Resenha sobre «La deshumanización del arte»

José Ortega y Gasset (1883-1955), filósofo espanhol nascido em Madrid, autor de várias obras de grande importância para o pensamento contemporâneo, como Meditaciones del Quijote, El Tema de Nuestro Tiempo, El Hombre e la Gente, La Idea del Principio de Leibniz e La Rebelión de las Masas, foi professor de metafísica, escrevendo sobre os mais diversos assuntos, inclusive sobre estética. Entre suas obras de estética, a mais conhecida é La deshumanización del arte, que, escrita em uma época de grande revolução da arte mundial, serve para “clarear” o pensamento nascente sobre a arte moderna.

Nesse livro, Ortega sugere qual o papel da arte na cultura contemporânea. Para ele, a arte é como um elo entre a vida social e o homem. Ortega y Gasset deixa explícito que seus escritos se voltam para explicar os problemas de seu tempo. Para ele, o pensador tem que lidar com os problemas de sua época, pensar o que acontece em seu tempo. Cabe-lhe fazer aquilo que sua sociedade espera explicar, porque as coisas se passam da forma como se passam.

Ao falar da forma como a nova arte é tratada, Ortega y Gasset estuda a relação entre a vida social do homem e a influência da arte. O filósofo espanhol quando fala da impopularidade da arte, no primeiro capítulo do livro, esclarece de onde ela provém. Na história da cultura decorrente nos últimos séculos, a arte representou a vida cotidiana através de quadros, esculturas, peças teatrais. A nova arte contraria essa tradição, e Ortega esclarece a dificuldade das pessoas se reconhecerem nas obras da nova arte, já que ela não ilustra suas vidas, e propõe uma obra puramente estética. Sem os dramas e paixões da vida humana e é esse o tema central dos principais capítulos, não se pode compreender os caminhos da nova arte.

O filósofo observa que a nova arte seria aceita, pelo menos durante algum tempo, por uma minoria seleta, constituída de artistas ou adeptos do puro prazer estético. Pelo fato de fugir das formas tradicionais, poucos a entenderão como objeto de pura criação artística. Ortega não vê um futuro promissor para a arte nova, pois ele acredita ser impossível desvincular a vida social ou pessoal do artista de sua criação, logo lhe parece destituída de êxito a tentativa de criar uma arte pura como pretende a nova geração de artistas. A explicação do filósofo para o insucesso da nova arte é que ela está fora da vida das pessoas, e não é possível, na sua avaliação, um objeto estético que fuja, que não represente algo para o homem.

Num dos capítulos mais interessantes intitulado “Unas Gotas de fenomenología”, Ortega explica como pessoas diferentes que vivem uma mesma situação a perceberão de modo distinto. Trata-se de uma meditação muito profunda sobre a maneira como nos inserimos no mundo. A forma como a realidade nos atinge está ligada ao modo como estamos inseridos nela:

“Se trata, pois, de uma perspectiva oposta da vida espontânea. Em vez de ser a idéia instrumento com que pensamos um objeto, fazemos dela objeto e término de nosso pensamento” (p. 363).

Como Ortega emprega sua concepção metafísica de inserção no real para avaliar a nova arte? O que acontece com os novos artistas é que eles tendem a desconsiderar o aspecto da realidade vivida, fato que afasta o homem da arte. Para entender a nova arte, o filósofo a aproxima de seu tempo. Cada época revela uma tendência, e a nova arte também é uma nova tendência, porém rompe com as anteriores. A arte moderna tende a ir contra a mais antiga, espera substituí-la.

A metáfora parece-lhe o mais radical instrumento da desumanização da arte, pois esta pode tanto “enobrecer como empobrecer” o objeto artístico, os jovens artistas a utilizam para dizer aquilo que não pode ser dito por outras formas de expressão. No entanto, o afastamento da linguagem do seu suporte real fez com que o artista perdesse o sentido de realidade e mergulhasse no seu mundo interior. O que também acontece é a inversão de papéis na nova arte, tratam-se como protagonistas as coisas que são tidas como as mais simples na vida. A metáfora é posta como sustentação, não é mais utilizada como adorno, “aqui não vamos da mente ao mundo, sim ao revés” (p. 376). Sendo assim, a contemplação da arte nova não pode ser a mesma da antiga, já que a nova arte não tem pretensões de transcendência.   

O filósofo distancia-se do entusiasmo ou ira provocados pela nova arte, ele procura ter uma visão mais objetiva do assunto, em todos os momentos percebe-se a tentativa de compreensão da nova arte. O que entender por desumanização? O afastamento da arte da vida vivida, do quotidiano compartilhado pelo homens. Essa seria a tendência da arte contemporânea e seu produto seria o afastamento do homem comum da arte produzida nos tempos atuais. Na perspectiva da filosofia da razão vital nenhuma produção humana pode prescindir do seu criador. Assim, a produção artística não pode saltar fora das circunstâncias em que foi produzida. Isso está longe de dizer que o meio produz a arte, diz unicamente que não há como retirar o caráter histórico e situado do que o homem produz. A meditação orteguiana adianta a crítica à desrealização, que o pensamento existencialista proporcionou, e procura estabelecer, também nesse campo da vida, o significado da produção humana.

 

 Daniela Paula Silva

Acadêmica de Filosofia da FUNREI

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