Resenha do livro «España Invertebrada», de José Ortega y Gasset

O texto Espanha Invertebrada foi escrito em 1921 pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) e editado por quatro vezes pela Alianza.

É uma obra apresentada em duas partes. A primeira parte intitula-se Particularismo y Acción Directa e a segunda parte intitula-se La Ausência de Los Mejores. No prólogo, Ortega adianta que o objetivo principal desta obra é definir a enfermidade da Espanha, bem como a dissolução da sociedade espanhola. No entanto, ao verificar os motivos desta fragmentação o filósofo observou que se tratava de uma crise comum do continente europeu. O filósofo explica que não há na Espanha uma vértebra capaz de unir os homens num projeto comum.

O primeiro ensaio do livro dedica-se à análise de Ortega sobre os aspectos históricos de uma nação como um vasto sistema de incorporação. Para explicar esse conceito, o autor utiliza o exemplo do povo romano cuja sociedade foi claro o surgimento, o apogeu e o seu declínio. O povo romano obteve êxito em sua civilização porque não preocupava em incorporar um outro povo pela expansão de um núcleo central, mas por adaptar-se às diferentes culturas que entrou em contato. Da mesma forma, o filósofo indica que é um erro supor que o nascimento da política deve-se à expansão da família conforme explicam algumas teorias sociológicas. O processo de incorporação não significa dilatação de um núcleo, mas a organização de muitas unidades sociais preexistentes numa nova estrutura.

Para incorporar os diversos povos, a sociedade romana, teve que exercer a tarefa do saber mandar. Essa tarefa consiste em nacionalizar um povo, pois essa tarefa reúne a habilidade de convencer e de obrigar os seus cidadãos a assumirem um projeto comum. E essas foram as duas habilidades da sociedade romana que a tornou uma potente civilização. Ortega explica que nesse esforço de incorporação o poderio militar aparece em uma posição secundária, pois não é pela força que um povo sente em sua vitalidade um projeto comum, mas pela necessidade em ter um projeto. O filósofo considera a necessidade como fundamento de um projeto que impulsiona a saída de uma vida contemplativa para uma vida ativa. Nos parece ser um dos aspectos de sua filosofia raciovitalista considerando que o homem deve agir seguindo seus projetos e sua vocação.

Num ensaio posterior, intitulado Tanto Monta, Ortega refuta a fórmula que sugere a unidade como a causa e a condição para fazer grandes coisas. Porém, sua refutação inverte a ordem desta fórmula que diz: “A idéia de grandes coisas pode fazer a unificação nacional” (p. 84). E o sintoma mais grave identificado pelo filósofo é que falta ao povo espanhol essa idéia de grandes coisas a fazer. Por isso, o título do livro España Invertebrada, ou seja, não há na Espanha uma vértebra, um sentido que seria vital para a consolidar a nação.

O primeiro inimigo fundamental que interrompe a consolidação da nação espanhola é o particularismo. Para Ortega, particularismo significa a desintegração na qual as partes do todo passam a viver como todos à parte. A essência do particularismo significa que cada grupo deixa de sentir-se como parte, e em conseqüência deixa de compartilhar os sentimentos dos demais. O filósofo compreende que para combater o particularismo, a sociedade espanhola deveria manter viva em cada classe ou profissão a consciência de que existem em torno deles muitas classes ou profissões cujas cooperações necessitam serem respeitadas, ou até mesmo, conhecidas.

O particularismo apresenta-se sempre como uma classe que produz a ilusão intelectual de crer que as demais classes não existem. Para Ortega, uma nação é uma comunidade de indivíduos e grupo que contam uns com os outros. Mesmo numa ação de discordância com outrem verificamos sua importância para nós. Entretanto, o particularismo introduz na política homens poucos virtuosos que mandam seguindo suas vontades. A essa atitude, o filósofo chama de ação direta. Por ação direta entende-se a imposição de um grupo sobre o outro quanto à sua vontade, desejo e interesse. Ao empregar a ação direta o grupo dominador considera que as demais classes não possuem o direito de existirem, passam a considerá-las como parasitas, isto é, anti-sociais. A ação direta é uma tática que se deriva do particularismo, ou seja, do não querer contar com os demais.

Na segunda parte da obra, Ortega explica que o particularismo e a ação direta existem porque na Espanha não há homens capazes de evitá-los. Existe na Espanha a massa humana que é uma realidade histórica européia e donde nascem os problemas políticos. As massas são um caso extremo da “invertebración” espanhola. Nas palavras de Ortega:

 

Essa miopia consiste em crer que os fenômenos sociais, históricos, são fenômenos políticos, e que as enfermidades de um corpo nacional são enfermidades políticas. Agora bem: o político é certamente a escapatória, o contorno do social. Por isso é o que nos salta primeiro à vista (p. 93-94).

 

Isso significa que o filósofo entende que quando o problema é só a política não significa que a nação esteja muito mal. Porém, quando o problema é a sociedade míope o problema é mais extremo. Quanto à Espanha, sua enfermidade pública é bem mais grave que qualquer moralidade pública. A enfermidade da Espanha é o império das massas. Eis o que Ortega nos diz sobre este império:

 

Eu me refiro uma forma de domínio muito mais radical, mais profunda, difusa, onipresente e não de uma só massa social, e sim de todas (p. 95).

 

O problema da Espanha está na raiz de sua sociedade. No entanto, não pode construir numa sociedade um ideal ético. Para Ortega este foi o desespero do século XVIII. Só deve-ser o que pode-ser e só pode-ser o que move dentro das condições do que é. Para Ortega, o erro da idade moderna foi supor que o homem pode construir um ideal moral pela consciência. Nesteࠠponto, Ortega combate o idealismo com o seu raciovitalismo explicando que o homem é sua ação e seu vࡩgor. O Raciovitalismo compreende o homem como um ser histórico e por isso sempre se empenha em construir e realizar seu projeto vital.

O princípio para a convivência do povo espanhol é a docilidade. A docilidade deve supor a obediência. A docilidade tem a vantagem não só de elucidar a coesão de uma sociedade como também os motivos que levaram a sua decadência. O filósofo explica que a docilidade é o principal instrumento para diagnosticar e cuidar da patologia que assola a nação. E o diagnóstico identificado por Ortega é a ausência dos “melhores”.
O que isso quer dizer?

Para Ortega, o povo espanhol só consegue exercer funções elementares da vida. Assim, o popular só sabe ser anônimo e por isso falta na história espanhola a criação. Para Ortega a primeira desgraça da Espanha foi não haver o feudalismo em sua história. Não havendo o feudalismo como em outras nações européias o povo espanhol não sentiu a necessidade de tornar-se modernos. Assim, todas as modificações e realizações necessárias para a consolidação da Idade Moderna caíram na Espanha como algo estranho. Na verdade, o povo espanhol não sentiu a necessidade em modificar suas circunstâncias o que é o núcleo da filosofia raciovitalista de Ortega.

As colonizações que a Espanha sofreu em sua formação incentivaram em sua apatia. Diferentemente do povo romano que para organizar um povo funda o Estado, o povo germano utiliza-se da força bruta para conquistar o território e fazendo-se senhores. Entretanto, foi esse espírito germânico que transmitiu ao povo espanhol que quem deve mandar é quem pode mandar.

Ortega destaca em seu texto que na Espanha pode-se dividir em três estratos os erros de seu país que o impossibilita em firmar-se como nação coesa. São elas: a primeira superficial que consiste nos erros e abusos dos políticos, defeitos da forma de governo, fanatismo religioso etc; o segundo estrato consiste numa grave enfermidade que é o particularismo e sua conseqüência a ação direta e; o terceiro estrato que consiste a raiz de todos os problemas é a alma do povo espanhol que possui o espírito de valentia e força bruta.

Em suma, Ortega encontra a raiz dos problemas da Espanha o espírito de conseguir alcançar os objetivos pela força física. Certamente, este é o que torna a Espanha Invertebrada, isto é, sem projeto comum para os seus cidadãos. O livro España Invertebrada possui uma discussão atual da sociedade de massa e do marasmo do povo em discutir os projetos ou rumos de sua nação. Ortega vale-se do raciovitalismo para indicar que falta ao povo entusiasmo, vigor e amizade para enfrentar os problemas que assolam o seu país.

Bibliografia

ORTEGA Y GASSET, José. España Invertebrada. Alianza Editorial: Madrid, 2000.

Danilo Santos Dornas
Graduado em Filosofia
Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea – Ética
Universidade Federal de São João del-Rei

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