ORTEGA Y GASSET, José. Goya. Obras Completas. Tomo VII. Madrid: Alianza, 1993

As anotações que José Ortega y Gasset (1883-1955) fez sobre o pintor Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828) foram postumamente publicadas pela Revista de Occidente, em Madri do ano de 1958. No entanto, os organizadores as publicaram novamente nas Obras Completas de Ortega, no volume VII, em 1993. Essas anotações organizadas sob o título de Goya são, na verdade, dois textos de Ortega intitulados: Preludio a un Goya e Sobre la Leyenda de Goya. O objetivo dos textos é investigar o pintor Goya e estabelecer a relação de sua vida e seu tempo com suas obras. Desse modo, Ortega sente necessidade em apresentar a seus leitores qual é a atitude dos espanhóis no fim do séc. XVII a partir da análise da arte goyesca.

Por Danilo Santos Dornas**

Saturno devorando a sus hijos. Obra de Goya

Quem foi Goya? Francisco José de Goya y Lucientes foi um pintor que decidiu ir a Roma e retornou à Madri em 1766. Começou então a pintura de “cartões” para a Real Fábrica de Tapeçarias. Neste mesmo tempo começou a pintar retratos e cenas de jogos e diversões dos madrilenos. Suas telas, em sua maioria, representam a coletividade. Em 1792 começou a pintar “Caprichos”. Em 1801, inicia a fase obscura com desenhos que tratam a Espanha dilacerada como conseqüências da fome, da miséria e da morte. Os retratos, nesta fase, passam a ser apenas esboços. Este momento da vida do pintor é a mais explorada pelos seus estudiosos devido à mudança brusca e violenta do conceito amável da existência que suas pinturas apresentaram anteriormente.

Para Ortega, “Goya é um monstro, precisamente o monstro dos monstros e o mais decidido monstro de seus monstros” (Goya. O. C. Tomo VII. p. 507). E os admiradores de Goya são pessoas que se deixam conduzir pela confusão dos historiadores da arte que atribuem à monstruosidade de Goya, uma genialidade. Ortega completa que tratar um pintor como grandioso, a ponto de compará-lo como um modelo mundial, significa negligenciar uma série de outras criações, sobretudo na pintura, que a Espanha neste mesmo período produziu. Para uma discussão ética, Ortega nos parece se referir ao cuidado em construir modelos de vida e partir destes, passar a identificar toda tradição cultural reduzida à vida de um personagem com discursos científicos. No entanto, é preciso esclarecer o que foi a cultura espanhola do século XVII para confrontá-la com os dramas vividos por Goya. Nesta tentativa, diz Ortega, a história se restringe sempre à biografia de algum personagem. E na maioria das vezes, as biografias são construídas por pessoas que idolatram o personagem a ser retratado, exatamente por tomá-lo como modelo. Daí a confusão que se estabelece da incapacidade em identificar o que um determinado sujeito tem de bruto e o que ele apresenta de gênio.

Ortega ao deparar-se pela primeira vez com as pinturas de Goya confessa que se sentiu extasiado com o alto grau de otimismo e benevolência que elas representavam. Mas, ao deparar-se com a fase obscura de Goya e perceber os traços que ele compôs sentiu que “se há alguém que reclama ser compreendido, ser explicado e não só ser visto, é Goya” (p. 513). A dúvida é explicar por que um homem que pinta uma obra chamada “Caprichos” passa, então, a pintar “Quadros Negros”. Para os historiadores da arte, isso não aparece de forma clara. Ortega explica que a obscuridade dos historiadores da arte é influenciada pelo método hipotético que constrói as ciências empíricas. E a ciência quando é construída de forma empírica simplesmente, torna-se uma fantasia. A fantasia é limitada por ser uma máscara que envolve e escurece algo que possa ser explorado e melhor compreendido. A crítica à ciência empírica de Ortega se esclarece melhor na obra Introdução à filosofia da razão vital de Ortega y Gasset (2002), de José Mauricio de Carvalho (nasc. 1957), na seguinte passagem:

As teorias científicas possuem leis e princípios logicamente organizados com o intuito de interpretar a realidade. Esse fato, esclarece Ortega, não autoriza, contudo, a entender que é a coisa mesma que estaria presente no conhecimento, sem sofrer qualquer tipo de mudança. Não há dado sensível que chegue ao sujeito sem alteração (CARVALHO, 2000, p.288).

Nesta tentativa, de Ortega, nos parece seu propósito em abordar a autenticidade do pintor, para enfim compreender se há alguma relação entre a biografia da personagem Goya e o tempo em que viveu. Essa discussão sobre a vida autêntica é uma das categorias que Ortega utiliza para sua discussão ética. Sobre a vida autêntica, Ortega compreende que é uma luta aos ensejos da vida das massas. Viver com autenticidade é viver com qualidade e é o que diferencia a vida humana das demais vidas. As massas não são autênticas por se apresentarem cegas à própria vida, vivendo como máquinas.

Ortega verifica que as pinceladas de Goya nos “Quadros Negros” não são espontâneas, pois são governadas por uma intenção. Para Ortega, a intenção de Goya ao esboçar sua fase obscura era apresentar a seu público seus problemas pessoais. Então, os quadros quando são expressos pelas emoções não podem ser identificados com os problemas do seu tempo. Ao admirar um quadro, o espectador deve levar em conta a vida do pintor e não as técnicas que ele utiliza. Ao contrário, para se estabelecer a relação do tempo com a obra de um pintor deve-se conhecer todas as obras que este pintor produziu e o que ele não produziu. No caso de Goya, os temas pintados são variados o que caracteriza que foram escolhidos. Ele se sentia capaz de tudo, de utilizar todas as técnicas possíveis para pintar. Assim, se sentiu como um criador superior. Acontece que em fins do século XVII os pintores perdem a atenção dos homens. Goya não possui qualquer afinidade com os temas de seu tempo ao longo de sua vida. Quando pinta “Caprichos”, por exemplo, significa que houve um esforço próprio de repetir as técnicas que aprendeu em sua estadia em Roma e não conseguiu reproduzir em obras posteriores. Quando a Europa começa a introduzir o romantismo, Goya se sente confuso, obscuro e isolado.

Neste período, acontece um fenômeno que Ortega julga interessante na arte espanhola. A divisão entre a arte culta e a arte vulgar desaparece no teatro e nas touradas. Goya que sempre manteve contato com a aristocracia espanhola não conseguiu assimilar essa união entre as culturas promovida pelo entusiasmo do povo espanhol nas touradas e a genialidade dos atores e atrizes do teatro. A popularidade destas duas tradições uniu o povo espanhol e a aristocracia porque ambos gozaram de extrema felicidade. Já na metade do séc. XVIII a Espanha ficou caracterizada por tudo que era vivido com fogosa intensidade, um entusiasmo total. Essa característica determinada pelo entusiasmo do povo espanhol foi o que faltou no início do século XX gerando os problemas morais que Ortega analisa em suas obras España invertebrada (2000) e A Rebelião das massas (1987). Nestas obras, o autor indica que, o início do século XX foi marcado por uma série de crises devido à superlotação das pessoas sem entusiasmo gerando problemas para a nação espanhola. Essas pessoas sem entusiasmo não sentem a necessidade em construir um projeto comum que identifique com a nação espanhola. A essas pessoas sem entusiasmo Ortega se refere como Homem-massa. Aqui identificamos outro aspecto da moral de Ortega que indica o entusiasmo como um impulso vital e a uma das condições para sair da condição de ser idêntico aos demais homens.

O que isso tem a ver com a obra de Goya? Ortega nos conta que os quadros goyescos são para decoração. Além disso, o pintor não tinha interesse nas touradas por entendê-las como um laser do povo e também não se interessava pela literatura romântica que inspirava os teatros. Nesta passagem, Ortega nos conta a confissão de Goya a um amigo:

Eu não tenho lhes escutado e o mais provável é que nunca os ouça, pois não vou aos lugares onde poderia lhes ouvir, porque se me é posto na cabeça que devo manter uma determinada idéia e guardar uma certa dignidade que o homem deve possuir, com o qual, como podes ver, não estou muito contente (p. 531).

 

Goya então não dialoga com a cultura de seu tempo por achar-se perdido entre ela. Já contava com seus 40 anos e possuía dificuldade em aprender novas técnicas de pintura. Ortega nos conta que por causa dos seus “cartões” Goya consegue entrar no mundo das duquesas e dos “ilustrados”, mas nele permanece como sonâmbulo. Essa situação confronta outro aspecto moral que é a que Ortega entende que a vida é uma construção e não um desejo. Goya ao desejar ter uma vida aristocrata queria apenas circular entre os cultos, mas não tinha um projeto de vida para constituir parte desta classe social. No entanto, nesta época, esses “ilustrados” passaram a viver num racionalismo e num idealismo que mantinha o imperativo categórico kantiano como lei máxima. O imperativo categórico norteava a vida das pessoas através da negatividade. E Goya renuncia a esse desejo de vida por não aceitar o imperativo categórico que supervaloriza a negatividade e passa viver inautenticamente.

Os historiadores espanhóis ao tratarem de Goya esquecem de identificar sua biografia. Isso porque, ao estudar Goya os historiadores consideram a lenda que ele representa e esquecem que Goya foi apenas um homem simples. Estudar Goya, para Ortega, baseando-se apenas na lenda que ele representa consiste apenas em exercitar a melancolia. As biografias de Goya são escritas por pessoas que não sentem a curiosidade científica, então escrevem a vida do pintor como se escreve uma fantasia. Ortega explica que as obras goyescas sem compreender como foi a vida de Goya é o mesmo que fundar uma ciência baseada numa lenda.

Os biógrafos de Goya deixam de lado alguns dados importantes da vida do pintor que lhe causaram grandes dramas e melancolias. Ele teve que sair de sua cidade por ser responsável por três mortes o que levou seu pai a vender as propriedades para ajudar em sua fuga; sua vida não foi original desde os 25 anos porque apenas aprendeu a reproduzir o que se fazia na Itália; Goya dizia ter conhecido alguns palácios que já não existiam mais dentre outras coisas que o marcaram como “um dos homens mais coléricos da Europa” (p.544).

Entender a biografia de Goya nestes aspectos, segundo Ortega, significa compreender que a vida não é uma sucessão de acontecimentos, mas um projeto. Neste projeto, a vida torna-se uma ação que tem como direção o exercício da vocação. Por vocação, Ortega entende que é a responsabilidade moral da nossa interioridade para com as coisas que nos cercam. Nesse sentido, iremos investigar com Ortega se Goya mesmo perdido conseguiu exercitar sua vocação e descobrir se ele foi um ser autêntico.

Primeiramente, se deve elucidar que a subjetividade é o que deve dar significações para o mundo em que se encontra. Goya se sentia um pintor, um artista espanhol. Ele estava livre de julgamentos externos porque realizava a sua vocação. Não há dados suficientes para dizer se Goya desempenhava alguma outra função a não ser o ofício da pintura. Livrando Goya de qualquer julgamento externo, Ortega explica que dividir a vida dele em etapas significa tentar desvelar o seu “eu-vivente”. Ortega nos diz que as obras de Goya podem ter um lado positivo se considerados como uma reclamação. De que ele reclamava? Ortega lança a hipótese de que ele reclamava da valorização da pintura apenas em obras religiosas. Então, Goya foi um pintor de ofício e precisava anunciar que também poderia ser um homem criador. A criação consiste em dar uma significação ao que se produz e, no caso de Goya, não se pode negar que ele criou algo.

Temos aqui um impasse: 1) Goya não tinha projeto e 2) Goya tinha o projeto, de ao menos reclamar e se firmar como pintor. Como solucionar esse impasse? Para Ortega, Goya começou como um acadêmico italiano pintando retratos, em seguida pintou aparições ou fantasmas. O drama começou a fazer parte de sua vida. Em 1800, com o início do impressionismo, o pintor tenta se adaptar, assim como um trabalhador ao seu novo ofício.

Em suma, Goya ainda é um enigma para os historiadores da arte. Se considerarmos sua vida como um drama, deveremos considerá-lo um gênio, mas não podemos considerar sua época como um período dramático. Se o considerarmos como um monstro, levaremos em conta os áureos tempos em que Goya viveu e não percebeu que suas circunstâncias eram felizes, pois felicidade significa a coincidência da vida com as circunstâncias.

Para uma discussão ética, Ortega nos apresenta alguns de seus principais temas. A vida entendida na primeira pessoa percebendo as circunstâncias. Esse equilíbrio, em Ortega, é necessário para qualquer discussão moral. O entusiasmo uniu o povo espanhol nas manifestações culturais, sobretudo nas touradas e no teatro. Quando este entusiasmo faltou, a Espanha se perdeu com a aparição das massas. A realização de uma vocação como projeto de vida é o que a torna uma ação e não um simples desejo. Nesta obra sobre Goya, Ortega objetivou mostrar os problemas éticos que o pintor enfrentou e por isso, suas obras formam uma biografia subjetiva e jamais um retrato do seu tempo. Goya não percebeu que o seu tempo era constituído por alegrias, mas preferiu se fechar em si mesmo, sem se preocupar com suas circunstâncias. Assim, para ele a vida se tornou um caos e um drama.

 

* Resenha apresentada na disciplina Questões éticas no pensamento de Ortega y Gasset, no dia 06/07/2004, na pós-graduação em Filosofia Contemporânea –Ética, da Universidade Federal de São João del-Rei.

** Professor de Filosofia. Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea –Ética, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). E-mail: danilodornas@uol.com.br




Sobre «Origem e Epílogo da Filosofia»

Nos dias atuais, freqüentemente, ouvimos discursos que tratam das vantagens e das desvantagens sobre o ensino da História da Filosofia para jovens estudantes. Os discursos são apresentados numa tentativa de demonstrar a importância em despejar nas cabeças dos estudantes todo o legado do passado filosófico, reduzindo o ofício do amor ao saber, numa simples retilínea com sucessão de idéias mortas. Sabemos que é importante integrar o passado filosófico ao exercício de vencer os desafios contemporâneos. Nessa tentativa de vencer os desafios contemporâneos consiste o Filosofar. Para articular a História da Filosofia com o Filosofar, pensamos com o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) que trabalha esta questão em seu livro Origem e Epílogo da Filosofia, cuja organização se realizou com ensaios introdutórios para o livro História da Filosofia de seu amigo Julían Marías.

Para Ortega y Gasset, o passado filosófico constitui um emaranhado de idéias que se organizam numa série dialética. A série dialética é a apresentação das idéias que se opõem, mas que são dependentes entre si, e impulsiona uma dinâmica que move a história. O ponto de partida para o exercício do pensar é analisar o objeto que chega aos sentidos, mas não se esgota nos sentidos. Para o filósofo, ao analisar um objeto estamos empregando uma reflexão a fim de conceber um aspecto da realidade. Esta forma analítica de pensar é a primeira instância do pensamento.

Ao pensar em algo somos forçados a pensar nas coisas que estão à sua volta. O “pensar em torno” é o que acrescenta o pensamento analítico inicial e, por isso o complica porque força-nos a pensar nas circunstâncias de algo. Ao pensar no “em torno” estamos pensando nas circunstâncias. A dialética é a força que nos impulsiona e nos mantém pensando, considerando sempre o objeto e as coisas à sua volta. A obrigação que temos em assumir a tarefa de pensar é dada pela realidade vital, porque esta realidade não pode ser negada, pois é experimentada e vivida.

O primeiro aspecto que a análise de algo nos oferece é a apresentação de uma multidão de opiniões que o cerca. Mas sobre estas opiniões empregamos a elegância em saber escolher o que melhor se adapta para o nosso juízo. Para Ortega y Gasset, a palavra “elegância” conota o sentido latino “eligentia”, que ao adicionar ao prefixo “int” obtemos “inteligentia”, que significa o hábito de escolher. O termo “elegância” é um dos principais elementos da ética orteguiana. Por elegante entende-se o homem que nem faz, nem diz qualquer coisa, mas faz o que é preciso fazer e diz o que é preciso dizer.

Para Ortega y Gasset, a fisionomia do passado é constituída por ruínas. Estas ruínas são os erros que nos foram legados pelas diferentes gerações que viveram os problemas de sua época. Assim, cada filosofia leva em conta os erros de outras teorias filosóficas esperando não repeti-las, pois como diz o filósofo:

Cada Filosofia aproveita as falhas das anteriores e nasce, certa de que, pelo menos nestes erros não cairá (Origem e Epílogo da Filosofia. p.160).

A verdade é difícil a ser alcançada, porém o erro é facilmente encontrado. Ortega y Gasset, entende que o erro nos aparece naturalmente. No entanto, não existe um erro absoluto, porque mesmo do erro pode-se extrair algo positivo. O termo “cético”, por exemplo, surgiu no auge da cultura grega e não pode ser aplicado a aqueles que “não acreditam em nada” como pensam algumas pessoas. Os céticos eram “homens terríveis” porque não deixavam as pessoas viverem sem questões. Para Ortega y Gasset, os céticos “extirpavam a crença nas coisas que pareciam mais certas” (Idem. p. 163). O sentido original do termo cético é a ocupação em exaurir as verdades do vulgo, a fim de colocá-las em apreço para análise e reflexão, e enfim coloca-las em dúvida. Ao questionar, os céticos se empenha em refutar, isso funciona como um choque, porque demonstra que a verdade ordinariamente assumida é insuficiente para explicar o que se propõe.

Para explicar os problemas atuais, deve-se percorrer todo o passado filosófico, com uma visão arqueológica. Ortega y Gasset explica que a Filosofia atual tem como referência a Filosofia anterior. É como percorrer um itinerário mental que todo aquele que se propõe a pensar a realidade terá que seguir. O ato de percorrer simplesmente o passado filosófico sem identificá-lo com os problemas atuais das sociedades, consiste numa tarefa da mente adestrada. Esta mente adestrada, percorrerá a série dialética do pensamento numa educação filosófica sem o esforço de refletir, mas como uma ginástica de cultivar a memória. Para refletir o passado filosófico buscando fundamentos para explicar a sociedade contemporânea não basta abandonar os erros precedentes, mas integrá-los a fim de edificar um conceito novo.

Para o filósofo espanhol, o passado filosófico nos deixou idéias que não são as mesmas que temos atualmente. Isso significa que um segundo olhar sobre algo revela-nos detalhes que primeiramente não percebemos. A cada olhar o objeto deixa-nos escapar alguma revelação:

Proponhamos ver uma laranja. Primeiro, nós vemos dela apenas uma face, um hemisfério e depois temos que mover-nos e ir vendo hemisférios sucessivos. A cada passo, o aspecto da laranja é outro que se articula com o anterior quando este já desapareceu, de modo que nunca vemos junta a laranja e temos que contentar-nos com vistas sucessivas (Idem. p. 182).

Ortega y Gasset explica que mesmo Platão (427-347 a.C.) quando se refere à idéia como algo totalizante, na verdade busca exprimir a noção de um aspecto da realidade. Isso significa que, não existe nada que possa ser apreendido em sua totalidade. O modo de o homem ver as coisas é sempre um modo de apreender um determinado aspecto. A verdade é sempre perseguida e nunca alcançada. A verdade é o resultado da adição dos vários aspectos que conseguimos apreender da realidade. Por isso, há a necessidade de estabelecer sempre um processo dialético como integração para fundamentar um conceito novo.

Ortega y Gasset não dá ao termo “dialética” o sentido adotado pelos românticos alemães, que em seus sistemas declarava uma grande caça a verdade em nome do Absoluto. O pensador entende o termo “dialética” como um conjunto de fatos mentais que resultam ao se pensar a realidade. A realidade mostra a soma integral de seus aspectos e numa operação dialética podemos: parar, prosseguir, conservar e integrar, nunca deixando de refletir o presente.

O passado filosófico nos chega pelos títulos dos livros e o nome dos seus autores. Os títulos e os nomes dos autores são apenas uma referência aos problemas que eles tenta explicar em suas épocas. Para tentar explicar os problemas que afligem sua geração, os autores precisam aplicar a “alethéia”, que é o nome primogênito da Filosofia.

Por “alethéia” entende-se descobrimento ou revelação. A Filosofia, para Ortega y Gasset, é “uma faina de descobrimento e decifração de enigmas que nos põe em contato com a própria e nua realidade” (Idem. p. 210). A “alethéia” é a própria verdade revelada.

O que fazia o homem com sua mente antes de pensar o mundo? Para Ortega y Gasset, todo pensar possui um subsolo, um solo e um adversário. Antes de o homem iniciar seu pensamento sobre o mundo existiu algum subsolo que o suportou e o impulsionou a pensar. No passado grego, esse suporte e impulso foram à falta de credibilidade nas explicações divinas.

Ao filosofar o homem exercita sua liberdade. Para Ortega y Gasset, a liberdade não brota da ética e nem da política porque estas instâncias não são a raiz da vida. A liberdade é a escolha entre as carências de necessidades vitais. O filósofo explica que o círculo das possibilidades é bem maior que o das necessidades. E a vida é pobreza, portanto necessidades. A vida é sempre insegura. A dúvida é o meio pelo qual o homem sai de suas necessidades. O filósofo René Descartes (1596-1650) ensina que o método é a reação a uma dúvida, e foi nesta perspectiva que Ortega y Gasset explica que para suprir as necessidades deve-se recorrer à dúvida porque ela é postulação de um método.

A mais antiga divisão do pensamento humano acontece entre o sagrado e o profano. O deus que aparece nos tempos remotos da Grécia não é um deus religioso, mas um deus conceitual. Este deus conceitual é produto da racionalidade, que consiste na livre escolha para buscar um novo fundamento. A essa livre escolha dá-se o nome de Filosofia. A tonalidade própria do pensador é o insulto ao vulgo, pois é sua a missão de possuir idéias opostas à opinião pública. A preocupação dos filósofos gregos era discutir sobre eles mesmos e sobre a vida na polis. A palavra “Filosofia” devia circular neste ambiente para significar a ocupação com todas as novas disciplinas – desde a Filosofia Natural até a Retórica. A Filosofia é uma tentativa de explicar o mundo, interagindo o passado com o presente e ampliando os seus horizontes nas mais diversas disciplinas. Toda descoberta científica, toda verdade nos põe numa visão repentina e imediata de um mundo que até então desconhecíamos e com o qual não contávamos. O diálogo filosófico nos impulsiona para novas descobertas.

BIBLIOGRAFIA

ORTEGA Y GASSET, José. Origem e Epílogo da Filosofia. Ibero-Americano: Rio de Janeiro, 1963.

Danilo Santos Dornas
Graduado em Filosofia
Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea – Ética
Universidade Federal de São João del-Rei




Os fundamentos de uma pedagogia raciovitalista

Neste trabalho, examinamos quais são os fundamentos de uma pedagogia raciovitalista segundo o pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Adicionalmente, procuramos compreender qual a postura do educador e do educando nesse modelo teórico.

Palavras-chave: Filosofia, Educação, Raciovitalismo.

Considerações iniciais

A pedagogia é a ciência que investiga os pressupostos teóricos da educação. Para pensa-las valemos-nos das indicações do pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Ele analisa os problemas sociais que afligem sua geração. Desse modo, se depara com as idéias educacionais que necessitam de uma investigação singular. Para Ortega y Gasset a ciência pedagógica não pode apenas abordar um tema, mas precisa instaurar uma postura crítica diante da situação sociopolítica e cultural alterando-a para melhor.

Nosso trabalho tem por objetivo examinar os fundamentos da pedagogia raciovitalista. Além disso, buscaremos compreender como os estudantes devem proceder dentro desse modelo educacional que lhes permitirá crescer como seres únicos, equilibrados e criativos. Por outro lado, o educador, seguindo as indicações da pedagogia raciovitalista, deve aprofundar os fundamentos das teorias pedagógicas do século XX, porque um educador tem que ser mais que um regulador ou transmissor daquilo que é preciso aprender numa certa circunstância. O educador deve ser capaz de atualizar as potencialidades do educando.

Nos últimos dois anos, nós nos dedicamos ao estudo de alguns aspectos da Filosofia de Ortega y Gasset. Este trabalho, faz parte de um projeto maior sobre a Filosofia da Educação que estamos desenvolvendo com o apoio do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico, nos Programas de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), sob a orientação do Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

As referências principais para a realização deste trabalho foram as Obras Completas, de José Ortega y Gasset, editadas em Madri, pela Alianza. Além disso, valemo-nos dos artigos da Revista de Estudios Orteguianos e das obras de Margarida I. A. Amoedo intitulada José Ortega y Gasset: a aventura filosófica da educação, editada em Lisboa, pela Estudos Gerais e de José Mauricio de Carvalho intitulado Introdução à Filosofia da Razão Vital, editada em Londrina, pela CEFIL.

I Como se pensava a educação nos tempos de Ortega y Gasset?

José Ortega y Gasset apresenta suas idéias pedagógicas contrapondo-as às idéias educacionais então vigentes. Naquele momento as teorias da educação consagram o saber prático. Assim, verificamos que o principal problema educacional de sua geração é a conversão dos conceitos educacionais nos termos das ciências técnicas.

O problema da educação, nesse caso, é sempre um problema de eliminação. Eliminação significa a capacidade de o homem selecionar o que é essencial para sua vida, eliminando o que não é. As funções essenciais que o homem deve perseguir são de ordem psíquica e é essa ordem que o distingue de uma máquina.

As máquinas são construídas a partir da dificuldade do corpo humano em realizar determinadas tarefas. Para Ortega y Gasset, as máquinas trabalham em limitadas condições e reduzem a atividade humana ao mínimo, impedindo distinção entre o vital e o operacional. O filósofo, é necessário distinguir a função vital e o substituto dela quando se emprega uma máquina. Eis o que diz nos Ensayos Filosóficos:

O uso da bicicleta é mero mecanismo e, portanto, menos vital que o uso do pé, tampouco este representa a vitalidade essencial, também é um mecanismo em comparação com outras funções biológicas primárias (O. C. II; p. 276).

A ciência do século XX preocupa-se sobretudo com os estudos orgânicos. Ortega y Gasset entende que ensinar o homem pelos modelos funcionais, como as teorias mecânicas então predominantes, não permite entender as realidades vitais do homem. Então, o filósofo indaga: quais são as realidades vitais do homem? Para ele, são três: 1) a realidade mecânica ou técnica, que em seu conjunto chamamos de civilização e correspondem a montar uma bicicleta; 2) as realidades culturais do pensar científico, que se inserem numa vitalidade psíquica dentro de causas normativas, e é com esta que a pedagogia da razão vital deve se preocupar para que haja a capacidade do homem em eliminar o que é desinteressante de sua vida; e 3) os ímpetos originais do psiqué, como as emoções. Essas três realidades distinguem os homens, mas são raízes da existência pessoal. O erro das concepções pedagógicas de sua época foi supor que ensinar técnicas ao indivíduo iria dotá-lo de visão científica e de uma inteligência inquestionável.

II A vida espontânea como processo de adaptação

Ortega y Gasset, no ensaio intitulado Biologia y Pedagogia, explica que a missão da escola é preparar o homem para a vida. Para isso, ele completa, as escolas poderiam ensinar a educação cultural e a civilização para constituírem um instituto que permaneça idêntico desde os tempos mais remotos do passado e estimular a criatividade para o educando enfrentar os problemas do futuro. Para o filósofo, é mais urgente e necessário educar o homem para uma vida criadora do que para repetir técnicas.

O ensino das técnicas é adequado para quem precisa se especializar numa função que não seja essencial para sua vida. Ortega y Gasset explica que o ensino técnico era considerado a principal forma de educar o homem porque sua geração passara por uma circunstância muito singular. A geração que antecedeu à sua preocupou-se com a exploração de minerais e, assim, com a configuração de uma realidade limitada, o que impedia um olhar mais aguçado para o futuro. Também ficou sem função a possibilidade de admirar ou contemplar o mundo que está na raiz de todo conhecimento humano.

O estudo da realidade principia com um impulso inicial que é a admiração. Ortega y Gasset nos lembra que a admiração fez mover a Filosofia nas suas origens gregas. O filósofo conclui que a admiração no povo grego nasce não só da sua cultura, mas também devido a um perfil psicológico caracterizado pelo desejo de riqueza, glória e sabedoria. Uma pedagogia, para ter sucesso, tem que sistematizar a vitalidade espontânea dos educandos. Para realizar essa tarefa, os filósofos da educação devem analisar, equilibrar e corrigir as deformações que surgiram na história.

Ortega y Gasset entende que o homem não tem natureza, mas história. Por isso, contrapõe suas teses educacionais com as de Jean Jacques Rousseau (1712-1778), para quem a vida espontânea deve ser negada e a vida primitiva, valorizada. Entendemos que tratar o homem primitivo como selvagem, como fez Rousseau, significa centrar a distinção entre homem selvagem e homem civilizado nos recursos técnicos que cada um dispõe para a sobrevivência. E isso consiste em admitir teoria “progressista” como processo único de construção do saber humano. Porém, essa teoria “progressista” não entende que a origem da civilização aconteceu ainda entre os homens primitivos quando estes sentiram a necessidade de organizar-se em comunidade.

Ao contrário do que pensa Rousseau, Ortega y Gasset diz que a educação nunca será uma ficção da natureza. O filósofo espanhol entende que entre os anos de 1850 e 1900, os pensadores definiram que a vida essencial era a adaptação do homem ao meio em que se encontra. Essa característica atende somente à sua vida orgânica. Na passagem seguinte, Ortega y Gasset sintetiza as conseqüências de semelhante modo de pensar:

A mão, sobretudo no homem, é o órgão exemplar da adaptação criadora, que consiste em transformar proveitosamente o meio (O. C. II; p. 284).

A biologia refere-se à vitalidade como um processo de adaptação. Esse mesmo propósito orienta a psicologia, cuja vitalidade psíquica é inspirada na biologia orgânica do século XIX. As teorias biológicas e psíquicas daquele século entendem que a percepção do mundo circundante inicia-se num processo de adaptação do sujeito ao meio em que está situado. Esse processo relaciona a vida com o meio e é regido por ele. Porém, explica Ortega y Gasset, ao penetrarmos fundo na alma, percebemos extratos profundos que dificultam a adaptação ao meio.

Para Margarida Amoedo, o conceito de “paisagem” que o filósofo propõe, visa combater a categoria biológica de “meio”. Em nosso entendimento, o conceito de “paisagem” significa que cada espécie animal tem o seu lugar e que o homem vive em toda parte. O termo “paisagem”, além de diferir do “meio”, significa o conjunto das circunstâncias que o homem encontra em sua vida. Desse modo, “circunstâncias” e “paisagens” são ao mesmo tempo uma limitação para o homem e um conjunto de possibilidades.
Com o conceito de “paisagem”, podemos auferir as seguintes implicações pedagógicas: 1) o êxito da aprendizagem depende do uso de mecanismos adequados; 2) a compreensão da paisagem do indivíduo permite investigar seu potencial criador; e 3) educar deverá ser sempre o causador de paisagens novas.

III A forma psíquica inadaptada e a pulsação vital como sentimento de vitalidade

No item anterior, procuramos explicar em que consiste a adaptação e como o conceito foi introduzido nas teorias pedagógicas. Consideramos também que essas práticas educacionais suscitam dificuldades porque não incentivam a criação humana. Agora, em contraposição ao que proclama essas teorias, vejamos como Ortega y Gasset aborda a forma psíquica como a mais rica, enérgica e abundante.

Para fazer essa elucidação, recorremos, com o filósofo, às palavras: “querer” e “desejar”. O “querer” significa apropriar-se da realidade de algo e dos meios que se utiliza para fazer algo; o “desejar” implica em dar conta de que o desejado é relativo ou absolutamente impossível. Na criança, essa distinção não existe. Quando sua experiência lhe mostra o que é ou não possível, sua vontade vai se modificando entre o realizável e o irrealizável. A sua existência torna-se uma constante luta de fronteiras entre o “querer” e o “desejar”. Assim, o “desejo” é um “querer” fracassado. Porém, Ortega y Gasset nos explica que é o “querer” que nutre o “desejo”, movendo-o e ampliando-o. Assim, o desejo é o motor dentro do universo psíquico porque significa o homem sentir suas necessidades e empenhar-se em buscá-las.

A esfera política, Ortega y Gasset explica que a “barbárie” resulta do triunfo do homem que tem poucas necessidades. No caso, as suas necessidades são reconhecíveis pelo homem de forma íntima, abrindo as possibilidades para que ele saia de suas circunstâncias pelo “desejo” de ampliar os seus horizontes.

Uma pedagogia voltada para a adaptação do indivíduo ao meio exclui os “desejos” e a possibilidade do indivíduo realizar grandes feitos porque exalta as tarefas que os mestres julgam praticáveis. Assim, os mestres cegam o indivíduo de suas possibilidades e de suas potencialidades criadoras. Uma pedagogia raciovitalista considera que o pensamento é a ação sobre a outra pessoa porque influi na relação com o outro. Desse modo, a censura muitas vezes empregada pela pedagogia de adaptação pode nascer tanto do amor quanto do rancor que temos ao outro.

Para o filósofo, as emoções que sentimos na relação com o outro revelam nossas instâncias psíquicas e são elas que nos dirigem, nos alimentam, nos deprimem, mas que também nos são íntimas e podem nos nutrir. Essas emoções são influenciadas por uma dinâmica psíquica que varia entre os homens. Isso significa que o sentimento de vitalidade existente em cada homem parte de um pulso psíquico íntimo que o faz viver os desafios de sua época.

Não há que se esperar valores éticos nos pulsos vitais, mas cabe ao homem assegurar sua saúde vital. Nesse contexto, o filósofo explica que a pedagogia deve preocupar-se em submeter a atividade educacional aos ditames do imperativo de vitalidade. O ensino fundamental, explica o filósofo, deve ter o objetivo de produzir o homem vitalmente perfeito. Isso quer dizer que o homem deve sentir sua pulsação vital já no período inicial da formação. Ortega y Gasset ainda explica que as demais ciências, a moral, a técnica e o ideal de cidadania não devem ser a preocupação inicial da pedagogia raciovitalista, eles serão preocupações posteriores do educando.

IV A importância dos mitos na educação fundamental

Até aqui, identificamos o perfil da pedagogia raciovitalista; entretanto sentimos a necessidade de abordar a questão dos mitos porque ela interfere na educação fundamental. Na educação fundamental, o indivíduo necessita estar envolvido numa atmosfera de sentimento audacioso, ambicioso e entusiasmado. Por isso, a importância dos mitos.

Uma pedagogia prática, certamente, desprezará o ensino dos mitos por considerá-los um emaranhado de imagens fantásticas e, em contraposição, procurará colocar no indivíduo a idéia exata sobre as coisas. Essa pedagogia rejeita a noção que o mito possui uma função interna sem a qual a vida psíquica ficaria paralisada. Ortega y Gasset nos explica que o mito nutre o pulso vital e, por isso, o filósofo o denomina de “hormônio psíquico”. O filósofo ainda acrescenta que, até o século XIX, o “meio” é o mundo físico-químico onde estão os indivíduos, e eles teriam que se adaptar a ele do melhor modo possível. Assim, a biologia transforma os fenômenos vitais em fenômenos mecânicos. As coisas, no entanto, não se relacionam por atividades mecânicas.

A incompreensão do ensino fundamental vigente é a suposição de que os educadores dispõem que, na vida educacional, os educandos possuem o mesmo mundo que o dos educadores porque sempre partem do próprio mundo como algo definitivo, pronto e acabado e porque acreditam na pedagogia prática. Entretanto, o mestre com a formação prática esquece que a maturidade e a cultura são criações da criança e do selvagem. Para Ortega y Gasset, a maturidade não é a superação da imaturidade, e sim uma interrogação da realidade que se apresenta ao indivíduo. Para o filósofo, a pedagogia de Rousseau se assemelha ao uso de um método cruel porque intenta suplantar a paisagem natural da criança com os elementos que rodeiam as pessoas maiores. O filósofo ainda explica que o homem é um conjunto de órgãos seletos que interferem na realidade circundante; porém, o “meio” depende não só de sua estrutura corporal, mas também de sua estrutura psicológica. É essa a importância de ensinar os mitos ao jovem, para que ele possa exercitar sua pulsação vital.

O jovem imagina uma realidade ilusória e, por isso, sua educação vai se consolidando na medida em que as interrogações vão perdendo as ilusões. Esse processo de desilusão inicia-se quando a razão começa a operar em torno do novo objeto. Todo empenho da razão será guiado pela vontade de saber e obter uma noção exata do objeto de elaborar uma cópia intelectual que o transcreva como ele aparece. Para Ortega y Gasset, não há nada que chegue até nós num primeiro instante que não nos cause uma dupla reação: história e lenda. A lenda ocupa tanto nossa paisagem que até mesmo a ciência pode ser incorporada nela, completa o filósofo. Trata-se de uma crítica ao positivismo, que é exemplo de uma grande exaltação acrítica à ciência, fazendo fundar-se até uma religião constituída por mitos.

V O ato de estudar na pedagogia raciovitalista

Até aqui, discutimos os principais conceitos presentes na pedagogia raciovitalista. Passamos agora a considerar o perfil do estudante e o ato de estudar. Para o filósofo, o ato de estudar consiste na constante busca da verdade. Sendo assim, a verdade é o fator que acalma a inquietude de nossa inteligência. Nessa perspectiva, Ortega y Gasset explica que o saber deixa de ser científico. Isso, completa o filósofo, ocorre também com a Metafísica. Para quem não vê uma necessidade da Metafísica, os seus assuntos consistem num falatório sem sentido.

Para compreender o sentido dos discursos metafísicos, não precisamos de nenhum talento ou sabedoria inata, mas de uma condição fundamental: investigar para que serve a Metafísica. Ortega y Gasset entende que para aceitar sua necessidade deve-se reconhecê-la como um sentimento próprio e, da mesma forma, possuir uma necessidade das coisas que nos chegam da realidade. Assim, percebemos que a necessidade em conhecer é o motor que precisamos para buscar a descrição das coisas que nos chegam.

Nesse processo, ainda cabe esclarecer a questão: o que é o estudante? O estudante é um ser humano a quem a vida não impõe a necessidade das ciências. O estudante encontra a teoria e é estimulado a aprendê-la. Em contrapartida, está aquele que cria a ciência, pois sente uma necessidade vital e tem satisfação em edifica-la. Desse modo, não é o desejo que resulta no saber, mas a necessidade em saber. Podemos ainda completar que o desejo não existe sem que exista uma coisa desejada; ao contrário, a necessidade é percebida quando uma carência brota na alma e precisa ser preenchida.

O estudante tenderá a não questionar o conteúdo da ciência que lhe foi comunicada. Ao contrário, quando está diante de um conceito determinado se sente acomodado e amparado pela teoria e passa a crer que ela é definitiva, pronta e acabada. Existe uma outra questão que deve ser analisada. Ortega y Gasset indaga se, caso a ciência não estivesse aí, o estudante sentiria a necessidade dela. Para responder, o filósofo explica que a situação de estudante é artificial, ele apenas finge a necessidade. Portanto, o ideal é que o estudante tivesse um sentimento urgente que brotasse na alma com o intuito de desbravar os diversos saberes. Mas estudar tem sido em nossa cultura a obrigação de se interessar pelo que não interessa.

O perfil do criador, para Ortega y Gasset, se baseia na curiosidade. Em Martin Heidegger (1889-1976), a palavra “curiosidade” sugere um sentido que parece adequado ao que Ortega y Gasset quer exprimir. Para Heidegger, “curiosidade” se origina na palavra “cura”, que significa “cuidado” ou “preocupação”. Assim, um homem cuidadoso faz tudo com atenção e extremo rigor e se preocupa com sua ocupação. Ortega y Gasset entende que o vício do homem é fingir o cuidado, ou seja, ser incapaz de autêntica preocupação.

Através da curiosidade, chegamos à ciência e aí o homem revela sua sincera preocupação, que é uma necessidade imediata e autônoma. O estudante que não sente essa curiosidade consiste numa fraude de sua própria existência.

Considerações Finais

Neste trabalho, examinamos a importância das contribuições da filosofia raciovitalista para a educação. As teses educacionais se fundam nos problemas encontrados pelo filósofo Ortega y Gasset ao contrapor as práticas educacionais puramente técnicas que estavam vigentes em sua época inspiradas nos pensadores do séc. XIX. Essas práticas compreendiam o homem como um ser que se adapta ao meio e, assim, tratam a vida humana como algo que se restringe ao orgânico.

A pedagogia raciovitalista compreende o homem como um ser que está além de suas limitações orgânicas. Ele é um ser que possui aspectos psicológicos que nutrem seus desejos de conhecer a realidade vital. Os aspectos psicológicos tratados pelo filósofo sofrem influxo da pulsação vital que impulsiona o homem para além de suas circunstâncias e precisam, ser considerados pelas teorias educativas.

Para que haja o desenvolvimento dessa pulsação vital, o educador deve aprender a usar os mitos, porque são eles os principais recursos para ensinar as virtudes necessárias para a sobrevivência de uma comunidade. Os mitos não são simples lendas, e sim “hormônios vitais” que ajudam o homem a exercer suas atividades criadoras, demonstrando audácia, coragem e ambição necessárias para a vida. Os mitos devem ser ensinados ao jovem para que ele cresça sem se fixar em verdades prontas e desenvolva o gosto pela pesquisa e busca da verdade.

O estudante, formado neste processo de constante indagação, se transforma num pesquisador. Assim, segue construindo ser com a eterna busca do saber. A educação, assim vista, significa a ação de extrair uma coisa de outra, de converter uma coisa menos boa em outra melhor.

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Trabalho realizado como parte das atividades do PIBIC/CNPq, anos 2002/2003, sob a orientação do Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

** Acadêmico de Filosofia da Universidade Federal de São João del Rei (PIBIC/CNPq)




O homen massa e os desafios da política no pensamiento de Ortega y Gasset

Neste trabalho indicaremos quais eram, na avaliação de José Ortega y Gasset (1883-1955), os principais problemas sociais e políticos da Europa de seu tempo: o homem massa e o individualismo exacerbado. Para ele, a solução para esses problemas está na educação e no estabelecimento de novas bases para uma moral social. Adicionalmente, procuraremos atualizar essa discussão com interpretações atuais de Ortega y Gasset sobre o tema.

Palavras-Chave: Filosofia Política, Filosofia Social, Educação.

Considerações iniciais

José Ortega y Gasset nasceu em Madri em maio de 1883. Filho de José Ortega y Munilla, foi célebre escritor e colunista de uma revista espanhola. O filósofo estudou Filosofia e Letras e se especializou em filosofia estética alemã no fim do século XIX. Foi professor de Metafísica na Universidade Central de Madri. Viveu algumas temporadas na Alemanha e na França e realizou várias viagens à América, sobretudo Argentina (1916 e 1928), país em que teve singular êxito como palestrante.

Ortega y Gasset foi um filósofo inserido nos problemas de seu tempo e preocupou com o destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado, dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos que o impediam de acompanhar o desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar esses problemas, o filósofo pensou as questões políticas à luz de uma teoria da realidade, que ele denominou raciovitalismo. Essa teoria centrou a discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset particulariza os problemas de cada homem. Com a continuação desta mesma frase: se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset indica que o homem pode mudar a sua vida e da sociedade que vive.

Neste trabalho, indicaremos como, segundo o filósofo, podemos tratar os problemas sociais e políticos para entender que o homem consegue salvar suas circunstâncias se valendo da educação e da cultura, que são instâncias que igualam os homens. Nesse empreendimento, nos valemos dos textos: Los problemas nacionales y la juventud; La ciencia y la religión como problemas políticos; La pedagogia social como programa político; Vieja y nueva política; A Rebelião das Massas; El hombre y la gente; e España Invertebrada.

Esses escritos foram publicados nas Obras Completas editadas pela Alianza Editorial de Madri. Procuramos nos valer, na meditação que se segue, da interpretação de diversos estudiosos de Ortega y Gasset, notadamente dos artigos editados na Revista de Estudios Orteguianos.

1 Os problemas políticos

A geração de Ortega y Gasset encontra uma Espanha mergulhada em problemas sociais. Tais problemas surgiram do mal uso da razão no exame da vida social e política. Para o filósofo, os homens de sua época deveriam utilizar a razão e a sensibilidade para examinar os problemas sociais que impedem a Espanha de se firmar como nação. Estes problemas sociais são originados pelo mal exercício da participação política. Maus governantes completam a dificuldade.

Primeiro, é preciso entender o que o filósofo designa por nação. Ortega y Gasset explica que nação não é uma simples delimitação de terras, e sim o objeto de uma virtude que acompanha cada homem. Esta virtude é o patriotismo. A nação passa a existir se os homens exercitam seu patriotismo no país onde vivem.

Faz parte do patriotismo identificar os vícios que aparecem em uma determinada nação. Os vícios nascem da distração dos membros dessa sociedade, distração que permite que pessoas pouco virtuosas cheguem ao comando da nação. Essa era a situação política da Espanha; regida por governantes não preparados, a nação não atendia o bem-estar do povo. Ortega y Gasset conclui que o povo espanhol, ao perder a capacidade de refletir sobre si mesmo, tornou-se motivo de desprezo por outras nações da Europa.

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset entende por homem desprezível aquele que não se esforça para superar as dificuldades que se lhe apresentam nem sequer reflete sobre suas ações. Entretanto, o homem desprezível não é o que simplesmente cai, mas o que não consegue reerguer-se após uma queda.

O filósofo entende que sua geração estava mal preparada política e moralmente. Por isso, ele supõe que era necessário discutir os males da Espanha, assim como fazem outras nações da Europa. Os males políticos que atravessavam a Espanha se fundamentavam na má formulação do conteúdo moral das gerações precedentes. O filósofo diz que uma geração que não se prepara moralmente para as dificuldades que se avizinham traz conseqüências trágicas para as que se seguem. Então, cada geração é mestra da que se segue, o que nos sugere uma valorização dos pressupostos históricos para a edificação de uma sociedade contemporânea, resgatando a moralidade que se encontra desvirtuada dos assuntos políticos. Eis o que nos diz:

É certo que a geração anterior não nos deixou de herança nenhuma virtude moderna. Cada geração chega ao mundo com uma missão específica, com o dever adscrito nominalmente a sua vida (Los problemas nacionales y la juventud. p. 15).

Não custa recordar que, para o filósofo, a moral não é constituída de fórmulas abstratas. Isso porque a moralidade deve aparecer como um desafio vital ou uma tarefa a ser cumprida pelos homens. A resposta ao desafio faz com que os indivíduos mereçam o título de entes sociais. E, para agir moralmente, o homem deve se pautar em normas que foram desenvolvidas pelas gerações anteriores. A realidade histórica de cada geração consiste em ser o ponto de interseção da geração que lhe antecedeu e da outra que a seguirá. Essa dupla função é importante porque o filósofo coloca a educação como medula da história e regente da moral do homem:

Cada qual faz o que é capaz de fazer, mas sua capacidade depende completamente de sua preparação: isto nos obriga a manter desperta a consciência de nossa solidariedade com as forças e até com os vícios do passado (idem. p. 16).

Desse modo, Ortega y Gasset entende que, antes de mudar o sistema político, se deve entender que falta ao povo espanhol entusiasmo, energia, pureza, sensibilidade para as instâncias morais. Essas instâncias morais devem ser alteradas. No entanto, a geração em que Ortega y Gasset viveu não herdou virtudes nem ideais, herdou unicamente falta de entusiasmo para enfrentar os problemas. Os homens estão destinados a viverem numa nação com características particulares e regionais, isso é o que tipifica e diferencia as nações. Essa característica particular e regional de uma nação significa um modo que antecede a desintegração por não considerar as qualidades do mundo ao redor.

Os líderes políticos de cada povo devem ser sensíveis à vontade de seus cidadãos para que essa regionalização se extinga impedindo a formulação dos flancos, grupos particulares, para que a necessidade de todos sejam perseguidas por meio de uma discussão entre os homens. Um político que cria leis sem um debate entre os cidadãos não educa o povo, prejudica a nação e dificulta que ela se forme integralmente.
Ortega y Gasset entende que resgatar a moral é tarefa da metafísica e não da sociologia, mas que tem implicação na política. Isso porque deve salvar uma virtude comum aos cidadãos da Espanha. O filósofo grego Platão (427-347 a. C.), em sua República, pretendia que um rei-filósofo administrasse com sucesso a polis. Ortega y Gasset não pede tanto ao se referir à administração do Estado. Para ele, o governante precisa ser um homem preparado para enfrentar as dificuldades da administração pública. Governantes cultos são importantes porque eles identificam a alma de seu Estado e assim governam com mais eficácia. Ortega y Gasset diz que na Espanha, por exemplo, a alma identificada é a valentia e por isso há tantas guerras na história de seu povo:

Na Espanha só temos a tradição de valentia: por um gesto de valentia vendemos a alma nacional ao diabo (idem. p. 21).

Os problemas políticos são solucionados com o exercício da liberdade de cada ser humano. Para os atenienses, explica o filósofo, liberdade significava viver como quisessem, atendendo à busca de felicidade na polis. A liberdade, para Ortega y Gasset, não pode ser mais entendida como entre os gregos; ele a vê como respeito ao indivíduo e ao Estado. Ortega y Gasset completa que a liberdade de consciência só pode ser desenvolvida numa organização política forte que eduque o povo espanhol. E consciência significa sensibilidade, conhecimento dos deveres morais.

Como educar o povo? Ortega y Gasset afirma que é promovendo a paz entre todos os homens. E a paz só é conseguida por um povo que possua uma alma culta:

Paz e cultura tem um valor recíproco em meu vocabulário: paz é a postura da alma culta, e cultura é cultivo (idem. p. 23).

Nesse sentido, o pensador espanhol se mostra contrário às revoluções como estratégia para introduzir mudanças políticas, entendendo que elas são constituídas por uma sucessão de crimes. Assim, impedem o exercício da paz entre os homens e não podem conduzir uma nação à liberdade por não respeitarem a individualidade de cada um. As revoluções mostram que quanto mais injustiças existirem mais os homens serão culpados em não refletir sobre o próprio compromisso moral que serve de guia para a vida social. Portanto, Ortega y Gasset entende que é exigência moral evitar as ações dos revolucionários, mas deve-se entender seu sentido porque elas só surgem como tentativas de solucionar os problemas encontrados em uma sociedade.

2 O homem massa e os problemas gerados pela política

As teses sociais e políticas de Ortega y Gasset são uma resposta aos inúmeros problemas sociais provocados pelo individualismo exagerado. O autor explica em seus textos que os problemas sociais e políticos gerados na Europa são causados pela superlotação dos lugares públicos, que é o que ele chama de massa social. O individualismo exagerado culmina na sociedade de massa.

O que o preocupa é o homem não se comprometer com sua vocação ou missão. O homem massa, como ele o trata, é o indivíduo que não atribui a si um valor e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos demais indivíduos. Essa análise do filósofo destaca a preocupação em melhorar a qualidade de vida de cada homem para melhor identificar no corpo da nação uma coluna vertebral que une os homens.

Dessa forma, o problema social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os rumos políticos que devem seguir sua nação, e desorganizados na sociedade, distribuídos em blocos individuais. Esse distanciamento dos homens nos assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela ignorância. Esse acontecimento é o que ele chama de hiperdemocracia das massas cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de leis, sem se preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as dificuldades da sociedade contemporânea em se firmar como sociedade.

Um dos sintomas mais evidentes da hiperdemocracia se instaura quando a massa resolve fazer justiça. Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que garantam a paz. Ortega y Gasset verifica que quando as massas triunfam, reina também a violência como doutrina e única razão. Para controlar a violência das massas, nasce o Estado.

O homem massa não se preocupa com sua civilização, sua cultura, e sua educação, que são os caminhos que ele tem para sair dessa condição de vulgaridade. O resultado dessa situação é fatal para a vida de cada ser humano porque os homens passam a viver em função do Estado, tornando-se máquinas estatais. Após certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam. Essa é a razão dos governos totalitários que se espalharam ao longo do século XX.

Os governos totalitários, comunistas e socialistas, e também a sociedade de consumo são potenciais fabricantes de homens massa porque impedem o homem de se valer de sua vida singular para agir. Por isso, é perigoso se render a esses projetos políticos. Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem particularidade que o distinga dos demais homens. Está agarrado em suas circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair.

Ortega y Gasset postula uma rebelião individual contra os desejos do homem massa em suas obras sobre política. Ou seja, defende a revolta pessoal contra a consciência coletiva para manter o homem numa posição seleta pela sua própria capacidade de trabalhar, construir e se esforçar cada vez mais para melhorar sua vida.

Ortega y Gasset apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência individual identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio de cada ser humano, enquanto, o homem massa é o inimigo consciente de sua singularidade.

3 A preocupação com o social 

A primeira coisa a se fazer para melhorar a vida na Espanha, na compreensão de Ortega y Gasset, é socializar os homens fazendo com que saiam da condição de homens massa. Preocupar-se com a política é ocupar-se com a vida social, o que só pode ser conseguido pelo humanismo e pela cultura. Assim, preocupar-se com o social é cultura, construção que, por sua vez, promove a paz social pelo princípio de amizade. Logo, o socialismo é construtor da paz, afirma o filósofo.

Ortega y Gasset diz que os socialistas não devem ser inimigos de seus inimigos, mas amigos de seus amigos. Assim, eles devem se agrupar, comungar, comunicar e socializar todos os homens: antes de mais nada, o socialismo é um princípio de amizade aos homens, uma forma de humanismo, que o filósofo julga necessário existir nas relações sociais. Como naquele momento socialismo estava identificado com marxismo, o filósofo procura explicar o que entende por socialismo, uma vez que não partilhava das teses marxistas.

Ortega y Gasset explica que o marxismo consiste em solucionar toda variação histórica como uma variação de relações econômicas: cada época se caracteriza por um tipo de produção, por uma maneira especial de obter o produto, de decidir a coisa econômica como meio para a vida.

O que interessava a Karl Marx era determinar que tudo de mal que compõe a história social humana, religião, política, moral são sempre formas de realidade econômica, que não tem sentido sem referir ao econômico (La ciencia y la religión como problemas políticos. p. 32).

A economia é entendida, segundo Karl Marx (1818-1883), como matéria para a vida. Ortega y Gasset não concorda com esse entendimento porque não admite reduzir a vida humana às relações econômicas. Para o filósofo espanhol, sempre haverá o capitalismo porque sempre existirão instrumentos de produção. E, ainda completa, o socialismo nasceu com Platão quando afirmou que os cidadãos não devem se empenhar em uma perpétua luta entre ricos e pobres na polis. Erradicar a luta de classes como meio para socializar a produção é proposta do marxismo, mas essa forma não promove a paz e a liberdade entre os homens. Os acontecimentos históricos dos últimos anos confirmam a avaliação do filósofo.

O socialismo tal como ele o propõe eleva o nível cultural das sociedades. E cultura, para Ortega y Gasset, não é uma palavra vaga, sem sentido. Cultura é o cultivo científico do entendimento de cada homem, de sua moralidade e de seu sentimento. Por isso, a cultura é o verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos devem trabalhar para o benefício de todos, porque só assim existirá uma comunidade firme.

4 A pedagogia social como solução para os problemas sociais e políticos

Nossa consciência necessita de um motor para se colocar em movimento. Ortega y Gasset diz que este motor é a educação. Por educação, o filósofo entende a transformação de um homem imperfeito em indivíduo com irradiações virtuosas. A pedagogia, enquanto ciência, trata de modificar o caráter, tem por objetivo integrar os indivíduos em uma comunidade. Desse modo, a pedagogia deve começar por um ideal moral.

O homem, segundo Ortega y Gasset, não é apenas um indivíduo biológico. O homem se difere de um cavalo por saber determinar o que é bom para si e para sua comunidade. Então, a pedagogia não significa um adestramento de homens, e sim de uma atividade educadora que insere o homem singular, consciente de sua situação, em um grupo social. É o que afirma o filósofo:

O cavalo é uma coisa física, é todo uma exterioridade, vive só uma vida espacial. Agora bem, o problema da pedagogia não é educar o homem exterior, o anthropos, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e quer (La pedagogia social como programa político. p. 51).

As características da ciência, da moral e da arte são que seus conteúdos pertencem ao patrimônio comum, apesar dos amores, ódios e caprichos serem subjetivos. Portanto, existe um eu individual, que sente tais emoções e um eu comunitário, que pensa algo que é comum a todos. Para que exista uma comunidade entre os homens é necessário que exista uma linguagem comum. Ortega y Gasset completa que sem linguagem não há pensamento.

“O pensar é um monólogo e o monólogo não é originário, e sim a imitação de um diálogo, um diálogo de uma só dimensão” (idem p. 52).

Ortega y Gasset explica que sem o uso da linguagem o espírito não chega a possuir conteúdo para a interação. Um indivíduo que extingue sua comunicabilidade com os outros se mantém solitário e se transforma em um átomo social.

Todo individualismo é mitológico e anticientífico. Assim, Ortega y Gasset considera a pedagogia individual um erro e projeto inútil. Platão, na sua República, que é preciso primeiramente educar a polis e depois o indivíduo. Então, a pedagogia platônica privilegia a dimensão social. Ortega y Gasset explica que a escola só é um espaço momentâneo e que a verdadeira educação se adquire em casa, nas praças e estabelecimentos públicos; enfim, onde as relações humanas sejam mais intensas. A pedagogia é entendida pelo filósofo como a ciência que transforma as sociedades, pela moralidade, em um reunião de pessoas com ideais.

Antes, essa transformação do indivíduo era entendida como produto da política, explica o pensador. Mas não se pode fazer política sem antes passar por uma pedagogia social. O social é a combinação dos esforços individuais para realizar uma obra comum. Um grupo de homens, ao trabalharem em uma obra comum, recebem em seus corações, por reflexão, a unidade dessa obra e, assim, nasce o elo da unanimidade. Ortega y Gasset conclui que pela cooperação se forma uma sociedade unida.

Socializar o homem é fazer do trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde a cultura abarca tudo, desde cavar a terra até compor versos (idem. p. 58).

Não pode participar bem da sociedade quem não trabalha. Ortega y Gasset entende que pela consciência do trabalho não pode haver lutas entre ricos e pobres na nação. Erradicar a luta de classes como meio de socializar a produção é proposta do marxismo e não promove a paz e a liberdade entre os homens. Ao contrário, é onde a luta de classes encontra meios políticos de expressão que a sociedade consegue os melhores benefícios.

O verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos e reconstruir a moralidade do homem. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos com seu trabalho contribuem para o destino da comunidade, só assim o futuro poderá ser mirado com esperança.

Considerações finais

Neste trabalho examinamos as teses políticas e sociais de Ortega y Gasset. Vimos os problemas causados pela influência de uma sociedade de massa no destino dos gruos humanos. Tal influência deve ser alterada para não se transformar a nação numa hiperdemocracia. A hiperdemocracia é o exercício das massas e imposição de seus costumes ao restante da sociedade com todas as implicações negativas daí decorrentes. Entretanto, não concordamos com interpretações que indicam que esta crítica do filósofo ao excesso da democracia represente uma posição antidemocrática. Pensamos que ele espera superar o democratismo de inspiração rousseniana (Cf. Carvalho, 2001. p. 411-415), ou melhor, conforme diz Maria Teresa Lopez de la Vieja, a crítica à hiperdemocracia é uma tentativa de verificar os abusos da imposição e os inconvenientes do domínio do homem massa ao longo do século XX.

Um dos modos de evitar a hiperdemocracia é permitir que a educação seja o exemplar fio condutor para os homens e assim privilegiar as decisões políticas de forma exemplar, valorizando o conhecimento e a competência. Neste ponto, Ortega y Gasset dialoga com Aristóteles (367-322 a. C.), que defende em sua obra Ética a Nicômaco que devemos deliberar retamente as decisões com a devida prudência. Aquele que se guiar nestes moldes será sempre um modelo a ser seguido. Ao considerarmos o papel da educação na vida social, não encontramos em outro intérprete de Ortega y Gasset uma abordagem mais apurada. Aqui, nos conduzimos para a solução que o autor sugeriu em alguns de seus ensaios.

Há leitores de Ortega y Gasset identificam a preocupação com os homens puros como uma forma de aristocracia. Tais intérpretes não observam, contudo, que o filósofo valoriza a vida de todos de modo igual. E, para que haja uma vida política sem deteriorar os valores de cada pessoa, teria a educação que ter uma forma de unificar, socializar os homens num princípio de amizade; essa é a real intenção do filósofo que nada revela de elitista. A posição elitista de Ortega y Gasset se restringe em aspectos psicológicos e antropológicos que, conforme nos indicou Maria Teresa Lopez de la Vieja, significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária. Trata-se de um convite ético a ser bom, mas não de um governo para poucos.

Não identificamos um interesse do filósofo de discutir questões como eleições, partidos e formas de governo, e sim, estabelecer bases de uma “pedagogia política”. Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesses e os valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública através do meio cultural não são tarefas de uma elite política, e sim de uma elite cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço suficiente para transcender a vida comum. O instrumento com que conta cada homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão, uma razão voltada para a vida.

 

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______. El hombre y la gente. Obras Completas. 2. ed. Tomo VII. Madrid: Alianza Editorial, 1993.

______. España Invertebrada. Madrid: Revista de Occidente en Alianza Editorial, 2000.

VIEJA, Maria Teresa López de la. Democracia y masas en Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.1 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2000.




A filosofia política de Ortega

Neste trabalho indicaremos como o filósofo José Ortega y Gasset analisou os problemas de seu tempo e a partir deles consolidou suas teses sociais e políticas. A partir dos textos sobre política do filósofo podemos verificar que sua preocupação fundamental era incentivar o homem em sair da sua condição de minoridade e caminhar meios para construir a sua vida singular.

Palavras-Chave: Filosofia. Política. Raciovitalismo.

Considerações Iniciais

José Ortega y Gasset foi um filósofo que viveu os problemas de seu tempo e se preocupou com o destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado, dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos que o impediam de acompanhar o desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar esses problemas, o filósofo pensou as questões políticas à luz de uma teoria da realidade, que ele elaborou e que se tornou conhecida como raciovitalismo. Essa teoria centrou a discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset particulariza os problemas de cada homem. A continuação desta mesma frase: se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset indica que o homem pode mudar a sua vida transformando a realidade em que vive. Se não fizer afunda-se na circunstância e não dá sentido a sua própria vida.

Neste trabalho, indicaremos como, segundo o filósofo, devemos olhar os problemas sociais e políticos como estratégia para mudar a circunstância. O caminho mais simples é melhorando a educação e o nível cultural das pessoas, que são instâncias que aproximam os homens.

Os escritos analisados estão reunidos nas Obras Completas editadas pela Alianza Editorial de Madri. Procuramos também nos valer, na elaboração desse artigo, da interpretação de diversos estudiosos de Ortega y Gasset, notadamente dos artigos editados na Revista de Estudios Orteguianos, o principal veículo de estudo da obra do filósofo espanhol.

1. A discussão contemporânea sobre os temas políticos de Ortega y Gasset

Os problemas políticos integram um importante capítulo de filosofia da razão vital, fazem parte da dimensão social e história do viver. Julián Marías em sua História da Filosofia (1959) afirma que temos que dedicar atenção à reflexão de Ortega y Gasset sobre política porque aí encontramos elementos para entender o funcionamento da sociedade. Essa nunca está parada e a tentativa de estabelecer equilíbrio é sempre precária. A negociação política é a forma de violência menor para solucionar os problemas sociais. Em outras palavras, Julian Marías afirma que ao estudar a política, Ortega y Gasset estava enfrentando aspectos essenciais do mundo dos homens, vencendo obstáculos que o impediram de viver bem.

Luis Gabriel Stheeman, no artigo La etimologia como estratégia retórica en los textos políticos de Ortega y Gasset (Revista de Estudios Orteguianos, 2000) exorta os estudiosos de Ortega y Gasset a observar a preocupação do filósofo com a clareza e a exatidão dos temas que utiliza no campo político. Essa é uma exortação válida que procuramos incorporar à esta pesquisa, manter a clareza dos conceitos.

Na mesma revista, Maria Teresa Lopes de la Vieja escreveu um artigo intitulado Democracia e masas onde esclarece que o conceito de hiperdemocracia traduz a tentativa de imposição das massas de um certo comportamento uniformizado. Esse artigo nos esclarece que Ortega y Gasset não era contrário à democracia embora considerasse as instituições políticas e as relações sociais e pessoais seguem regras distintas. Em nossa pesquisa adotamos esse entendimento que nos parece fiel ao espírito do raciovitalismo.

Um conjunto de artigos publicados no segundo número da Revista de Estudios Orteguianos sobre o livro La Rebelión de las masas, dentre dos quais se destaca o intitulado El mal radical de Felipe Ledesure, revela que a propensão a inércia do homem-massa constitui um mal radical. De fato, no atual momento de interpretação da obra orteguiana, o comportamento do homem-massa é representativo de uma crise mais profunda do homem. Essa foi a interpretação que demos ao assunto central da referida obra orteguiana.

No terceiro número da revista de Estudios Orteguianos, José M. Sevilla esclarece, no artigo intitulado Ortega y Gasset y la idea de Europa, que a noção de Europa corresponde a nova crença orteguiana, radicalmente ontológica e inseparável da realidade histórica. De fato, observamos que Ortega y Gasset desenvolve uma meditação centrada na necessidade da unidade européia e na defesa da cultura, temas que são atuais e importantes.

Dos intérpretes brasileiros de Ortega y Gasset, os mais notáveis são Gilberto de Mello Kujawski e Ubiratan Macedo. O primeiro autor do clássico Ortega y Gasset e a aventura da razão (1964), insiste na responsabilidade pessoal nos assuntos políticos lembrando que nisso consiste o principal freio contra as ditaduras. O mesmo autor esclarece também no ensaio A experiência de Ortega publicado no livro Discurso sobre a violência que o homem europeu viveu experiências diversas de organização política. Ele já foi democrata, liberal, absolutista e feudal e de cada período retirou experiências que devem ajudá-lo hoje na solução dos problemas políticos. Ubiratan Macedo escreveu ensaios memoráveis como A Filosofia de Ortega y Gasset (2001), publicado no livro A presença da moral na cultura brasileira, onde mostra que o engajamento do filósofo é com a razão, descartando toda tentativa de ver em Ortega y Gasset um filósofo militante na política, embora ele fosse um teórico que adotava posições políticas e assumia o risco delas. Os elementos interpretativos destes teóricos foram considerados na condução desta pesquisa.

2. Os problemas políticos

A geração de Ortega y Gasset encontra uma Espanha mergulhada em problemas sociais. Tais problemas surgiram do mal uso da razão no exame da vida social e política. Para o filósofo, os homens de sua época deveriam utilizar a razão e a sensibilidade para examinar os problemas sociais que impedem a Espanha de se firmar como nação. Estes problemas sociais são originados pelo mal exercício da participação política. Maus governantes completam a dificuldade.

Primeiro, é preciso entender o que o filósofo designa por nação. Ortega y Gasset explica que nação não é uma simples delimitação de terras, e sim o objeto de uma virtude que acompanha cada homem. Esta virtude é o patriotismo. A nação passa a existir se os homens exercitam seu patriotismo no país onde vivem.

Faz parte do patriotismo identificar os vícios que aparecem em uma determinada nação. Os vícios nascem da distração dos membros dessa sociedade, distração que permite que pessoas pouco virtuosas cheguem ao comando da nação. Essa era a situação política da Espanha; regida por governantes não preparados, a nação não atendia o bem-estar do povo. Ortega y Gasset conclui que o povo espanhol, ao perder a capacidade de refletir sobre si mesmo, tornou-se motivo de desprezo por outras nações da Europa.

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset entende por homem desprezível aquele que não se esforça para superar as dificuldades que se lhe apresentam nem sequer reflete sobre suas ações. Entretanto, o homem desprezível não é o que simplesmente cai, mas o que não consegue reerguer-se após uma queda.

O filósofo entende que sua geração estava mal preparada política e moralmente. Por isso, ele supõe que era necessário discutir os males da Espanha, assim como fazem outras nações da Europa. Os males políticos que atravessavam a Espanha se fundamentavam na má formulação do conteúdo moral das gerações precedentes. O filósofo diz que uma geração que não se prepara moralmente para as dificuldades que se avizinham deixa questões trágicas e não resolvidas para as que se seguem. Então, cada geração é mestra da que se segue, o que nos sugere uma valorização dos pressupostos históricos para a edificação de uma sociedade contemporânea, resgatando a moralidade que se encontra desvirtuada. Eis o que nos diz:

É certo que a geração anterior não nos deixou de herança nenhuma virtude moderna. Cada geração chega ao mundo com uma missão específica, com o dever adscrito nominalmente a sua vida (Los problemas nacionales y la juventud. p. 15).

Não custa recordar que, para o filósofo, a moral não é constituída de fórmulas abstratas. Isso porque a moralidade deve aparecer como um desafio vital ou uma tarefa a ser cumprida pelos homens. A resposta ao desafio faz com que os indivíduos mereçam o título de entes sociais. E, para agir moralmente, o homem deve se pautar em normas que foram desenvolvidas pelas gerações anteriores. A realidade histórica de cada geração consiste em ser o ponto de interseção da geração que lhe antecedeu e da outra que a seguirá. Essa dupla função é importante porque o filósofo coloca a educação como medula da história e regente da moral do homem:

Cada qual faz o que é capaz de fazer, mas sua capacidade depende completamente de sua preparação: isto nos obriga a manter desperta a consciência de nossa solidariedade com as forças e até com os vícios do passado (idem. p. 16).

Desse modo, Ortega y Gasset entende que, antes de mudar o sistema político, se deve observa-se falta ao povo entusiasmo, energia, pureza, sensibilidade para as instâncias morais. Essa a situação da Espanha e ela devia ser alterada. No entanto, a geração de Ortega y Gasset, assim lhe pareceu, não herdou virtudes nem ideais, herdou unicamente falta de entusiasmo e desânimo. Os homens estão destinados a viverem numa nação com características particulares e regionais, isso é o que tipifica e diferencia as nações. Essa característica particular e regional de uma nação significa um modo que antecede a desintegração por não considerar as qualidades do mundo ao redor.

Os líderes políticos de cada povo devem ser sensíveis à vontade de seus cidadãos para que essa regionalização se extinga impedindo a formulação dos flancos, grupos particulares, para que a necessidade de todos sejam perseguidas por meio de uma discussão entre todos os homens. Um político que cria leis sem um debate entre os cidadãos não educa o povo, prejudica a nação e dificulta que ela se forme integralmente.

Ortega y Gasset entende que resgatar a moral pública é tarefa da metafísica e não da sociologia, mas que tem implicação na política. Isso porque deve recuperar uma virtude comum aos cidadãos da Espanha. O filósofo grego Platão (427-347 a. C.), em sua República, pretendia que um rei-filósofo administrasse com sucesso a polis. Ortega y Gasset não pede tanto ao se referir à administração do Estado. Para ele, o governante precisa ser um homem preparado para enfrentar as dificuldades da administração pública. Governantes cultos são importantes porque eles identificam a alma de seu Estado e assim governam com mais eficácia. Ortega y Gasset diz que na Espanha, por exemplo, a alma identificada é a valentia e por isso há tantas guerras na história de seu povo:

Na Espanha só temos a tradição de valentia: por um gesto de valentia vendemos a alma nacional ao diabo (idem. p. 21).

Os problemas políticos são solucionados com o exercício da liberdade de cada ser humano. Para os atenienses, explica o filósofo, liberdade significava viver como quisessem, atendendo à busca de felicidade na polis. A liberdade, para Ortega y Gasset, não pode ser mais entendida como entre os gregos; ele a vê como respeito ao indivíduo e ao Estado. Ortega y Gasset completa que a liberdade de consciência só pode ser desenvolvida numa organização política forte que eduque o povo espanhol. E consciência significa sensibilidade, conhecimento dos deveres morais.

Como educar o povo? Ortega y Gasset afirma que é promovendo a paz entre todos os homens. E a paz só é conseguida por um povo que possua uma alma culta:

Paz e cultura tem um valor recíproco em meu vocabulário: paz é a postura da alma culta, e cultura é cultivo (idem. p. 23).

Nesse sentido, o pensador espanhol se mostra contrário às revoluções como estratégia para introduzir mudanças políticas, entendendo que elas são constituídas por uma sucessão de crimes. Assim, impedem o exercício da paz entre os homens e não podem conduzir uma nação à liberdade por não respeitarem a individualidade de cada um. As revoluções mostram que quanto mais injustiças existirem mais os homens serão culpados em não refletir sobre o próprio compromisso moral que serve de guia para a vida social. Portanto, Ortega y Gasset entende que é exigência moral evitar as ações dos revolucionários, mas deve-se entender seu sentido porque elas só surgem como tentativas de solucionar os problemas encontrados em uma sociedade.

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3. O homem massa e os problemas gerados pela política

As teses sociais e políticas de Ortega y Gasset são uma resposta aos inúmeros problemas sociais provocados pelo individualismo exagerado, nascido segundo o filósofo do idealismo subjetivista. O autor explica em seus textos que os problemas sociais e políticos gerados na Europa são causados pela superlotação dos lugares públicos e pela padronização do comportamento que forma a massa social. O individualismo exagerado culmina na sociedade de massa.

O que o preocupa é o homem não se comprometer com sua vocação ou missão. O homem massa, como ele o trata, é o indivíduo que não atribui a si um valor e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos demais indivíduos. Essa análise do filósofo destaca a preocupação em melhorar a qualidade de vida de cada homem para melhor identificar no corpo da nação uma coluna vertebral que une os homens.

Dessa forma, o problema social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os rumos políticos que devem seguir sua nação, e desorganizados na sociedade, distribuídos em blocos individuais. Esse distanciamento dos homens nos assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela ignorância. Esse acontecimento é o que ele chama de hiperdemocracia das massas cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de leis, sem se preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as dificuldades da sociedade contemporânea em se firmar como sociedade.

Um dos sintomas mais evidentes da hiperdemocracia é o propósito das massas de fazer justiça por seus próprios meios. Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que garantam a paz. Ortega y Gasset verifica que quando as massas triunfam, reina também a violência como doutrina e única razão. Para controlar a violência das massas, nasce o Estado.

O homem massa não se preocupa com sua civilização, sua cultura, e sua educação, que são os caminhos que ele tem para sair da condição de vulgaridade. O resultado dessa situação é fatal para a vida de cada ser humano porque os homens passam a viver em função do Estado, tornando-se peças da máquina estatal. Após certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam. Essa é a razão dos governos totalitários que se espalharam ao longo do século XX, o homem perdeu a responsabilidade e o sentido de uma vida que é única, vivida na primeira pessoa.

Os governos totalitários, comunistas e socialistas, e também a sociedade de consumo são potenciais fabricantes de homens massa porque o impedem de viver singularmente. Por isso, é perigoso se render a esses projetos políticos. Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem particularidade que o distinga dos demais homens. Está agarrado em suas circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair.

Ortega y Gasset postula uma rebelião individual contra os desejos do homem massa em suas obras sobre política. Ou seja, defende a revolta pessoal contra a consciência coletiva para manter o homem numa posição seleta pela sua própria capacidade de trabalhar, construir e se esforçar cada vez mais para melhorar sua vida.

Ortega y Gasset apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência individual identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio de cada ser humano, enquanto, o homem massa é o inimigo consciente de sua singularidade.

4. A preocupação com o social

A primeira coisa a se fazer para melhorar a vida na Espanha, na avaliação de Ortega y Gasset, é socializar os homens fazendo com que saiam da condição de homens massa. Isso pode parecer um paradoxo, mas não o é. A vida singular do homem se dá no meio social e só nele o homem está como que em casa. Preocupar-se com a política é ocupar-se com a vida social, o que só pode ser conseguido pelo humanismo e pela cultura. Assim, preocupar-se com o social é cultura, construção que, por sua vez, promove a paz social pelo princípio de amizade. Logo, o socialismo é construtor da paz, afirma o filósofo.

Por socialismo Ortega entende não a teoria marxista, como foi comum no seu tempo, mas uma preocupação com a vida social e senso de responsabilidade quanto aos destinos de seu grupo.

Ortega y Gasset diz que os socialistas não devem ser inimigos de seus inimigos, mas amigos de seus amigos. Em seguida explica os ideais que entende o socialismo alimenta. Os socialistas devem se agrupar, comungar, comunicar e socializar todos os homens: antes de mais nada, o socialismo é um princípio de amizade aos homens, uma forma de humanismo, que o filósofo julga necessário existir nas relações sociais. Como naquele momento socialismo estava identificado com marxismo, o filósofo procura explicar o que entende por socialismo.

Ortega y Gasset explica que o marxismo consiste em solucionar toda variação histórica como uma variação de relações econômicas: cada época se caracteriza por um tipo de produção, por uma maneira especial de obter o produto, de decidir a coisa econômica como meio para a vida.

O que interessava a Karl Marx era determinar que tudo de mal que compõe a história social humana, religião, política, moral são sempre formas de realidade econômica, que não tem sentido sem referir ao econômico (La ciencia y la religión como problemas políticos. p. 32).

A economia é entendida, segundo Karl Marx (1818-1883), como matéria para a vida. Ortega y Gasset não concorda com esse entendimento porque não admite reduzir a vida humana às relações econômicas. Para o filósofo espanhol, sempre haverá o capitalismo porque sempre existirão instrumentos de produção. E, ainda completa, o socialismo nasceu com Platão quando afirmou que os cidadãos não devem se empenhar em uma perpétua luta entre ricos e pobres na polis. Erradicar a luta de classes como meio para socializar a produção é proposta do marxismo, mas essa forma não promove a paz e a liberdade entre os homens. Em outras palavras é inútil tentar eliminar a luta de classes, mas é possível mantê-la sujeita a estrita regras. Os acontecimentos históricos dos últimos anos confirmam a avaliação do filósofo.

O socialismo tal como ele o propõe eleva o nível cultural das sociedades. E cultura, para Ortega y Gasset, não é uma palavra vaga, sem sentido. Cultura é o cultivo científico do entendimento de cada homem, de sua moralidade e de seu sentimento. Por isso, a cultura é o verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos devem trabalhar para o benefício de todos, porque só assim existirá uma comunidade firme.

5. A pedagogia social como solução para os problemas sociais e políticos

Nossa consciência necessita de um motor para se colocar em movimento. Ortega y Gasset diz que este motor é a educação. Por educação, o filósofo entende a transformação de um homem imperfeito em indivíduo com irradiações virtuosas. A pedagogia, enquanto ciência, trata de modificar o caráter, tem por objetivo integrar os indivíduos em uma comunidade. Desse modo, a pedagogia deve começar por um ideal moral.

O homem, segundo Ortega y Gasset, não é apenas um indivíduo biológico. O homem se difere de um cavalo por saber determinar o que é bom para si e para sua comunidade. Então, a pedagogia não significa um adestramento de homens, e sim de uma atividade formadora que insere o homem singular, consciente de sua situação, em um grupo social. É o que afirma o filósofo:

O cavalo é uma coisa física, é todo uma exterioridade, vive só uma vida espacial. Agora bem, o problema da pedagogia não é educar o homem exterior, o anthropos, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e quer (La pedagogia social como programa político. p. 51).

As características da ciência, da moral e da arte são que seus conteúdos pertencem ao patrimônio comum, apesar dos amores, ódios e caprichos serem subjetivos. Portanto, existe um eu individual, que sente tais emoções e um eu comunitário, que pensa algo que é comum a todos. Para que exista uma comunidade entre os homens é necessário que exista uma linguagem comum. Ortega y Gasset completa que sem linguagem não há pensamento.

O pensar é um monólogo e o monólogo não é originário, e sim a imitação de um diálogo, um diálogo de uma só dimensão” (idem p. 52).

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Ortega y Gasset explica que sem o uso da linguagem o espírito não chega a possuir conteúdo para a interação. Um indivíduo que extingue sua comunicabilidade com os outros se mantém solitário e se transforma em um átomo social.

Todo individualismo é mitológico e anticientífico. Assim, Ortega y Gasset considera a pedagogia individual um erro e projeto inútil. Platão, na sua República, que é preciso primeiramente educar a polis e depois o indivíduo. Então, a pedagogia platônica privilegia a dimensão social. Ortega y Gasset explica que a escola só é um espaço momentâneo e que a verdadeira educação se adquire em casa, nas praças e estabelecimentos públicos; enfim, onde as relações humanas sejam mais intensas. A pedagogia é entendida pelo filósofo como a ciência que transforma as sociedades, pela moralidade, em um reunião de pessoas com ideais.

Antes, essa transformação do indivíduo era entendida como produto da política, explica o pensador. Mas não se pode fazer política sem antes passar por uma pedagogia social. O social é a combinação dos esforços individuais para realizar uma obra comum. Um grupo de homens, ao trabalharem em uma obra comum, recebem em seus corações, por reflexão, a unidade dessa obra e, assim, nasce o elo da unanimidade. Ortega y Gasset conclui que pela cooperação se forma uma sociedade unida.

Socializar o homem é fazer do trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde a cultura abarca tudo, desde cavar a terra até compor versos (idem. p. 58).

Não pode participar bem da sociedade quem não trabalha. Ortega y Gasset entende que pela consciência do trabalho pode-se superar as lutas entre ricos e pobres na nação. Erradicar a luta de classes como meio de socializar a produção é proposta do marxismo, e não promove a paz e nem assegura a liberdade entre os homens. Ao contrário, é onde a luta de classes encontra meios políticos de expressão que a sociedade consegue os melhores benefícios.

O verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos e reconstruir a moralidade do homem. Homem, em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz entre os homens porque todos com seu trabalho contribuem para o destino da comunidade, só assim o futuro poderá ser mirado com esperança.

6. Reflexões de Ortega y Gasset acerca dos governos totalitários

Para Ortega y Gasset, os governos totalitários não incentivam a democracia porque não restauram os sucessos do passado nascidos na liberdade e na pluralidade de opinião. Ao invés de tornar o Estado um espaço de homens virtuosos, o totalitarismo transforma o Estado em algo “forte” e emprega meios dissolventes para fazer valer as convicções da minoria, violentando os direitos individuais. Assim, o governo totalitário extermina a liberdade dos homens, transformado-os em seres alienados de sua vida e do seu destino. Ortega y Gasset explica que em épocas anteriores havia a necessidade de preservar a intimidade de cada um, problema cuja solução foi buscado pela liberal-democracia. Porém, o sistema totalitário surge como uma reação ao liberalismo, considerando-o incapaz de resolver os problemas sociais.

Partindo desta constatação, o filósofo espanhol, considera o totalitarismo como um fenômeno histórico. Isso significa que, a verdadeira natureza do totalitarismo está fora do tempo histórico. Trata-se de tentativa em ocultar a liberdade humana e é uma forma de garantir o poder e a autoridade do grupo. Ortega y Gasset explica ainda que o totalitarismo cria as armas para sua autodestruição ao abandonar a liberdade vital.

O totalitarismo é algo inautêntico porque entende que os homens são aquilo que eles verdadeiramente não são – seres coletivos. Paralelamente, os ideais que os totalitários acreditam não constituem a verdadeira realidade da vida. Por esta razão é ilusório buscar no totalitarismo um sentido autêntico porque ele não considera a vitalidade humana.

Toda agremiação política não é mais do que uma palavra vaga, e só adquire sentido autêntico quando reúne os ideais distintos integrando uma fase histórica. Para Ortega y Gasset, exatamente o que o totalitarismo não almeja é socializar seus ideais com a pluralidade de opiniões e além disso, prefere ocultar o que pretende de forma violenta.

O totalitarismo é uma forma de massificar os homens e encobrir suas contradições. Uma destas contradições é supor que o vencedor de uma disputa necessita da ajuda dos vencidos. Desse modo, o vencedor forja a debilidade de seu inimigo. A análise do filósofo revela que a busca do poder nada mais é que um jogo de estratégia, onde o mais débil não têm forças para se erguer, e por isso deve ser mantido nesta condição pela força de autoridade.

Por isso, Ortega y Gasset entende que se deve buscar nas circunstâncias a explicação para a debilidade dos homens, ou seja, buscar na vida aquilo que permitiu o governo totalitário chegar ao controle de vários estados europeus. Comparando, o totalitarismo com a chegada ao poder do romano Júlio César, no século 70 a.C. Ortega y Gasset explica:

A dificuldade (da sociedade romana) que falamos é idêntica a que sentimos diante do totalitarismo. Mais que o triunfo de César sobre os demais homens, nos parece que são os demais homens quem desejam o triunfo de César (Sobre el Fascismo. p. 500).

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset, não considera que as épocas históricas possam se identificar, mas têm algo em comum. O fator comum, por exemplo, entre o governo de César, no período romano, e o totalitarismo, estabelecido na Europa no século XX é o prévio desprestígio das instituições estabelecidas. O fato mais grave nestes sistemas de governo, na avaliação do filósofo, são as mudanças radicais nas idéias e nos sentimentos que o totalitarismo provoca. Ortega y Gasset, está preocupado com a vida de cada um ao tratar as mudanças circunstanciais como algo grave.

O totalitarismo comporta partidos de posições autoritárias, conforme afirma no texto que se segue:

Um partido autoritário, como o são muitos; confusamente antidemocráticos, como vem sendo todas as direitas e esquerdas extremas; nacionalistas, como outra meia dúzia de grupos, de revolucionários, socialistas, etc. (Idem p. 501).

Para o filósofo, as características destes sistemas de governos são a violência e a ilegitimidade. O primeiro é conseqüência do segundo, e vice-versa formando um círculo vicioso. Os governos autoritários adquirem o poder através da violência e por isso são ilegais, assim como a violência que é um crime e favorece os autoritários chegarem ao poder.

Ortega y Gasset explica que o totalitarismo exerce o poder em nome da justiça, de uma ética e concepção de universo elaborados por um grupo particular. Estes valores são criados conforme as conveniências de consolidar a autoridade daqueles que mandam. Para fazer valer seus valores, os grupos autoritários usam a violência sem se preocupar em dar um fundamento jurídico a suas ações, além de, não se preocupar em construir nenhuma sólida teoria política. Esses governos totalitários, não pretendem governar com os direitos subordinados a uma ética comum que respeite a pluralidade dos homens. Os direitos que os autoritários conhecem são: a força e a violência das quais se valem para impor suas vontades.

A permanente prática da arbitrariedade estabelece um caos jurídico nos Estado autoritário. Ortega y Gasset, indaga-se sobre os motivos que fizeram as forças sociais, que estiveram sempre presentes na defesa da liberdade, não se esforçarem para impedir a vitória do caos jurídico que se instala com o autoritarismo. A resposta, a que o filósofo chega é a seguinte:

Pela sensível razão de que hoje não existem forças sociais importantes que possam viver esse entusiasmo; ou, porque hoje não existe nenhuma nação continental capaz de dar legitimidade que satisfaça a ilusão dos espíritos (Idem p. 503).

Ortega y Gasset, explica que a política que possibilita o triunfo da liberdade é o espírito público. O filósofo explica que esse espírito “dá a forma externa a profunda realidade oculta nos corações” (Idem p.503).

Isso significa que se deve abrir bem os olhos para tentar surpreender o enigma da realidade e extrair do que se averigua na política massificante férteis sugestões para evitar novos erros desta natureza. A fragilidade do sistema autoritário é que depende para existir de que haja uma debilidade nos homens, uma ignorância dos assuntos vitais e políticos.

7. Reflexões de Ortega y Gasset acerca do Liberalismo

Ortega y Gasset pensa o Liberalismo a partir das transformações científicas ocorridas no século XIX. Da mesma forma que o cientificismo influenciou a vida dos homens também influiu no exercício da política. Assim, houve um processo de adequação entre as idéias científicas e as idéias políticas, o que gerou inúmeros choques de in-culturalização.

O filósofo explica que na Europa existem muitos conservadores, e todo conservadorismo entende que não há mais nada para criar ou edificar numa cultura. Os conservadores querem construir um conjunto forte de homens, e assim não partem do princípio vital, base de vida de cada indivíduo, mas da necessidade do Estado em submeter todos os homens sob seu comando.

Conservadores são, no sentir do filósofo, os governos autoritários e totalitários. O governo conservador não deseja que os homens adquiram forças para sair das suas circunstâncias, e viver é vencê-las. Ortega y Gasset diz que o homem é um eu e sua circunstância e isto significa mencionar a acomodação imposta pelos conservadores às massas. Os sistemas políticos que preferem a coletividade não incentivam o indivíduo a sair das suas circunstâncias que o impedem de dar uma melhor significação a sua vida. Essa idéia conservadora de que o homem não saia da sua circunstância é típica das políticas anti-liberais. Ela promove uma incultura no homem, estagnando e fragmentando a nação. Na passagem que se segue o filósofo explica que as políticas de massa considera os homens simples resultado das circunstâncias em que vivem, mas lhes impede de refletir sobre o mundo ao redor:

Não nos é perguntado antes se queremos ser fortes; poderia ser que prefería ser bons, nada mais que bons; justos, nada mais que justos; discretos, em último caso, nada mais que discretos. E se nos proíbe a direção, nos impõe o dever da incultura (La Reforma Liberal. p.32).

O principal instrumento de educação política para que o homem vença os seus problemas, é a imprensa. A imprensa tem um papel fundamental na definição dos rumos da política. Entretanto, os periódicos não abordam seriamente os temas sociais e políticos, são artísticos. Ortega y Gasset explica que essa forma de arte controla as emoções sociais, por isso não dá ao povo a chance de debater os assuntos e não lhes mostra caminhos para seguir:

Os periódicos estão carregados de idéias da emoção para que expande a carga emotiva; não lhes toca elaborar afirmações ou negações, isto é para o sábio. Para o estadista; sua tarefa se reduz a expressar robustamente essas afirmações ou negações desempenhadas por outros (Idem p.33).

Para o filósofo é fundamental ressuscitar o Liberalismo e instaurar na Europa um verdadeiro partido liberal com atenção voltada para a liberdade. Mas, para isso, Ortega y Gasset explica que é preciso contar com o auxílio dos espíritos revolucionários. De que tipo de revolucionário ele fala? Não de um revolucionário armado, que usa a força para impor sua ideologia, mas um revolucionário capaz de unir os homens por um ideal de liberdade.

O Liberalismo para ser edificado e seguir seu curso na História deve se apresentar como o “partido da revolução”. Eis o que diz:

O Liberalismo se não quiser seguir sendo um fenômeno da História, tem que se confessar e se declarar inequivocamente sistema da revolução. Aos ânimos que acostumaram espantar-se com a sombra que desejam o ar das palavras proponho este ponto de meditação: que preferem: um sistema de revolução ou revolucionários sem sistema? (Idem p. 34).

O Liberalismo, para Ortega y Gasset, é uma forma de pensamento político que antepõe a realização de um ideal moral não dividir os homens em classes. O caminho seguido pelos totalitários, ao contrário, não atende as exigências vitais, nega o valor ético dos homens e atende este ponto de vista quando constrói uma constituição política sem identificar os valores éticos do seu tempo.

O Liberalismo acredita que nenhum regime social é definitivamente justo. Ortega y Gasset explica que sempre a norma ou idéia de justiça necessita de uma visão que transcenda a lei escrita:

Como os peripatéticos tinham que buscar fora do mundo e falavam em um Deus invisível ou primeiro motor imóvel, que impulsiona as coisas que vemos mover-se, assim o primeiro motor jurídico das transformações constitucionais é esse direito não escrito, esse direito ideal, centro da energia ética da História. A este direito sobreconstitucional que é sua vez de grado dever, chamo de revolução (Idem. p.35).

O Liberalismo, no entendimento de Ortega y Gasset, é o exercício de liberdade. Porém, que liberdade é essa a que o filósofo se refere? Trata-se de uma liberdade mencionada na política platônica, aquela que reconhece o indivíduo fora do Estado. O Liberalismo orteguiano é resposta aos erros originais da fundamentação positivista utilitária do Liberalismo inglês. Tal forma é norma em toda Europa, provocando um individualismo exacerbado.

Na visão utilitária do Liberalismo, a palavra liberdade se reduz a certa forma de tolerância, explica Ortega y Gasset. Na passagem que se segue o filósofo explica o que entende por tolerância:

A tolerância não é renúncia ou extinguir a luta, e sim a utilização desta palavra, significa a confirmação e a legalização das armas de combate (Idem p. 36).

Para Ortega y Gasset, o exercício da liberdade é mais do que isto, significa modificar a constituição na medida que as gerações exigirem tal modificação. Não indica somente que há de respeitar as leis escritas: este valor negativo não distinguiria o liberal do conservador. Liberdade, em seu valor positivo, para o filósofo, é dada pela ética que encaminha os homens, respeitando seus conceitos vitais. Desse modo, o filósofo conclui que o Liberalismo serve para estabelecer virtudes necessárias para a socialização dos homens:

Não creio que há uma missão mais perfeita e gloriosa na terra; porque se há algo certo é que este gigantesco alambique do Universo está posto aqui para que tú, senhor leitor, e eu, e nossos filhos, vamos destilando do nossos corações umas gotas de virtude (Idem. p.38).

8. Desempenhos sociais dos sistemas dos governos totalitários e liberal

As diferentes formas de governo identificadas acima por Ortega y Gasset têm como alicerce a educação. Cada forma de governo tem um paradigma de educação que fornece valores para serem seguidos pela sociedade.

Desta forma, educação significa conduzir alguém para fora do lugar onde se encontra. Essa definição tem um sentido para Ortega y Gasset. Ao criar meios para que o homem saia da sua minoridade, como já dizia Immanuel Kant (1724-1808), Ortega y Gasset envolve o homem no abandono de suas referências ou circuntâncias. Portanto, o processo educativo para Ortega y Gasset, significa uma dilatação da vida para fora do meio em que ela está situada.

Ortega y Gasset afirma que as políticas totalitárias não cuidam de levar o homem para fora das suas circunstâncias. Ao contrário, as políticas totalitárias prendem o indivíduo no conjunto de referências ou circunstâncias e se esforça por manter o indivíduo preso na minoridade. Dessa forma, entende-se este método como uma doutrina, e não como uma educação no sentido clássico de levar alguém para determinado objetivo.

Como exemplo, podemos citar o filósofo russo Anton Semiónovitch Makarenko (1888-1939) que desenvolveu uma pedagogia socialista entendendo que o coletivo é um organismo social vivo. Suas idéias tinham como base que nenhum método pode ser elaborado à base do par aluno-professor, mas só à base da idéia geral da organização da sociedade e do coletivo, extinguindo o talento individual.

Entendemos que toda educação é atividade essencialmente política, pois trabalha com dois problemas vitais: o homem e a sociedade. Unir estes dois problemas foi o que intentou Makarenko. Para Ortega y Gasset, o homem tem a condição de ser livre e essa liberdade é que esclarece sua vida social. Sem a liberdade não se chega à compreensão do que é a vida de cada indivíduo. A educação liberal faz com que o homem perceba sempre a existência de novos caminhos a serem seguidos. Trata-se de buscar na experiência vital de cada um os meios para chegar ao objetivo, que é a formação de cidadãos.

Considerações Finais

A teses examinadas anteriormente traduzem aquilo que é essencial para a discussão da filosofia política de Ortega y Gasset. Elas nos ajudam a entender os problemas do homem do século XX e o significado e amplitude da crise observada por vários filósofos.

O problema encontrado pelo filósofo no campo da política é o que ele chama de “hiperdemocracia das massas” que significa que as massas atuam sem leis, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. Desse modo, as massas propuseram se a distanciar dos assuntos políticos, não discutindo e não participando das atividades políticas, o que consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e ignorância.

Entretanto, o grande feito do mundo ocidental é a criação da civilização, por meio da socialização. Isso porque, por mais de dois milênios os homens se esforçam para edificarem uma construção comum, mas mesmo com todo o esforço e sucesso o homem continua vulnerável, fraco e até adoece por causa de seus problemas e suas inseguranças. O homem não consegue viver humanamente sem manter uma tensão criadora e precisa estar alerta aos desafios de sua época para vencer os desafios.

A partir do momento em que o homem não consegue responder aos seus desafios, ele experimenta problemas psicológicos, ele perde horizonte. Ortega y Gasset entende que o homem deve-se ocupar com o que ele identifica como desafio, caso contrário, experimentará o fracasso, transformando-se em “homem-massa”. Cabe aos educadores e filósofos enfrentarem essa doença do século. Eles não devem se limitar a ensinar as técnicas da vida moderna, mas educar o homem para que ele socialize as preocupações e encontre soluções.

Neste trabalho examinamos as teses políticas e sociais de Ortega y Gasset. Vimos os problemas causados por uma sociedade de massa que desarticula a noção de responsabilidade pessoal e tira o caráter único do viver. Tal influência deve ser alterada para não se transformar a nação numa hiperdemocracia. A hiperdemocracia é o exercício das massas e imposição de seus costumes ao restante da sociedade com todas as implicações negativas daí decorrentes. Entretanto, isso não significa uma posição antidemocrática, que o filósofo condenava. Pensamos que ele espera superar o democratismo de inspiração rousseniana (cf. Carvalho, 2001. p. 411-415), ou melhor, conforme diz Maria Teresa Lopez de la Vieja, a crítica à hiperdemocracia é uma tentativa de suplantar os abusos da imposição e os inconvenientes do domínio do homem massa ao longo do século XX. Nossos estudos comprovam a correção desta tese.

Um dos modos de evitar a hiperdemocracia é permitir que a educação seja o exemplar fio condutor para os homens e assim privilegiar as decisões políticas de forma exemplar, valorizando o conhecimento e a competência. Aqui se verifica que, Ortega y Gasset dialoga com Aristóteles (367–322 a. C.), e assume a virtude da prudência. Aquele que se guiar nestes moldes será sempre um modelo a ser seguido. No que se refere ao exame do papel da educação na vida social, os intérpretes não se afastam do que aqui propusemos.

Há leitores de Ortega y Gasset que identificam a preocupação em formar homens puros como uma estratégia aristocrática. Essa não era a intenção do filósofo conforme já podemos deixar esclarecido. Esses intérpretes desconhecem que o filósofo valoriza a vida de todos de modo igual. E, para que haja uma vida política sem destruir os valores de cada pessoa, teria a educação a função de unificar, socializar os homens num princípio de amizade; essa é a real intenção do filósofo que nada revela de elitista. A posição aparentemente elitista de Ortega y Gasset se refere a aspectos psicológicos e antropológicos que, conforme nos indicou Maria Teresa Lopez de la Vieja, significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária. Trata-se de um convite ético a ser bom, mas não de um governo para poucos.

O filósofo não discute questões como eleições, partidos e formas de governo, e sim, deseja estabelecer bases de uma “pedagogia política”. Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesses e os valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública através do meio cultural não são tarefas dos políticos, e sim de uma elite cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço suficiente para transcender a vida comum. Como se vê o problema é de ordem moral. O instrumento com que conta cada homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão, uma razão voltada para a vida. A vida é, pois, uma atividade que se fortalece com a razão, mesmo sendo mais do que ela.

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*Artigo que serviu de base para o relatório final do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica,PIBIC/CNPq durante os anos 2001/2002, orientado pelo Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.

** Acadêmico de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei.




Os desempenhos sociais dos governos totalitários e liberal; A interpretação raciovitalista de Ortega y Gasset

Neste trabalho indicaremos quais eram, na avaliação de José Ortega y Gasset (1883-1955), os motivos que levaram as sociedades européias não perseguirem sua liberdade individual, tornando-se vítimas de uma política totalitária, massificante. Adicionalmente, procuramos estabelecer uma análise dos sistemas educacionais destas formas de governo, que para Ortega y Gasset, influíram na vida dos homens a não buscar a liberdade.

Palavras-chave: Totalitarismo. Liberdade. Educação

Considerações iniciais

A discussão sobre o totalitarismo é um desafio contemporâneo. O totalitarismo é uma filosofia política contrária ao pluralismo de idéias e a liberdade de expressão. Nesta comunicação, procuramos nos valer da análise do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), que entende o totalitarismo como uma tentativa de ocultar e combater a liberdade pessoal, e de justificar o poder e a autoridade de um grupo. Para efetivar este trabalho nos baseamos nos textos de filosofia política de Ortega y Gasset reunidos nas Obras Completas, sobretudo as que estão nos volumes X e XI. Ortega y Gasset explica que a causa dos regimes totalitários é a imposição de uma ideologia e a eliminação da educação liberal, que nos tempos modernos era responsável pela formação dos homens. Descobrir, os motivos que levaram as pessoas durante a maior parte do século XX a preferir uma ideologia totalitária, e não a viver livremente é o propósito do nosso trabalho.

1 Reflexões de Ortega y Gasset acerca do totalitarismo europeu

Para Ortega y Gasset, os governos totalitários não incentivam a democracia porque não restauram os sucessos do passado nascidos na liberdade e na pluralidade de opinião. Ao invés de tornar o Estado um espaço de homens virtuosos, o totalitarismo transforma o Estado em algo “forte” e emprega meios dissolventes para fazer valer as convicções da minoria, violentando os direitos individuais. Assim, o governo totalitário extermina a liberdade dos homens, transformado-os em seres alienados de sua vida e do seu destino. Ortega y Gasset explica que em épocas anteriores havia a necessidade de preservar a intimidade de cada um, problema cuja solução foi buscado pela liberal-democracia. Porém, o sistema totalitário surge como uma reação ao liberalismo, considerando-o incapaz de resolver os problemas sociais.

Partindo desta constatação, o filósofo espanhol, considera o totalitarismo como um fenômeno histórico. Isso significa que, a verdadeira natureza do totalitarismo está fora do tempo histórico. Trata-se de tentativa em ocultar a liberdade humana e é uma forma de garantir o poder e a autoridade do grupo. Ortega y Gasset explica ainda que o totalitarismo cria as armas para sua autodestruição ao abandonar a liberdade vital.

O totalitarismo é algo inautêntico porque entende que os homens são aquilo que eles verdadeiramente não são – seres coletivos. Paralelamente, os ideais que os totalitários acreditam não constituem a verdadeira realidade da vida. Por esta razão é ilusório buscar no totalitarismo um sentido autêntico porque ele não considera a vitalidade humana.

Toda agremiação política não é mais do que uma palavra vaga, e só adquire sentido autêntico quando reúne os ideais distintos integrando uma fase histórica. Para Ortega y Gasset, exatamente o que o totalitarismo não almeja é socializar seus ideais com a pluralidade de opiniões e além disso, prefere ocultar o que pretende de forma violenta.

O totalitarismo é uma forma de massificar os homens e encobrir suas contradições. Uma destas contradições é supor que o vencedor de uma disputa necessita da ajuda dos vencidos. Desse modo, o vencedor forja a debilidade de seu inimigo. A análise do filósofo revela que a busca do poder nada mais é que um jogo de estratégia, onde o mais débil não têm forças para se erguer, e por isso deve ser mantido nesta condição pela força de autoridade.

Por isso, Ortega y Gasset entende que se deve buscar nas circunstâncias a explicação para a debilidade dos homens, ou seja, buscar na vida aquilo que permitiu o governo totalitário chegar ao controle de vários estados europeus. Comparando, o totalitarismo com a chegada ao poder do romano Júlio César, no século 70 a.C. Ortega y Gasset explica:

A dificuldade (da sociedade romana) que falamos é idêntica a que sentimos diante do totalitarismo. Mais que o triunfo de César sobre os demais homens, nos parece que são os demais homens quem desejam o triunfo de César (Sobre el Fascismo. p. 500).

É necessário esclarecer que Ortega y Gasset, não considera que as épocas históricas possam se identificar, mas têm algo em comum. O fator comum, por exemplo, entre o governo de César, no período romano, e o totalitarismo, estabelecido na Europa no século XX é o prévio desprestígio das instituições estabelecidas. O fato mais grave nestes sistemas de governo, na avaliação do filósofo, são as mudanças radicais nas idéias e nos sentimentos que o totalitarismo provoca. Ortega y Gasset, está preocupado com a vida de cada um ao tratar as mudanças circunstanciais como algo grave.

O totalitarismo comporta partidos de posições autoritárias, conforme afirma no texto que se segue:

Um partido autoritário, como o são muitos; confusamente antidemocráticos, como vem sendo todas as direitas e esquerdas extremas; nacionalistas, como outra meia dúzia de grupos, de revolucionários, socialistas, etc. (Idem p. 501).

Para o filósofo, as características destes sistemas de governos são a violência e a ilegitimidade. O primeiro é conseqüência do segundo, e vice-versa formando um círculo vicioso. Os governos autoritários adquirem o poder através da violência e por isso são ilegais, assim como a violência que é um crime e favorece os autoritários chegarem ao poder.

Ortega y Gasset explica que o totalitarismo exerce o poder em nome da justiça, de uma ética e concepção de universo elaborados por um grupo particular. Estes valores são criados conforme as conveniências de consolidar a autoridade daqueles que mandam. Para fazer valer seus valores, os grupos autoritários usam a violência sem se preocupar em dar um fundamento jurídico a suas ações, além de, não se preocupar em construir nenhuma sólida teoria política. Esses governos totalitários, não pretendem governar com os direitos subordinados a uma ética comum que respeite a pluralidade dos homens. Os direitos que os autoritários conhecem são: a força e a violência das quais se valem para impor suas vontades.

A permanente prática da arbitrariedade estabelece um caos jurídico nos Estado autoritário. Ortega y Gasset, indaga-se sobre os motivos que fizeram as forças sociais, que estiveram sempre presentes na defesa da liberdade, não se esforçarem para impedir a vitória do caos jurídico que se instala com o autoritarismo. A resposta, a que o filósofo chega é a seguinte:

Pela sensível razão de que hoje não existem forças sociais importantes que possam viver esse entusiasmo; ou, porque hoje não existe nenhuma nação continental capaz de dar legitimidade que satisfaça a ilusão dos espíritos (Idem p. 503).

Ortega y Gasset, explica que a política que possibilita o triunfo da liberdade é o espírito público. O filósofo explica que esse espírito “dá a forma externa a profunda realidade oculta nos corações” (Idem p.503).

Isso significa que se deve abrir bem os olhos para tentar surpreender o enigma da realidade e extrair do que se averigua na política massificante férteis sugestões para evitar novos erros desta natureza. A fragilidade do sistema autoritário é que depende para existir de que haja uma debilidade nos homens, uma ignorância dos assuntos vitais e políticos.

2 Reflexões de Ortega y Gasset acerca do Liberalismo

Ortega y Gasset pensa o Liberalismo a partir das transformações científicas ocorridas no século XIX. Da mesma forma que o cientificismo influenciou a vida dos homens também influiu no exercício da política. Assim, houve um processo de adequação entre as idéias científicas e as idéias políticas, o que gerou inúmeros choques de in-culturalização.

O filósofo explica que na Europa existem muitos conservadores, e todo conservadorismo entende que não há mais nada para criar ou edificar numa cultura. Os conservadores querem construir um conjunto forte de homens, e assim não partem do princípio vital, base de vida de cada indivíduo, mas da necessidade do Estado em submeter todos os homens sob seu comando.

Conservadores são, no sentir do filósofo, os governos autoritários e totalitários. O governo conservador não deseja que os homens adquiram forças para sair das suas circunstâncias, e viver é vencê-las. Ortega y Gasset diz que o homem é um eu e sua circunstância e isto significa mencionar a acomodação imposta pelos conservadores às massas. Os sistemas políticos que preferem a coletividade não incentivam o indivíduo a sair das suas circunstâncias que o impedem de dar uma melhor significação a sua vida. Essa idéia conservadora de que o homem não saia da sua circunstância é típica das políticas anti-liberais. Ela promove uma incultura no homem, estagnando e fragmentando a nação. Na passagem que se segue o filósofo explica que as políticas de massa considera os homens simples resultado das circunstâncias em que vivem, mas lhes impede de refletir sobre o mundo ao redor:

Não nos é perguntado antes se queremos ser fortes; poderia ser que prefería ser bons, nada mais que bons; justos, nada mais que justos; discretos, em último caso, nada mais que discretos. E se nos proíbe a direção, nos impõe o dever da incultura (La Reforma Liberal. p.32).

O principal instrumento de educação política para que o homem vença os seus problemas, é a imprensa. A imprensa tem um papel fundamental na definição dos rumos da política. Entretanto, os periódicos não abordam seriamente os temas sociais e políticos, são artísticos. Ortega y Gasset explica que essa forma de arte controla as emoções sociais, por isso não dá ao povo a chance de debater os assuntos e não lhes mostra caminhos para seguir:

Os periódicos estão carregados de idéias da emoção para que expande a carga emotiva; não lhes toca elaborar afirmações ou negações, isto é para o sábio. Para o estadista; sua tarefa se reduz a expressar robustamente essas afirmações ou negações desempenhadas por outros (Idem p.33).

Para o filósofo é fundamental ressuscitar o Liberalismo e instaurar na Europa um verdadeiro partido liberal com atenção voltada para a liberdade. Mas, para isso, Ortega y Gasset explica que é preciso contar com o auxílio dos espíritos revolucionários. De que tipo de revolucionário ele fala? Não de um revolucionário armado, que usa a força para impor sua ideologia, mas um revolucionário capaz de unir os homens por um ideal de liberdade.

O Liberalismo para ser edificado e seguir seu curso na História deve se apresentar como o “partido da revolução”. Eis o que diz:

O Liberalismo se não quiser seguir sendo um fenômeno da História, tem que se confessar e se declarar inequivocamente sistema da revolução. Aos ânimos que acostumaram espantar-se com a sombra que desejam o ar das palavras proponho este ponto de meditação: que preferem: um sistema de revolução ou revolucionários sem sistema? (Idem p. 34).

O Liberalismo, para Ortega y Gasset, é uma forma de pensamento político que antepõe a realização de um ideal moral não dividir os homens em classes. O caminho seguido pelos totalitários, ao contrário, não atende as exigências vitais, nega o valor ético dos homens e atende este ponto de vista quando constrói uma constituição política sem identificar os valores éticos do seu tempo.
O Liberalismo acredita que nenhum regime social é definitivamente justo. Ortega y Gasset explica que sempre a norma ou idéia de justiça necessita de uma visão que transcenda a lei escrita:

Não nos é perguntado antes se queremos ser fortes; poderia ser que prefería ser bonsHaz click para twittear

Como os peripatéticos tinham que buscar fora do mundo e falavam em um Deus invisível ou primeiro motor imóvel, que impulsiona as coisas que vemos mover-se, assim o primeiro motor jurídico das transformações constitucionais é esse direito não escrito, esse direito ideal, centro da energia ética da História. A este direito sobreconstitucional que é sua vez de grado dever, chamo de revolução (Idem. p.35).

Liberalismo, no entendimento de Ortega y Gasset, é o exercício de liberdade. Porém, que liberdade é essa a que o filósofo se refere? Trata-se de uma liberdade mencionada na política platônica, aquela que reconhece o indivíduo fora do Estado. O Liberalismo orteguiano é resposta aos erros originais da fundamentação positivista utilitária do Liberalismo inglês. Tal forma é norma em toda Europa, provocando um individualismo exacerbado.

Na visão utilitária do Liberalismo, a palavra liberdade se reduz a certa forma de tolerância, explica Ortega y Gasset. Na passagem que se segue o filósofo explica o que entende por tolerância:

A tolerância não é renúncia ou extinguir a luta, e sim a utilização desta palavra, significa a confirmação e a legalização das armas de combate (Idem p. 36).

Para Ortega y Gasset, o exercício da liberdade é mais do que isto, significa modificar a constituição na medida que as gerações exigirem tal modificação. Não indica somente que há de respeitar as leis escritas: este valor negativo não distinguiria o liberal do conservador. Liberdade, em seu valor positivo, para o filósofo, é dada pela ética que encaminha os homens, respeitando seus conceitos vitais. Desse modo, o filósofo conclui que o Liberalismo serve para estabelecer virtudes necessárias para a socialização dos homens:

Não creio que há uma missão mais perfeita e gloriosa na terra; porque se há algo certo é que este gigantesco alambique do Universo está posto aqui para que tú, senhor leitor, e eu, e nossos filhos, vamos destilando do nossos corações umas gotas de virtude (Idem. p.38).

3 Desempenhos sociais nos sistemas de governo

As diferentes formas de governo identificadas acima por Ortega y Gasset têm como alicerce a educação. Cada forma de governo tem um paradigma de educação que fornece valores para serem seguidos pela sociedade.

Desta forma, educação significa conduzir alguém para fora do lugar onde se encontra. Essa definição tem um sentido para Ortega y Gasset. Ao criar meios para que o homem saia da sua minoridade, como já dizia Immanuel Kant (1724-1808), Ortega y Gasset envolve o homem no abandono de suas referências ou circuntâncias. Portanto, o processo educativo para Ortega y Gasset, significa uma dilatação da vida para fora do meio em que ela está situada.

Ortega y Gasset afirma que as políticas totalitárias não cuidam de levar o homem para fora das suas circunstâncias. Ao contrário, as políticas totalitárias prendem o indivíduo no conjunto de referências ou circunstâncias e se esforça por manter o indivíduo preso na minoridade. Dessa forma, entende-se este método como uma doutrina, e não como uma educação no sentido clássico de levar alguém para determinado objetivo.

Como exemplo, podemos citar o filósofo ucraniano Anton Semiónovitch Makarenko (1888-1939) que desenvolveu uma pedagogia socialista entendendo que o coletivo é um organismo social vivo. Suas idéias tinham como base que nenhum método pode ser elaborado à base do par aluno-professor, mas só à base da idéia geral da organização da sociedade e do coletivo, extinguindo o talento individual.

Entendemos que toda educação é atividade essencialmente política, pois trabalha com dois problemas vitais: o homem e a sociedade. Unir estes dois problemas foi o que intentou Makarenko. Para Ortega y Gasset, o homem tem a condição de ser livre e essa liberdade é que esclarece sua vida social. Sem a liberdade não se chega à compreensão do que é a vida de cada indivíduo. A educação liberal faz com que o homem perceba sempre a existência de novos caminhos a serem seguidos. Trata-se de buscar na experiência vital de cada um os meios para chegar ao objetivo, que é a formação de cidadãos.

Considerações finais

Este trabalho teve o propósito de meditar sobre as razões que levaram a constituição de políticas que não respeitaram a liberdade individual nesse século que terminou. Nós o fizemos com base nas reflexões raciovitalistas de Ortega y Gasset, e observamos que, enquanto as políticas totalitárias possuíam uma pedagogia doutrinária que encaixava o homem num modelo a ser seguido; a educação liberal respeita a liberdade de cada um.

Ortega y Gasset não culpa o homem por não perseguir sua liberdade, mas ao grupo que atingia o poder. Também culpa a autoridade que doutrina os homens a fim de não o deixarem sair da condição de minoridade. O filósofo explica que o Liberalismo é o sistema que melhor educa o homem por respeitar sua condição vital e permitir que o homem assuma o objetivo de se tornar cidadão
A crítica do filósofo espanhol estava direcionada principalmente à escola positivista e a marxista. Para ele, tomar o homem como um ser que produz é o mesmo que transformá-lo numa máquina. Esta era a razão que fazia os europeus não perseguissem a liberdade individual, eles não entendiam que viver é a única razão deles estarem no mundo. A vida não era a razão de estarem no mundo.

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* Artigo desenvolvido como parte das atividades do PIBIC/CNPq, durante os anos de 2001/2002, da Universidade Federal de São João del-Rei, orientado pelo Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho.
** Acadêmico do Curso de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei, PIBIC/CNPq, anos 2001/2002.




ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das massas. Martins Fontes: São Paulo, 1987

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) escreveu os artigos que vieram a compor a obra A Rebelião das massas em outubro de 1929 no diário El Sol de Madri. O livro foi editado em 1930, tornando-se uma das obras mais conhecidas do autor em todo o mundo. A primeira edição brasileira apareceu em agosto de 1987, pela editora Martins Fontes com tradução de Marylene Pinto Michael e revisão de Maria Estela Heider Cavalheiro.

O livro é dividido em duas partes: a) A Rebelião das massas; e b) Quem manda no mundo? Cada parte subdivide-se nos artigos que o autor desenvolveu para o esclarecimento de suas teses filosóficas e sociológicas, que serão examinadas nesta resenha, com ênfase na filosofia política. Podemos adiantar que não é uma obra difícil de ser lida; porém, os conceitos trabalhados só podem ser compreendidos se entendermos os problemas que ele pretende enfrentar.

A Rebelião das massas é uma resposta aos problemas gerados pela política empenhada em 1931, embora o autor reconheça que não é um livro escrito por um político atuante. A obra reflete os problemas de uma época de dúvidas e incertezas quanto ao destino vital da Espanha.

Julían Marías (nasc. 1914), importante estudioso de Ortega y Gasset, explica, em sua História da Filosofia, que este livro mereceu diversas interpretações e foi entendido como um conjunto de teses e afirmações fragmentadas originado de artigos do filósofo. Desse modo, por um bom tempo não atentaram para sua totalidade e nem perceberam que os artigos possuem unidade na relação entre os temas abordados. Repetindo Ortega y Gasset, Julían Marías afirma que: um livro é sempre um livro e deve ser lido na sua totalidade.

Essa obra de Ortega y Gasset não se distancia da temática de Meditações do Quixote (1914): “Eu sou eu e minha circunstância e se não salvo a ela não salvo a mim”.

No primeiro artigo intitulado O fato das aglomerações, o autor explica como estava a sociedade em seu tempo. Eis o que diz:

“As cidades estão cheias de gente. As casas, cheias de inquilinos. Os hotéis, cheios de hóspedes. Os trens, cheios de passageiros. Os cafés, cheios de consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. Os consultórios dos médicos famosos, cheios de pacientes. Os espetáculos, não sendo muito fora de época, cheios de espectadores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não costumava ser problema agora passa a sê-lo quase de forma contínua: encontrar lugar” (p. 36).

Essa análise do filósofo significa que o quantitativo visual, transposto para a terminologia sociológica, significa “massa social”. Do mesmo raciocínio retira o conceito de minoria que completa o conceito de massa. Dessa maneira, o entendimento da sociologia sugere a divisão da sociedade em dois pólos que ele traduz com a seguinte fórmula:

As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas” (p. 37).

Ao identificar as “massas”, não está falando de uma classe social inferiorizada, mas de uma classe de homens. O “homem-massa” é uma anormalidade, uma deformação doentia que pode ocorrer em qualquer classe. O “homem-massa” é o indivíduo que não atribui a si mesmo um valor, e certamente não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais indivíduos. O filósofo ainda explica que as minorias seletas não são uma classe social superior, mas grupos minoritários que agem ao contrário das massas. Ortega y Gasset entende que a partir do momento em que os indivíduos seletos deixam de executar suas tarefas vitais, eles passam também a viver como “homens-massa”.

O conceito de rebelião no título da obra não é contra políticos, mas contra o homem vulgar, contra o “homem-massa”. As propostas sugeridas pelo filósofo são que cada indivíduo estabeleça os mecanismos que impedem o crescimento próprio. Negar essa tarefa é, no sentir de Ortega y Gasset, uma falsidade, uma enfermidade social.

O problema encontrado por Ortega y Gasset neste primeiro artigo é o que ele chama de “hiperdemocracia das massas”. A “hiperdemocracia das massas” é o fato das massas atuarem sem leis, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. As massas propuseram a distanciar-se dos assuntos políticos, não discutindo e não participando das atividades políticas, o que consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela ignorância. A lei que ocupa essa hiperdemocracia é: “Quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado” (p. 41).

Em outro artigo do livro intitulado A subida do nível histórico, o filósofo explica que o grande sucesso do seu tempo é o acesso das massas à vida histórica, é a criação da civilização. Por mais de dois milênios se esforçam para edificarem uma construção comum, mas mesmo com todo esse esforço e sucesso o homem continua vulnerável, fraco e até patológico por causa de seus problemas e suas inseguranças. O homem não consegue viver humanamente sem manter uma tensão criadora e precisa estar alerta aos desafios de sua época para experimentar um desafio que o leve para frente.

A partir do momento em que o homem não consegue dar um passo para o sucesso, ele vive problemas psicológicos, ele não sabe executar seu talento. Ortega y Gasset entende que o homem deve se ocupar com o que ele se identifica, caso contrário, experimentará o fracasso, transformando-se em “homem-massa”. Cabe aos educadores tentarem curar essa doença individual. Na passagem a seguir, Ortega y Gasset aponta os limites da Escola:

“Nas escolas que foram motivo de orgulho para o século passado, não foi possível fazer mais do que ensinar às massas as técnicas da vida moderna, mas não se conseguiu educá-las” (p. 70).

A história, a política e a cultura revelam somente a superfície das relações humanas. A realidade histórica é muito mais do que essas ciências revelam, é mais profunda. Para o filósofo, consiste na pura ânsia de viver. O principal motivo que levou o homem a afastar-se da sua condição de indivíduo, a não angustiar-se com seus problemas, foi o fato de ele sentir que o passado se tornou pequeno diante do presente:

“Essa grave dissociação entre o passado e o presente é o acontecimento comum de nossa época e nela está incluída a suspeita, um pouco confusa, que leva à perturbação da vida nestes anos. Os homens atuais sentem de repente que ficaram sozinhos sobre a terra; que os mortos morreram de fato; que já não pode ajudar-nos. O resto do espírito tradicional se evaporou. Os modelos, as normas, as linhas de conduta já não nos servem. Temos que resolver nossos problemas sem a colaboração efetiva do passado, em pleno atualismo – sejam eles de arte, de ciência ou de política” (p. 58).

Até o momento podemos tirar algumas conclusões da explicação dada pelo filósofo. A primeira é que a democracia liberal é a melhor forma de organização política que nossa cultura criou, mas foi a aplicação a civilização da técnica. A segunda é que essa forma de vida não é a melhor maneira de viver. E, por último, que é perigoso o retorno a formas de vida próprias dos séculos passados.

Sendo assim, a democracia liberal e a técnica foram unidas e são as formadoras da geração que se seguiu no início do século XX. Trata-se de uma nova forma de vida. Criou-se um novo ambiente para a convivência social regida por três princípios: a democracia liberal, as experiências científicas e a sociedade industrial.

O filósofo conclui que esses elementos não foram inventados no século XIX, mas nos séculos anteriores. O século XX deu ao movimento rumos próprios. A mudança experimentada fez com que os homens acreditassem que a vida é sinônimo de limitação, obrigação, dependência, ou seja: pressão. O homem comum entende que o mundo da técnica é o natural. O mundo técnico aparece, para ele, como uma criação perfeita da Natureza:

“Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira, porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que está-aí, do que dizemos é natural, porque não falha. Essas massas mimadas são bem pouco inteligentes para acreditar que essa organização material e social, posta à sua disposição como o ar, é da mesma origem que este, já que, pelo visto, também não falha, e é quase tão perfeita como a natural” (p. 77).

A vida, para o filósofo, não é mais que lidar com o mundo. Para Ortega y Gasset, a vida é o jogo de possibilidades ilimitadas e independentes de outras pessoas. Com tal afirmativa, retirada do artigo Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia, entendemos que o filósofo complementa aquilo que traduz na segunda parte de sua fórmula: e se não salva a circunstância, não salvo a mim também:

“Viver é sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter que considerar o que nos limita, a voz novíssima grita: Viver é não ter limite algum; portanto, é abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio, ninguém é superior a ninguém” (p. 79).

Nessa passagem acima fica claro o que o filósofo chama de esforço que, para a elaboração de sua Filosofia Política, possui uma significado importante para tratar suas condições vitais. Aos olhos do “homem-massa”, o viver não possui essa direção, ele apenas espera elevar seu padrão de vida. Outro assunto importante é o exame do conceito de nobreza. Nobreza, para ele, é “sinônimo de vida dedicada, sempre disposta a superar a si mesma, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência” (p. 82). Dessa forma, Ortega y Gasset distingue a vida nobre da vida vulgar. Feita essa distinção, podemos passar para o artigo Por que as massas intervêm em tudo e por que só intervêm violentamente.

Nesse artigo surge plenamente justificado o título da obra. A rebeldia das massas é a obliteração das almas medíocres e constitui um gigantesco problema para a humanidade. Para tratar esse assunto, o filósofo distingue o tolo, que é o sujeito que não desconfia de si, não indaga sobre seus problemas e nem percebe a vida que está em torno. Já o perspicaz, diversamente, “surpreende a si mesmo (…) e se esforça para escapar iminente da tolice, e esse esforço consiste na inteligência”(p. 86). Então, para que haja uma cultura, é preciso que haja homens inteligentes, esforçados, senão toda a criação humana até aqui edificada se transforma numa barbárie. A barbárie é a rebelião das massas, na qual os homens passam a não mais dar conta de si, não mais recorrem à civilização e se aprofundam numa estagnação de valores.
Ortega y Gasset menciona alguns movimentos que aconteceram na Europa que exemplificam o que ele entende por estado de barbárie. Tais movimentos são o sindicalismo e o fascismo:

“Entre as espécies de sindicalismo e de fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razão e nem quer ter razão, mas, que simplesmente, mostra-se decidido a impor suas opiniões. Aqui está o novo: o direito a não ter razão, a razão da sem razão” (p. 89).

Assim, o homem que aí se encontra quer opinar, mas não aceita as condições de opinar, que é o conhecimento dos pressupostos históricos, dos fatos que levaram as nações a prosperarem e a declinarem. Em todas as épocas, conta o filósofo, quando as massas atuaram na vida pública não discutiram tal circunstância. Nunca sentiram que a civilização é antes de tudo vontade de conviver, enquanto a barbárie é a tendência da dissociação. Para Ortega y Gasset, a melhor forma para solucionar esse convívio é a democracia liberal. Segundo ele, esse modelo de democracia consiste na maior representação da vontade de conviver. O liberalismo é o direito político que limita o poder público porque outorga à minoria o direito da maioria.

Ao examinar o artigo seguinte, Primitivismo e História, entendemos que o “homem-massa” entende a civilização como algo natural. Os valores essenciais da cultura não o interessa, ele não é sensível a eles. Isso aconteceu devido ao processo de reconstrução da Europa depois da Primeira Grande Guerra. “O corpo vulgar da Europa central não quer pô-los sobre os ombros” (p. 105). O homem fracassa por não acompanhar o progresso de sua própria civilização. Nos debates políticos, homens cultos ainda formulam e teorizam seguindo os conceitos já inoperantes que em tempos passados serviram para solucionar problemas menos sutis. Nesse sentido, Ortega y Gasset equilibra no mesmo nível o avanço da civilização com os problemas vividos pelas gerações. Na medida em que a civilização avança, mais problemas surgirão e soluções mais complexas serão exigidas. O problema ainda mais grave da época em que viveu o filósofo foi o abandono das ciências humanas. O dirigente político, por exemplo, pouco sabe de história e toda sua política está calculada para evitar o erro numérico. Esses mesmos dirigentes não entenderam que o passado histórico quando esquecido elimina a “cultura histórica”, ou seja, a construção humana do passado, transformando o Estado em barbárie.

Ortega y Gasset diz que o “homem-massa”, que é pouco exigente, acaba conduzido por pessoas medíocres, extemporâneas e sem grande memória, ou seja, sem consciência histórica, que se comportam como se o passado tivesse acabado. Não se trata de discutir o credo das pessoas em ideais marxistas, mas em entender que os dirigentes da Rússia em 1917 não tiveram preocupação em corrigir os erros antigos. Não houve uma preocupação com a vida humana. A frase com a qual o filósofo define o que é “Revolução” é simples e direta: “A Revolução devora seus próprios filhos” (p. 107). O político genial, considerado pelo filósofo, é aquele que leva os professores de História a ficarem loucos, “ao verem que todas as leis de sua ciência caducaram, foram derrogadas e pulverizadas” (p. 107).

Ortega y Gasset admite que é preciso superar o liberalismo do século XIX, mas não com nenhum tipo de antiliberalismo. O liberalismo já é uma inovação da vivência do homem. Antiliberal era que os homens faziam antes do advento do Liberalismo. Ser anti é, para o filósofo, uma postura equivocada que não levará a superar os problemas então vividos:

“Quem se declara anti-Pedro, traduzindo numa linguagem positiva, nada mais faz que se declarar partidário de um mundo onde não exista Pedro. Pedro ainda não tinha nascido. O antipedrista, em vez de se colocar depois de Pedro, coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada, no fim da qual se encontra inexoravelmente a reaparição de Pedro” (p. 108).

Para o filósofo, os problemas da Europa não serão solucionados se não forem administrados por pessoas “contemporâneas” do seu tempo.

Numa boa organização das coisas públicas, a massa não atua por si mesma. As massas estão no mundo para serem representadas e dirigidas. Quando, numa sociedade, a massa atua por si mesma, ela só age de uma única forma: lincha.

“Não é totalmente por acaso que a Lei de Linch é americana, já que os Estados Unidos são, de certo modo, o paraíso das massas. Nem muito menos se pode estranhar que agora, quando as massas triunfam, triunfe também a violência e se faça dela a única ratio, a única doutrina” (p. 128).

tanto o fascismo como o comunismo são dois potenciais fabricantes de 'homem-massa'Haz click para twittear

Essa é a atitude a que as massas recorrem para implantar sua justiça. E, a partir da defesa dos homens da violência nasce o Estado. No artigo O maior perigo, o Estado, Ortega y Gasset explica que o Estado de sua época é o produto mais visível e notório da civilização. Entretanto, o grande erro está naqueles homens que não refletem ao dizer e repetir: “O Estado sou eu”. E a massa embarca nessa idéia sem perceber o erro que isso causa para uma nação. Os homens que assim pensam acabam massacrando as minorias que não pensam como eles:

“O Estado só é massa no sentido em que se pode dizer que dois homens são idênticos porque nenhum deles se chama João. O Estado Contemporâneo e a massa só se coincidem em ser anônimos. Mas acontece que o homem-massa pensa, de fato, que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto, a esmagar com ele qualquer minoria criadora que o perturbe – que o perturbe em qualquer campo: na política, nas idéias, na indústria” (p. 132).

O resultado dessa tese é fatal para a vida. Os homens passarão a viver em função do Estado, tornando-se máquinas do governo. Após certo tempo trabalhando como máquinas, os homens se tornarão como máquinas: enferrujados, o que é muito pior que a morte orgânica, completa Ortega y Gasset.

No ano de publicação da obra, Ortega y Gasset declara que tanto o fascismo como o comunismo são dois potenciais fabricantes de “homem-massa” e que o maior perigo que a Europa passaria seria as massas se renderem a essas formas políticas. Numa explicação do filósofo, a Europa acabou ficando sem moral quando intentou a delicada operação de mandar no mundo, de estabelecer normas válidas que dão uma caricatura da vida coletiva. Neste livro, Ortega y Gasset também dá início à sua investigação sobre os processos de nacionalização e união dos países europeus. Esse processo consiste em identificar as diferenças existentes entre as sociedades e o Estado. A partir dessa investigação, ele entende que os problemas de cada Estado ultrapassam suas fronteiras, e por isso têm a necessidade em solucioná-los em conjunto. Está claro que Ortega y Gasset postula desde 1930 a formação da União Européia.

A Rebelião das massas é um livro de Filosofia que deve ser lido integralmente. É uma obra-prima de Ortega y Gasset e apresenta uma nova forma de encarar o mundo. Nossa existência é experiência individual, e o mundo é a união das sociedades. Nesse sentido, Ortega y Gasset foi um defensor do valor de cada pessoa humana, determinando o conceito de vida de cada um. Assim, o “homem-massa” passa a ser um inimigo do consciente de sua singularidade.

Danilo Santos Dornas
Acadêmico de Filosofia – FUNREI
PIBIC/CNPq – 2001/2002

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Apresentando a obra A Rebelião das massas

José Ortega y Gasset é um filósofo nascido em maio de 1883, em Madri. Licenciou-se em Letras e Filosofia entre os anos 1898 e 1902, concluindo o doutorado em 1904 com a tese: Os terrores do ano mil: crítica de uma lenda. Em seguida assumiu a cátedra de Metafísica na Universidade de Madri, posto que exerceu até 1937, quando o deixou e passou a ministrar cursos de extensão. Faleceu em 1955 vitimado de câncer.

Ortega y Gasset é um autor que escrevia, além de livros e artigos, ensaios que o projetaram como um importante escritor. Muitos desses artigos eram encaminhados ao jornal El Sol, de Madri, em 1929. Como existia uma ligação entre as questões levantadas nesses artigos, houve a necessidade de organizá-los num livro intitulado: A Rebelião das massas. Esse livro encontra-se editado pela Martins Fontes, sob a tradução portuguesa de Marylene Pinto Michael.

A obra é uma resposta aos inúmeros problemas sociais provocados pelo mal exercício da política no tempo do filósofo, embora ele reconheça que não é um livro escrito por um político atuante. O autor explica que os problemas gerados na Europa são causados pela superlotação dos lugares públicos, que é o que ele chama de “massa social”.

O que o preocupa é o não esforço do homem para sair da “massa social”. O “homem massa”, como ele o trata, é o indivíduo que não atribui a si um valor e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos demais indivíduos.

Dessa forma, o problema social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os rumos políticos que devem seguir sua nação. O distanciamento dos homens nos assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e ignorância. Esse fato é o que ele chama de “hiperdemocracia das massas” cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de leis.

Um dos sintomas mais evidentes da hiperdemocracia se instaura quando a massa resolve fazer justiça. Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que garantam a paz. Ortega y Gasset verifica que quando as massas triunfam, reina também, a violência como doutrina e única razão. Para controlar a violência das massas nasce o Estado.

O “homem massa” não se preocupa com sua civilização, com sua cultura, sua educação, que são os caminhos que ele tem para sair dessa condição de vulgaridade. O resultado dessa tese é fatal para a vida de cada ser humano, porque os homens passam a viver em função do Estado, tornando-se máquinas estatais. Após certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam.

Os governos totalitários, comunistas e socialistas são potenciais fabricantes de “homens massa” porque impedem o homem de valer-se de sua vida singular para agir. Por isso, é perigoso render-se a esses projetos políticos. Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem particularidade que o distingue dos demais homens. Está agarrado em suas circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair.

O título da obra trata de uma rebelião individual contra os desejos do “homem massa”. É a revolta pessoal contra a consciência coletiva. É a defesa do filósofo em manter o homem numa posição seleta pela sua própria capacidade de trabalhar, construir e esforçar-se cada vez mais para melhorar sua vida.

Ortega y Gasset apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência individual identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio de cada ser humano, enquanto, o “homem massa” é o inimigo consciente de sua singularidade.

Danilo Santos Dornas

(Publicado no jornal Tribuna Sanjoanense)

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