coletiva para manter o homem numa posição seleta pela sua própria capacidade de trabalhar, construir e se esforçar cada vez mais para melhorar sua vida.

Ortega y Gasset apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência individual identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio de cada ser humano, enquanto, o homem massa é o inimigo consciente de sua singularidade.

4. A preocupação com o social

A primeira coisa a se fazer para melhorar a vida na Espanha, na avaliação de Ortega y Gasset, é socializar os homens fazendo com que saiam da condição de homens massa. Isso pode parecer um paradoxo, mas não o é. A vida singular do homem se dá no meio social e só nele o homem está como que em casa. Preocupar-se com a política é ocupar-se com a vida social, o que só pode ser conseguido pelo humanismo e pela cultura. Assim, preocupar-se com o social é cultura, construção que, por sua vez, promove a paz social pelo princípio de amizade. Logo, o socialismo é construtor da paz, afirma o filósofo.

Por socialismo Ortega entende não a teoria marxista, como foi comum no seu tempo, mas uma preocupação com a vida social e senso de responsabilidade quanto aos destinos de seu grupo.

Ortega y Gasset diz que os socialistas não devem ser inimigos de seus inimigos, mas amigos de seus amigos. Em seguida explica os ideais que entende o socialismo alimenta. Os socialistas devem se agrupar, comungar, comunicar e socializar todos os homens: antes de mais nada, o socialismo é um princípio de amizade aos homens, uma forma de humanismo, que o filósofo julga necessário existir nas relações sociais. Como naquele momento socialismo estava identificado com marxismo, o filósofo procura explicar o que entende por socialismo.

Ortega y Gasset explica que o marxismo consiste em solucionar toda variação histórica como uma variação de relações econômicas: cada época se caracteriza por um tipo de produção, por uma maneira especial de obter o produto, de decidir a coisa econômica como meio para a vida.

O que interessava a Karl Marx era determinar que tudo de mal que compõe a história social humana, religião, política, moral são sempre formas de realidade econômica, que não tem sentido sem referir ao econômico (La ciencia y la religión como problemas políticos. p. 32).

A economia é entendida, segundo Karl Marx (1818-1883), como matéria para a vida. Ortega y Gasset não concorda com esse entendimento porque não admite reduzir a vida humana às relações econômicas. Para o filósofo espanhol, sempre haverá o capitalismo porque sempre existirão instrumentos de produção. E, ainda completa, o socialismo nasceu com Platão quando afirmou que os cidadãos não devem se empenhar em uma perpétua luta entre ricos e pobres na polis. Erradicar a luta de classes como meio para socializar a produção é proposta do marxismo, mas essa forma não promove a paz e a liberdade entre os homens. Em outras palavras é inútil tentar eliminar a luta de classes, mas é possível mantê-la sujeita a estrita regras. Os acontecimentos históricos dos últimos anos confirmam a avaliação do filósofo.

O socialismo tal como ele o propõe eleva o nível cultural das sociedades. E cultura, para Ortega y Gasset, não é uma palavra vaga, sem sentido. Cultura é o cultivo científico do entendimento de cada homem, de sua moralidade e de seu sentimento. Por isso, a cultura é o verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos devem trabalhar para o benefício de todos, porque só assim existirá uma comunidade firme.

5. A pedagogia social como solução para os problemas sociais e políticos

Nossa consciência necessita de um motor para se colocar em movimento. Ortega y Gasset diz que este motor é a educação. Por educação, o filósofo entende a transformação de um homem imperfeito em indivíduo com irradiações virtuosas. A pedagogia, enquanto ciência, trata de modificar o caráter, tem por objetivo integrar os indivíduos em uma comunidade. Desse modo, a pedagogia deve começar por um ideal moral.

O homem, segundo Ortega y Gasset, não é apenas um indivíduo biológico. O homem se difere de um cavalo por saber determinar o que é bom para si e para sua comunidade. Então, a pedagogia não significa um adestramento de homens, e sim de uma atividade formadora que insere o homem singular, consciente de sua situação, em um grupo social. É o que afirma o filósofo:

O cavalo é uma coisa física, é todo uma exterioridade, vive só uma vida espacial. Agora bem, o problema da pedagogia não é educar o homem exterior, o anthropos, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e quer (La pedagogia social como programa político. p. 51).

As características da ciência, da moral e da arte são que seus conteúdos pertencem ao patrimônio comum, apesar dos amores, ódios e caprichos serem subjetivos. Portanto, existe um eu individual, que sente tais emoções e um eu comunitário, que pensa algo que é comum a todos. Para que exista uma comunidade entre os homens é necessário que exista uma linguagem comum. Ortega y Gasset completa que sem linguagem não há pensamento.

O pensar é um monólogo e o monólogo não é originário, e sim a imitação de um diálogo, um diálogo de uma só dimensão” (idem p. 52).

O problema da pedagogia não é educar o homem exterior, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e querHaz click para twittear

Ortega y Gasset explica que sem o uso da linguagem o espírito não chega a possuir conteúdo para a interação. Um indivíduo que extingue sua comunicabilidade com os outros se mantém solitário e se transforma em um átomo social.

Todo individualismo é mitológico e anticientífico. Assim, Ortega y Gasset considera a pedagogia individual um erro e projeto inútil. Platão, na sua República, que é preciso primeiramente educar a polis e depois o indivíduo. Então, a pedagogia platônica privilegia a dimensão social. Ortega y Gasset explica que a escola só é um espaço momentâneo e que a verdadeira educação se adquire em casa, nas praças e estabelecimentos públicos; enfim, onde as relações humanas sejam mais intensas. A pedagogia é entendida pelo filósofo como a ciência que transforma as sociedades, pela moralidade, em um reunião de pessoas com ideais.

Antes, essa transformação do indivíduo era entendida como produto da política, explica o pensador. Mas não se pode fazer política sem antes passar por uma pedagogia social. O social é a combinação dos esforços individuais para realizar uma obra comum. Um grupo de homens, ao trabalharem em uma obra comum, recebem em seus corações, por reflexão, a unidade dessa obra e, assim, nasce o elo da unanimidade. Ortega y Gasset conclui que pela cooperação se forma uma sociedade unida.

Socializar o homem é fazer do trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde a cultura abarca tudo, desde cavar a terra até compor versos (idem. p. 58).

Não pode participar bem da sociedade quem não trabalha. Ortega y Gasset entende que pela consciência do trabalho pode-se superar as lutas entre ricos e pobres na nação. Erradicar a luta de classes como meio de socializar a produção é proposta do marxismo, e não promove a paz e nem assegura a liberdade entre os homens. Ao contrário, é onde a luta de classes encontra meios políticos de expressão que a sociedade consegue os melhores benefícios.

O verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos e reconstruir a moralidade do homem. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos com seu trabalho contribuem para o destino da comunidade, só assim o futuro poderá ser mirado com esperança.

6. Reflexões de Ortega y Gasset acerca dos governos totalitários

Para Ortega y Gasset, os governos totalitários não incentivam a democracia porque não restauram os sucessos do passado nascidos na liberdade e na pluralidade de opinião. Ao invés de tornar o Estado um espaço de homens virtuosos, o totalitarismo transforma o Estado em algo “forte” e emprega meios dissolventes para fazer valer as convicções da minoria, violentando os direitos individuais. Assim, o governo totalitário extermina a liberdade dos homens, transformado-os em seres alienados de sua vida e do seu destino. Ortega y Gasset explica que em épocas anteriores havia a necessidade de preservar a intimidade de cada um, problema cuja solução foi buscado pela liberal-democracia. Porém, o sistema totalitário surge como uma reação ao liberalismo, considerando-o incapaz de resolver os problemas sociais.

Partindo desta constatação, o filósofo espanhol, considera o totalitarismo como um fenômeno histórico. Isso significa que, a verdadeira natureza do totalitarismo está fora do tempo histórico. Trata-se de tentativa em ocultar a liberdade humana e é uma forma de garantir o poder e a autoridade do grupo. Ortega y Gasset explica ainda que o totalitarismo cria as armas para sua autodestruição ao abandonar a liberdade vital.

O totalitarismo é algo inautêntico porque entende que os homens são aquilo que eles verdadeiramente não são – seres coletivos. Paralelamente, os ideais que os totalitários acreditam não constituem a verdadeira realidade da vida. Por esta razão é ilusório buscar no totalitarismo um sentido autêntico porque ele não considera a vitalidade humana.

Toda agremiação política não é mais do que uma palavra vaga, e só adquire sentido autêntico quando reúne os ideais distintos integrando uma fase histórica. Para Ortega y Gasset, exatamente o que o totalitarismo não almeja é socializar seus ideais com a pluralidade de opiniões e além disso, prefere ocultar o que pretende de forma violenta.

O totalitarismo é uma forma de massificar os homens e encobrir suas contradições. Uma destas contradições é supor que o vencedor de uma disputa necessita da ajuda dos vencidos. Desse modo, o vencedor forja a debilidade de seu inimigo. A análise do filósofo revela que a busca do poder nada mais é que um jogo de estratégia, onde o mais débil não têm forças para se erguer, e por isso deve ser mantido nesta condição pela força de autoridade.

Por isso, Ortega y Gasset entende que se deve buscar nas circunstâncias a explicação para a debilidade dos homens, ou seja, buscar na vida aquilo que permitiu o governo totalitário chegar ao controle de vários estados europeus. Comparando, o totalitarismo com a chegada ao poder do romano Júlio César, no século 70 a.C. Ortega y Gasset explica:

A dificuldade (da sociedade romana) que falamos é idêntica a que sentimos diante do totalitarismo. Mais que o triunfo de César sobre os demais homens, nos parece que são os demais homens quem desejam o triunfo de César (Sobre el Fascismo. p. 500).

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset, não considera que as épocas históricas possam se identificar, mas têm algo em comum. O fator comum, por exemplo, entre o governo de César, no período romano, e o totalitarismo, estabelecido na Europa no século XX é o prévio desprestígio das instituições estabelecidas. O fato mais grave nestes sistemas de governo, na avaliação do filósofo, são as mudanças radicais nas idéias e nos sentimentos que o totalitarismo provoca. Ortega y Gasset, está preocupado com a vida de cada um ao tratar as mudanças circunstanciais como algo grave.

O totalitarismo comporta partidos de posições autoritárias, conforme afirma no texto que se segue:

Um partido autoritário, como o são muitos; confusamente antidemocráticos, como vem sendo todas as direitas e esquerdas extremas; nacionalistas, como outra meia dúzia de grupos, de revolucionários, socialistas, etc. (Idem p. 501).

Para o filósofo, as características destes sistemas de governos são a violência e a ilegitimidade. O primeiro é conseqüência do segundo, e vice-versa formando um círculo vicioso. Os governos autoritários adquirem o poder através da violência e por isso são ilegais, assim como a violência que é um crime e favorece os autoritários chegarem ao poder.

Ortega y Gasset explica que o totalitarismo exerce o poder em nome da justiça, de uma ética e concepção de universo elaborados por um grupo particular. Estes valores são criados conforme as conveniências de consolidar a autoridade daqueles que mandam. Para fazer valer seus valores, os grupos autoritários usam a violência sem se preocupar em dar um fundamento jurídico a suas ações, além de, não se preocupar em construir nenhuma sólida teoria política. Esses governos totalitários, não pretendem governar com os direitos subordinados a uma ética comum que respeite a pluralidade dos homens. Os direitos que os autoritários conhecem são: a força e a violência das quais se valem para impor suas vontades.

A permanente prática da arbitrariedade estabelece um caos jurídico nos Estado autoritário. Ortega y Gasset, indaga-se sobre os motivos que fizeram as forças sociais, que estiveram sempre presentes na defesa da liberdade, não se esforçarem para impedir a vitória do caos jurídico que se instala com o autoritarismo. A resposta, a que o filósofo chega é a seguinte:

Pela sensível razão de que hoje não existem forças sociais importantes que possam viver esse entusiasmo; ou, porque hoje não existe nenhuma nação continental capaz de dar legitimidade que satisfaça a ilusão dos espíritos (Idem p. 503).

Ortega y Gasset, explica que a política que possibilita o triunfo da liberdade é o espírito público. O filósofo explica que esse espírito “dá a forma externa a profunda realidade oculta nos corações” (Idem p.503).

Isso significa que se deve abrir bem os olhos para tentar surpreender o enigma da realidade e extrair do que se averigua na política massificante férteis sugestões para evitar novos erros desta natureza. A fragilidade do sistema autoritário é que depende para existir de que haja uma debilidade nos homens, uma ignorância dos assuntos vitais e políticos.

7. Reflexões de Ortega y Gasset acerca do Liberalismo

Ortega y Gasset pensa o Liberalismo a partir das transformações científicas ocorridas no século XIX. Da mesma forma que o cientificismo influenciou a vida dos homens também influiu no exercício da política. Assim, houve um processo de adequação entre as idéias científicas e as idéias políticas, o que gerou inúmeros choques de in-culturalização.

O filósofo explica que na Europa existem muitos conservadores, e todo conservadorismo entende que não há mais nada para criar ou edificar numa cultura. Os conservadores querem construir um conjunto forte de homens, e assim não partem do princípio vital, base de vida de cada indivíduo, mas da necessidade do Estado em submeter todos os homens sob seu comando.

Conservadores são, no sentir do filósofo, os governos autoritários e totalitários. O governo conservador não deseja que os homens adquiram forças para sair das suas circunstâncias, e viver é vencê-las. Ortega y Gasset diz que o homem é um eu e sua circunstância e isto significa mencionar a acomodação imposta pelos conservadores às massas. Os sistemas políticos que preferem a coletividade não incentivam o indivíduo a sair das suas circunstâncias que o impedem de dar uma melhor significação a sua vida. Essa idéia conservadora de que o homem não saia da sua circunstância é típica das políticas anti-liberais. Ela promove uma incultura no homem, estagnando e fragmentando a nação. Na passagem que se segue o filósofo explica que as políticas de massa considera os homens simples resultado das circunstâncias em que vivem, mas lhes impede de refletir sobre o mundo ao redor:

Não nos é perguntado antes se queremos ser fortes; poderia ser que prefería ser bons, nada mais que bons; justos, nada mais que justos; discretos, em último caso, nada mais que discretos. E se nos proíbe a direção, nos impõe o dever da incultura (La Reforma Liberal. p.32).

O principal instrumento de educação política para que o homem vença os seus problemas, é a imprensa. A imprensa tem um papel fundamental na definição dos rumos da política. Entretanto, os periódicos não abordam seriamente os temas sociais e políticos, são artísticos. Ortega y Gasset explica que essa forma de arte controla as emoções sociais, por isso não dá ao povo a chance de debater os assuntos e não lhes mostra caminhos para seguir:

Os periódicos estão carregados de idéias da emoção para que expande a carga emotiva; não lhes toca elaborar afirmações ou negações, isto é para o sábio. Para o estadista; sua tarefa se reduz a expressar robustamente essas afirmações ou negações desempenhadas por outros (Idem p.33).

Para o filósofo é fundamental ressuscitar o Liberalismo e instaurar na Europa um verdadeiro partido liberal com atenção voltada para a liberdade. Mas, para isso, Ortega y Gasset explica que é preciso contar com o auxílio dos espíritos revolucionários. De que tipo de revolucionário ele fala? Não de um revolucionário armado, que usa a força para impor sua ideologia, mas um revolucionário capaz de unir os homens por um ideal de liberdade.

O Liberalismo para ser edificado e seguir seu curso na História deve se apresentar como o “partido da revolução”. Eis o que diz:

O Liberalismo se não quiser seguir sendo um fenômeno da História, tem que se confessar e se declarar inequivocamente sistema da revolução. Aos ânimos que acostumaram espantar-se com a sombra que desejam o ar das palavras proponho este ponto de meditação: que preferem: um sistema de revolução ou revolucionários sem sistema? (Idem p. 34).

O Liberalismo, para Ortega y Gasset, é uma forma de pensamento político que antepõe a realização de um ideal moral não dividir os homens em classes. O caminho seguido pelos totalitários, ao contrário, não atende as exigências vitais, nega o valor ético dos homens e atende este ponto de vista quando constrói uma constituição política sem identificar os valores éticos do seu tempo.

O Liberalismo acredita que nenhum regime social é definitivamente justo. Ortega y Gasset explica que sempre a norma ou idéia de justiça necessita de uma visão que transcenda a lei escrita:

Como os peripatéticos tinham que buscar fora do mundo e falavam em um Deus invisível ou primeiro motor imóvel, que impulsiona as coisas que vemos mover-se, assim o primeiro motor jurídico das transformações constitucionais é esse direito não escrito, esse direito ideal, centro da energia ética da História. A este direito sobreconstitucional que é sua vez de grado dever, chamo de revolução (Idem. p.35).

O Liberalismo, no entendimento de Ortega y Gasset, é o exercício de liberdade. Porém, que liberdade é essa a que o filósofo se refere? Trata-se de uma liberdade mencionada na política platônica, aquela que reconhece o indivíduo fora do Estado. O Liberalismo orteguiano é resposta aos erros originais da fundamentação positivista utilitária do Liberalismo inglês. Tal forma é norma em toda Europa, provocando um individualismo exacerbado.

Na visão utilitária do Liberalismo, a palavra liberdade se reduz a certa forma de tolerância, explica Ortega y Gasset. Na passagem que se segue o filósofo explica o que entende por tolerância:

A tolerância não é renúncia ou extinguir a luta, e sim a utilização desta palavra, significa a confirmação e a legalização das armas de combate (Idem p. 36).

Para Ortega y Gasset, o exercício da liberdade é mais do que isto, significa modificar a constituição na medida que as gerações exigirem tal modificação. Não indica somente que há de respeitar as leis escritas: este valor negativo não distinguiria o liberal do conservador. Liberdade, em seu valor positivo, para o filósofo, é dada pela ética que encaminha os homens, respeitando seus conceitos vitais. Desse modo, o filósofo conclui que o Liberalismo serve para estabelecer virtudes necessárias para a socialização dos homens:

Não creio que há uma missão mais perfeita e gloriosa na terra; porque se há algo certo é que este gigantesco alambique do Universo está posto aqui para que tú, senhor leitor, e eu, e nossos filhos, vamos destilando do nossos corações umas gotas de virtude (Idem. p.38).

8. Desempenhos sociais dos sistemas dos governos totalitários e liberal

As diferentes formas de governo identificadas acima por Ortega y Gasset têm como alicerce a educação. Cada forma de governo tem um paradigma de educação que fornece valores para serem seguidos pela sociedade.

Desta forma, educação significa conduzir alguém para fora do lugar onde se encontra. Essa definição tem um sentido para Ortega y Gasset. Ao criar meios para que o homem saia da sua minoridade, como já dizia Immanuel Kant (1724-1808), Ortega y Gasset envolve o homem no abandono de suas referências ou circuntâncias. Portanto, o processo educativo para Ortega y Gasset, significa uma dilatação da vida para fora do meio em que ela está situada.

Ortega y Gasset afirma que as políticas totalitárias não cuidam de levar o homem para fora das suas circunstâncias. Ao contrário, as políticas totalitárias prendem o indivíduo no conjunto de referências ou circunstâncias e se esforça por manter o indivíduo preso na minoridade. Dessa forma, entende-se este método como uma doutrina, e não como uma educação no sentido clássico de levar alguém para determinado objetivo.

Como exemplo, podemos citar o filósofo russo Anton Semiónovitch Makarenko (1888-1939) que desenvolveu uma pedagogia socialista entendendo que o coletivo é um organismo social vivo. Suas idéias tinham como base que nenhum método pode ser elaborado à base do par aluno-professor, mas só à base da idéia geral da organização da sociedade e do coletivo, extinguindo o talento individual.

Entendemos que toda educação é atividade essencialmente política, pois trabalha com dois problemas vitais: o homem e a sociedade. Unir estes dois problemas foi o que intentou Makarenko. Para Ortega y Gasset, o homem tem a condição de ser livre e essa liberdade é que esclarece sua vida social. Sem a liberdade não se chega à compreensão do que é a vida de cada indivíduo. A educação liberal faz com que o homem perceba sempre a existência de novos caminhos a serem seguidos. Trata-se de buscar na experiência vital de cada um os meios para chegar ao objetivo, que é a formação de cidadãos.

Considerações Finais

A teses examinadas anteriormente traduzem aquilo que é essencial para a discussão da filosofia política de Ortega y Gasset. Elas nos ajudam a entender os problemas do homem do século XX e o significado e amplitude da crise observada por vários filósofos.

O problema encontrado pelo filósofo no campo da política é o que ele chama de “hiperdemocracia das massas” que significa que as massas atuam sem leis, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. Desse modo, as massas propuseram se a distanciar dos assuntos políticos, não discutindo e não participando das atividades políticas, o que consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e ignorância.

Entretanto, o grande feito do mundo ocidental é a criação da civilização, por meio da socialização. Isso porque, por mais de dois milênios os homens se esforçam para edificarem uma construção comum, mas mesmo com todo o esforço e sucesso o homem continua vulnerável, fraco e até adoece por causa de seus problemas e suas inseguranças. O homem não consegue viver humanamente sem manter uma tensão criadora e precisa estar alerta aos desafios de sua época para vencer os desafios.

A partir do momento em que o homem não consegue responder aos seus desafios, ele experimenta problemas psicológicos, ele perde horizonte. Ortega y Gasset entende que o homem deve-se ocupar com o que ele identifica como desafio, caso contrário, experimentará o fracasso, transformando-se em “homem-massa”. Cabe aos educadores e filósofos enfrentarem essa doença do século. Eles não devem se limitar a ensinar as técnicas da vida moderna, mas educar o homem para que ele socialize as preocupações e encontre soluções.

Neste trabalho examinamos as teses políticas e sociais de Ortega y Gasset. Vimos os problemas causados por uma sociedade de massa que desarticula a noção de responsabilidade pessoal e tira o caráter único do viver. Tal influência deve ser alterada para não se transformar a nação numa hiperdemocracia. A hiperdemocracia é o exercício das massas e imposição de seus costumes ao restante da sociedade com todas as implicações negativas daí decorrentes. Entretanto, isso não significa uma posição antidemocrática, que o filósofo condenava. Pensamos que ele espera superar o democratismo de inspiração rousseniana (cf. Carvalho, 2001. p. 411-415), ou melhor, conforme diz Maria Teresa Lopez de la Vieja, a crítica à hiperdemocracia é uma tentativa de suplantar os abusos da imposição e os inconvenientes do domínio do homem massa ao longo do século XX. Nossos estudos comprovam a correção desta tese.

Um dos modos de evitar a hiperdemocracia é permitir que a educação seja o exemplar fio condutor para os homens e assim privilegiar as decisões políticas de forma exemplar, valorizando o conhecimento e a competência. Aqui se verifica que, Ortega y Gasset dialoga com Aristóteles (367–322 a. C.), e assume a virtude da prudência. Aquele que se guiar nestes moldes será sempre um modelo a ser seguido. No que se refere ao exame do papel da educação na vida social, os intérpretes não se afastam do que aqui propusemos.

Há leitores de Ortega y Gasset que identificam a preocupação em formar homens puros como uma estratégia aristocrática. Essa não era a intenção do filósofo conforme já podemos deixar esclarecido. Esses intérpretes desconhecem que o filósofo valoriza a vida de todos de modo igual. E, para que haja uma vida política sem destruir os valores de cada pessoa, teria a educação a função de unificar, socializar os homens num princípio de amizade; essa é a real intenção do filósofo que nada revela de elitista. A posição aparentemente elitista de Ortega y Gasset se refere a aspectos psicológicos e antropológicos que, conforme nos indicou Maria Teresa Lopez de la Vieja, significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária. Trata-se de um convite ético a ser bom, mas não de um governo para poucos.

O filósofo não discute questões como eleições, partidos e formas de governo, e sim, deseja estabelecer bases de uma “pedagogia política”. Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesses e os valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública através do meio cultural não são tarefas dos políticos, e sim de uma elite cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço suficiente para transcender a vida comum. Como se vê o problema é de ordem moral. O instrumento com que conta cada homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão, uma razão voltada para a vida. A vida é, pois, uma atividade que se fortalece com a razão, mesmo sendo mais do que ela.

Referências bibliográficas

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*Artigo que serviu de base para o relatório final do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica,PIBIC/CNPq durante os anos 2001/2002, orientado pelo Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

** Acadêmico de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei.




Os desempenhos sociais dos governos totalitários e liberal; A interpretação raciovitalista de Ortega y Gasset

Neste trabalho indicaremos quais eram, na avaliação de José Ortega y Gasset (1883-1955), os motivos que levaram as sociedades européias não perseguirem sua liberdade individual, tornando-se vítimas de uma política totalitária, massificante. Adicionalmente, procuramos estabelecer uma análise dos sistemas educacionais destas formas de governo, que para Ortega y Gasset, influíram na vida dos homens a não buscar a liberdade.

Palavras-chave: Totalitarismo. Liberdade. Educação

Considerações iniciais

A discussão sobre o totalitarismo é um desafio contemporâneo. O totalitarismo é uma filosofia política contrária ao pluralismo de idéias e a liberdade de expressão. Nesta comunicação, procuramos nos valer da análise do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), que entende o totalitarismo como uma tentativa de ocultar e combater a liberdade pessoal, e de justificar o poder e a autoridade de um grupo. Para efetivar este trabalho nos baseamos nos textos de filosofia política de Ortega y Gasset reunidos nas Obras Completas, sobretudo as que estão nos volumes X e XI. Ortega y Gasset explica que a causa dos regimes totalitários é a imposição de uma ideologia e a eliminação da educação liberal, que nos tempos modernos era responsável pela formação dos homens. Descobrir, os motivos que levaram as pessoas durante a maior parte do século XX a preferir uma ideologia totalitária, e não a viver livremente é o propósito do nosso trabalho.

1 Reflexões de Ortega y Gasset acerca do totalitarismo europeu

Para Ortega y Gasset, os governos totalitários não incentivam a democracia porque não restauram os sucessos do passado nascidos na liberdade e na pluralidade de opinião. Ao invés de tornar o Estado um espaço de homens virtuosos, o totalitarismo transforma o Estado em algo “forte” e emprega meios dissolventes para fazer valer as convicções da minoria, violentando os direitos individuais. Assim, o governo totalitário extermina a liberdade dos homens, transformado-os em seres alienados de sua vida e do seu destino. Ortega y Gasset explica que em épocas anteriores havia a necessidade de preservar a intimidade de cada um, problema cuja solução foi buscado pela liberal-democracia. Porém, o sistema totalitário surge como uma reação ao liberalismo, considerando-o incapaz de resolver os problemas sociais.

Partindo desta constatação, o filósofo espanhol, considera o totalitarismo como um fenômeno histórico. Isso significa que, a verdadeira natureza do totalitarismo está fora do tempo histórico. Trata-se de tentativa em ocultar a liberdade humana e é uma forma de garantir o poder e a autoridade do grupo. Ortega y Gasset explica ainda que o totalitarismo cria as armas para sua autodestruição ao abandonar a liberdade vital.

O totalitarismo é algo inautêntico porque entende que os homens são aquilo que eles verdadeiramente não são – seres coletivos. Paralelamente, os ideais que os totalitários acreditam não constituem a verdadeira realidade da vida. Por esta razão é ilusório buscar no totalitarismo um sentido autêntico porque ele não considera a vitalidade humana.

Toda agremiação política não é mais do que uma palavra vaga, e só adquire sentido autêntico quando reúne os ideais distintos integrando uma fase histórica. Para Ortega y Gasset, exatamente o que o totalitarismo não almeja é socializar seus ideais com a pluralidade de opiniões e além disso, prefere ocultar o que pretende de forma violenta.

O totalitarismo é uma forma de massificar os homens e encobrir suas contradições. Uma destas contradições é supor que o vencedor de uma disputa necessita da ajuda dos vencidos. Desse modo, o vencedor forja a debilidade de seu inimigo. A análise do filósofo revela que a busca do poder nada mais é que um jogo de estratégia, onde o mais débil não têm forças para se erguer, e por isso deve ser mantido nesta condição pela força de autoridade.

Por isso, Ortega y Gasset entende que se deve buscar nas circunstâncias a explicação para a debilidade dos homens, ou seja, buscar na vida aquilo que permitiu o governo totalitário chegar ao controle de vários estados europeus. Comparando, o totalitarismo com a chegada ao poder do romano Júlio César, no século 70 a.C. Ortega y Gasset explica:

A dificuldade (da sociedade romana) que falamos é idêntica a que sentimos diante do totalitarismo. Mais que o triunfo de César sobre os demais homens, nos parece que são os demais homens quem desejam o triunfo de César (Sobre el Fascismo. p. 500).

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset, não considera que as épocas históricas possam se identificar, mas têm algo em comum. O fator comum, por exemplo, entre o governo de César, no período romano, e o totalitarismo, estabelecido na Europa no século XX é o prévio desprestígio das instituições estabelecidas. O fato mais grave nestes sistemas de governo, na avaliação do filósofo, são as mudanças radicais nas idéias e nos sentimentos que o totalitarismo provoca. Ortega y Gasset, está preocupado com a vida de cada um ao tratar as mudanças circunstanciais como algo grave.

O totalitarismo comporta partidos de posições autoritárias, conforme afirma no texto que se segue:

Um partido autoritário, como o são muitos; confusamente antidemocráticos, como vem sendo todas as direitas e esquerdas extremas; nacionalistas, como outra meia dúzia de grupos, de revolucionários, socialistas, etc. (Idem p. 501).

Para o filósofo, as características destes sistemas de governos são a violência e a ilegitimidade. O primeiro é conseqüência do segundo, e vice-versa formando um círculo vicioso. Os governos autoritários adquirem o poder através da violência e por isso são ilegais, assim como a violência que é um crime e favorece os autoritários chegarem ao poder.

Ortega y Gasset explica que o totalitarismo exerce o poder em nome da justiça, de uma ética e concepção de universo elaborados por um grupo particular. Estes valores são criados conforme as conveniências de consolidar a autoridade daqueles que mandam. Para fazer valer seus valores, os grupos autoritários usam a violência sem se preocupar em dar um fundamento jurídico a suas ações, além de, não se preocupar em construir nenhuma sólida teoria política. Esses governos totalitários, não pretendem governar com os direitos subordinados a uma ética comum que respeite a pluralidade dos homens. Os direitos que os autoritários conhecem são: a força e a violência das quais se valem para impor suas vontades.

A permanente prática da arbitrariedade estabelece um caos jurídico nos Estado autoritário. Ortega y Gasset, indaga-se sobre os motivos que fizeram as forças sociais, que estiveram sempre presentes na defesa da liberdade, não se esforçarem para impedir a vitória do caos jurídico que se instala com o autoritarismo. A resposta, a que o filósofo chega é a seguinte:

Pela sensível razão de que hoje não existem forças sociais importantes que possam viver esse entusiasmo; ou, porque hoje não existe nenhuma nação continental capaz de dar legitimidade que satisfaça a ilusão dos espíritos (Idem p. 503).

Ortega y Gasset, explica que a política que possibilita o triunfo da liberdade é o espírito público. O filósofo explica que esse espírito “dá a forma externa a profunda realidade oculta nos corações” (Idem p.503).

Isso significa que se deve abrir bem os olhos para tentar surpreender o enigma da realidade e extrair do que se averigua na política massificante férteis sugestões para evitar novos erros desta natureza. A fragilidade do sistema autoritário é que depende para existir de que haja uma debilidade nos homens, uma ignorância dos assuntos vitais e políticos.

2 Reflexões de Ortega y Gasset acerca do Liberalismo

Ortega y Gasset pensa o Liberalismo a partir das transformações científicas ocorridas no século XIX. Da mesma forma que o cientificismo influenciou a vida dos homens também influiu no exercício da política. Assim, houve um processo de adequação entre as idéias científicas e as idéias políticas, o que gerou inúmeros choques de in-culturalização.

O filósofo explica que na Europa existem muitos conservadores, e todo conservadorismo entende que não há mais nada para criar ou edificar numa cultura. Os conservadores querem construir um conjunto forte de homens, e assim não partem do princípio vital, base de vida de cada indivíduo, mas da necessidade do Estado em submeter todos os homens sob seu comando.

Conservadores são, no sentir do filósofo, os governos autoritários e totalitários. O governo conservador não deseja que os homens adquiram forças para sair das suas circunstâncias, e viver é vencê-las. Ortega y Gasset diz que o homem é um eu e sua circunstância e isto significa mencionar a acomodação imposta pelos conservadores às massas. Os sistemas políticos que preferem a coletividade não incentivam o indivíduo a sair das suas circunstâncias que o impedem de dar uma melhor significação a sua vida. Essa idéia conservadora de que o homem não saia da sua circunstância é típica das políticas anti-liberais. Ela promove uma incultura no homem, estagnando e fragmentando a nação. Na passagem que se segue o filósofo explica que as políticas de massa considera os homens simples resultado das circunstâncias em que vivem, mas lhes impede de refletir sobre o mundo ao redor:

Não nos é perguntado antes se queremos ser fortes; poderia ser que prefería ser bons, nada mais que bons; justos, nada mais que justos; discretos, em último caso, nada mais que discretos. E se nos proíbe a direção, nos impõe o dever da incultura (La Reforma Liberal. p.32).

O principal instrumento de educação política para que o homem vença os seus problemas, é a imprensa. A imprensa tem um papel fundamental na definição dos rumos da política. Entretanto, os periódicos não abordam seriamente os temas sociais e políticos, são artísticos. Ortega y Gasset explica que essa forma de arte controla as emoções sociais, por isso não dá ao povo a chance de debater os assuntos e não lhes mostra caminhos para seguir:

Os periódicos estão carregados de idéias da emoção para que expande a carga emotiva; não lhes toca elaborar afirmações ou negações, isto é para o sábio. Para o estadista; sua tarefa se reduz a expressar robustamente essas afirmações ou negações desempenhadas por outros (Idem p.33).

Para o filósofo é fundamental ressuscitar o Liberalismo e instaurar na Europa um verdadeiro partido liberal com atenção voltada para a liberdade. Mas, para isso, Ortega y Gasset explica que é preciso contar com o auxílio dos espíritos revolucionários. De que tipo de revolucionário ele fala? Não de um revolucionário armado, que usa a força para impor sua ideologia, mas um revolucionário capaz de unir os homens por um ideal de liberdade.

O Liberalismo para ser edificado e seguir seu curso na História deve se apresentar como o “partido da revolução”. Eis o que diz:

O Liberalismo se não quiser seguir sendo um fenômeno da História, tem que se confessar e se declarar inequivocamente sistema da revolução. Aos ânimos que acostumaram espantar-se com a sombra que desejam o ar das palavras proponho este ponto de meditação: que preferem: um sistema de revolução ou revolucionários sem sistema? (Idem p. 34).

O Liberalismo, para Ortega y Gasset, é uma forma de pensamento político que antepõe a realização de um ideal moral não dividir os homens em classes. O caminho seguido pelos totalitários, ao contrário, não atende as exigências vitais, nega o valor ético dos homens e atende este ponto de vista quando constrói uma constituição política sem identificar os valores éticos do seu tempo.
O Liberalismo acredita que nenhum regime social é definitivamente justo. Ortega y Gasset explica que sempre a norma ou idéia de justiça necessita de uma visão que transcenda a lei escrita:

Não nos é perguntado antes se queremos ser fortes; poderia ser que prefería ser bonsHaz click para twittear

Como os peripatéticos tinham que buscar fora do mundo e falavam em um Deus invisível ou primeiro motor imóvel, que impulsiona as coisas que vemos mover-se, assim o primeiro motor jurídico das transformações constitucionais é esse direito não escrito, esse direito ideal, centro da energia ética da História. A este direito sobreconstitucional que é sua vez de grado dever, chamo de revolução (Idem. p.35).

Liberalismo, no entendimento de Ortega y Gasset, é o exercício de liberdade. Porém, que liberdade é essa a que o filósofo se refere? Trata-se de uma liberdade mencionada na política platônica, aquela que reconhece o indivíduo fora do Estado. O Liberalismo orteguiano é resposta aos erros originais da fundamentação positivista utilitária do Liberalismo inglês. Tal forma é norma em toda Europa, provocando um individualismo exacerbado.

Na visão utilitária do Liberalismo, a palavra liberdade se reduz a certa forma de tolerância, explica Ortega y Gasset. Na passagem que se segue o filósofo explica o que entende por tolerância:

A tolerância não é renúncia ou extinguir a luta, e sim a utilização desta palavra, significa a confirmação e a legalização das armas de combate (Idem p. 36).

Para Ortega y Gasset, o exercício da liberdade é mais do que isto, significa modificar a constituição na medida que as gerações exigirem tal modificação. Não indica somente que há de respeitar as leis escritas: este valor negativo não distinguiria o liberal do conservador. Liberdade, em seu valor positivo, para o filósofo, é dada pela ética que encaminha os homens, respeitando seus conceitos vitais. Desse modo, o filósofo conclui que o Liberalismo serve para estabelecer virtudes necessárias para a socialização dos homens:

Não creio que há uma missão mais perfeita e gloriosa na terra; porque se há algo certo é que este gigantesco alambique do Universo está posto aqui para que tú, senhor leitor, e eu, e nossos filhos, vamos destilando do nossos corações umas gotas de virtude (Idem. p.38).

3 Desempenhos sociais nos sistemas de governo

As diferentes formas de governo identificadas acima por Ortega y Gasset têm como alicerce a educação. Cada forma de governo tem um paradigma de educação que fornece valores para serem seguidos pela sociedade.

Desta forma, educação significa conduzir alguém para fora do lugar onde se encontra. Essa definição tem um sentido para Ortega y Gasset. Ao criar meios para que o homem saia da sua minoridade, como já dizia Immanuel Kant (1724-1808), Ortega y Gasset envolve o homem no abandono de suas referências ou circuntâncias. Portanto, o processo educativo para Ortega y Gasset, significa uma dilatação da vida para fora do meio em que ela está situada.

Ortega y Gasset afirma que as políticas totalitárias não cuidam de levar o homem para fora das suas circunstâncias. Ao contrário, as políticas totalitárias prendem o indivíduo no conjunto de referências ou circunstâncias e se esforça por manter o indivíduo preso na minoridade. Dessa forma, entende-se este método como uma doutrina, e não como uma educação no sentido clássico de levar alguém para determinado objetivo.

Como exemplo, podemos citar o filósofo ucraniano Anton Semiónovitch Makarenko (1888-1939) que desenvolveu uma pedagogia socialista entendendo que o coletivo é um organismo social vivo. Suas idéias tinham como base que nenhum método pode ser elaborado à base do par aluno-professor, mas só à base da idéia geral da organização da sociedade e do coletivo, extinguindo o talento individual.

Entendemos que toda educação é atividade essencialmente política, pois trabalha com dois problemas vitais: o homem e a sociedade. Unir estes dois problemas foi o que intentou Makarenko. Para Ortega y Gasset, o homem tem a condição de ser livre e essa liberdade é que esclarece sua vida social. Sem a liberdade não se chega à compreensão do que é a vida de cada indivíduo. A educação liberal faz com que o homem perceba sempre a existência de novos caminhos a serem seguidos. Trata-se de buscar na experiência vital de cada um os meios para chegar ao objetivo, que é a formação de cidadãos.

Considerações finais

Este trabalho teve o propósito de meditar sobre as razões que levaram a constituição de políticas que não respeitaram a liberdade individual nesse século que terminou. Nós o fizemos com base nas reflexões raciovitalistas de Ortega y Gasset, e observamos que, enquanto as políticas totalitárias possuíam uma pedagogia doutrinária que encaixava o homem num modelo a ser seguido; a educação liberal respeita a liberdade de cada um.

Ortega y Gasset não culpa o homem por não perseguir sua liberdade, mas ao grupo que atingia o poder. Também culpa a autoridade que doutrina os homens a fim de não o deixarem sair da condição de minoridade. O filósofo explica que o Liberalismo é o sistema que melhor educa o homem por respeitar sua condição vital e permitir que o homem assuma o objetivo de se tornar cidadão
A crítica do filósofo espanhol estava direcionada principalmente à escola positivista e a marxista. Para ele, tomar o homem como um ser que produz é o mesmo que transformá-lo numa máquina. Esta era a razão que fazia os europeus não perseguissem a liberdade individual, eles não entendiam que viver é a única razão deles estarem no mundo. A vida não era a razão de estarem no mundo.

Bibliografia
CARVALHO, José Maurício de. Lições de Ortega sobre a vida humana. Ética e Filosofia Política. Juiz de Fora: UFJF, 1996. v. 1.

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LAVEDÁN, Maria Isabel Ferreiro. La docilidad de las masas en la teoria social de Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.2 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2001.

ORTEGA Y GASSET, José. Los problemas nacionales y la juventud. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

______. La ciencia y la religión como problemas políticos. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

______. La pedagogia social como programa político. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

______. Vieja y nueva política. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

______. A Rebelião das Massas. Tradução Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

______. La rebelión de las masas. Obras Completas. 2. ed. Tomo IV. Madrid: Alianza Editorial, 1993.

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______. España Invertebrada. Madrid: Revista de Occidente en Alianza Editorial, 2000.

______. La reforma liberal. Obras Completas. 2. ed. Tomo X. Madrid: Alianza Editorial, 1993.

______. Sobre el Fascismo. Obras Completas. 2. ed. Tomo X. Madrid: Alianza Editorial, 1993.

VIEJA, Maria Teresa López de la. Democracia y masas en Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.1 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2000.

* Artigo desenvolvido como parte das atividades do PIBIC/CNPq, durante os anos de 2001/2002, da Universidade Federal de São João del-Rei, orientado pelo Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.
** Acadêmico do Curso de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei, PIBIC/CNPq, anos 2001/2002.




Crisis de deseos

En 1921, en España invertebrada, Ortega y Gasset decía: «Europa padece una extenuación en su facultad de desear». Luego, en 1933, en Meditación de la técnica, retoma este pensamiento cuando plantea: «Acaso la enfermedad básica de nuestro tiempo sea una crisis de los deseos».

Vivimos con la sensación de que ya nada tiene realmente importancia, no vemos de qué manera nuestras creencias puedan estar políticamente representadas. Con la caída del muro de Berlín muchos sueños acabaron. Sueños del mundo en el que queríamos vivir, más justo, con lugar para todos. Crecimos pensando que los privilegios eran motivo de injusticia política y que era posible erradicar estos privilegios pero asistimos al fracaso de este deseo que quizás solo fue una ilusión de un conocimiento un poco escaso de lo que es un ser humano y toda su complejidad psicológica. Achicamos el mundo hasta convertirlo en: izquierda y derecha llegando a un profundísima «hemiplejia moral» (diría Ortega) donde los análisis quedan convertidos en qué está bien y qué está mal y no conformes con eso, hoy asistimos a un proceso de globalización puramente económico dejando de lado las consecuencias que puede traer esto sobre la cultura de cada grupo en particular. Lo individual de cada pueblo, raza, queda relegado «como si fuera cuestión poco seria e intrascendente y como ésta, multitud de necesidades privadas que ocultan avergonzadas sus rostros en los rincones del ánimo porque no se las quiere otorgar ciudadanía; quiero decir, sentido cultural.» (1)

Yo no soy una cosa, sino un drama, una lucha por llegar a ser lo que tengo que serHaz click para twittear

Para Ortega, la invención, es el deseo original y la vida inventada. Es inventada como se inventa una novela o una obra de teatro, y a eso es a lo que el hombre llama vida humana. «¿Sería el hombre una especie de novelista de sí mismo que forja la figura fantástica de un personaje con su tipo ideal de ocupaciones y que para conseguir realizarlo hace todo lo que hace, es decir, es técnico?» (2)

El deseo radical, fuente de todos los demás se mueve siempre dentro del perfil del hombre que deseamos ser. La crisis de los deseos apunta en primer lugar y sobre todas las cosas al perfil del hombre que deseamos ser. (Yo no soy una cosa, sino un drama, una lucha por llegar a ser lo que tengo que ser). ¿Qué tipo de hombre deseamos ser y cuáles serían el tipo ideal de ocupaciones de este hombre?

Un nuevo enemigo golpea las puertas de las ciudades más ricas de Europa: El Inmigrante. Deseoso de inventarse una vida mejor dejo atrás el hambre, la pobreza, enfermedades, etc. en un brutal intento de sacar de la circunstancia el imperativo para poder llevar éste al destino y así poder realizar el hombre que desea ser. Europa se prepara a levantarle sus muros. Una pregunta muere antes de ser pronunciada en miles de bocas de las nuevas generaciones que drogados alucinan su estar. Una pregunta espera ser levantada, revalorada… Es la pregunta por el Ser.

Lic. Juana Cantilo
Buenos Aires
16 de agosto de 2002

(1) «La vida alrededor»
(2) «Meditación de la técnica»